Eletrobras melhorou lado financeiro, mas capacidade para investir é limitada

De 2017 para cá, a média de investimento foi de R$ 1,9 bilhão ao ano, conforme dados da consultoria Economática

Logotipo da Eletrobras visto em instalações da empresa no Rio de Janeiro
Logotipo da Eletrobras visto em instalações da empresa no Rio de Janeiro Foto: Pilar Olivares/Reuters

Por Renée Pereira, do Estadão Conteúdo

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 A Eletrobras passou os últimos quatro anos arrumando a casa para ser privatizada e atrair investidores. Nesse período, a estatal reduziu o quadro de funcionários, cortou despesas e vendeu algumas subsidiárias.

Como resultado, os indicadores de alavancagem tiveram melhora, o caixa dobrou e o valor de mercado da companhia saltou 155%, para R$ 69 bilhões. A capacidade de investimento, no entanto, continuou limitada pelas travas do governo para a estatal se endividar, afirmam especialistas.

De 2017 para cá, a média de investimento foi de R$ 1,9 bilhão ao ano, conforme dados da consultoria Economática. No período anterior, quando havia grandes projetos, a média chegou a R$ 10 bilhões. Esse é um dos principais argumentos a favor da privatização.

Espera-se que, sem as travas estatais, a companhia possa dar andamento à sua expansão, interrompida desde a emissão da Medida Provisória 579, no governo Dilma Rousseff.

A estatal teve prejuízos bilionários por causa da renovação dos contratos de geração de suas usinas a um valor que cobria apenas o custo de manutenção – por causa da regra para reduzir o preço da energia.

Além disso, a companhia também foi envolvida em esquemas de corrupção descobertos pela Operação Lava Jato, o que afetou ainda mais sua capacidade de investimento.

Embora seja a terceira vez que o governo federal tenta vender a estatal, especialistas – defensores da privatização, como Elena Landau – criticam a forma atribulada como o processo tem sido conduzido.

Primeiro porque, segundo a economista, uma operação dessa envergadura não deveria ser feita por meio de uma MP e com a inclusão de políticas públicas.

Para Daniel Martins, diretor da área de energia elétrica da consultoria Roland Berger, a privatização deveria trazer benefícios de melhor alocação de recursos, que gerasse mais lucros e maior arrecadação para o governo.?

É preciso criar uma forma de gestão mais alinhada aos negócios?, diz. Mas, ao trazer os ?jabutis? para dentro da MP, o processo fica comprometido e afeta o acesso ao capital. Outra crítica vem do modelo de privatização.

O governo optou pela capitalização da empresa em que vai diluir sua participação e deixar de ser controlador. Mas a expectativa é que tenha em mãos a chamada golden share, um instrumento que dá poder de veto ao governo. Para Martins, a inclusão desse mecanismo não deveria ser motivo para afastar investidores.? Na Europa, algumas privatizações têm esse instrumento.

Mas uma golden share na Inglaterra não é igual a uma no Brasil.? Isso porque o governo tem um histórico de intervenção em estatais. Na prática, isso acaba afastando investidores e compromete a precificação das ações para a capitalização.?

Qualquer medida que possa diminuir a autonomia da empresa reduz o apetite do investidor?, diz o sócio do escritório BMA Advogados, José Guilherme Berman. Na avaliação de Martins, a inclusão de políticas públicas na MP e a golden share podem criar uma seleção adversa. Isso significa que alguns investidores podem ficar de fora do processo por preocupações com o futuro. Mas haverá o interesse de outros atores, que não se incomodam com essas questões e estão de olho no potencial da companhia – que detém a maior capacidade de geração do País e a maior rede de transmissão.?

Alguns grupos, como Engie e AES Tietê, estão se posicionando para a transição energética e, nessa estratégia, a Eletrobras pode ser um negócio importante?, diz o ex-executivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Nelson Siffert, pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ.

Tamanho

Hoje a estatal é responsável por quase um terço da capacidade instalada do País, mas nem tudo vai entrar na capitalização. Dos 51.143 megawatts (MW) do grupo, 15.990 MW ficarão de fora. Essa é a geração de Itaipu Binacional e Angra 1 e 2. As duas empresas continuarão sob controle estatal.

Além de Furnas, Eletronorte e Chesf, a holding detém participação em 83 Sociedades de Propósito Específico (SPEs). Ao longo dos últimos anos, a Eletrobras vendeu quase 100 SPEs e sete distribuidoras deficitárias, que prejudicavam o desempenho financeiro do grupo. Isso aliado ao Plano de Demissão Voluntária (PDV), que ajudou a reduzir o quadro de pessoal de 26 mil para 12 mil, e ao Centro de Serviços Compartilhados entre as estatais do grupo, permitiu um corte de 40% nas despesas da companhia.?

Pudemos reduzir a alavancagem da empresa de 8,8 vezes a sua geração de caixa anual (Ebitda) para menos de 2 vezes. Revertemos todos os R$ 30 bilhões de prejuízos acumulados de 2012 a 2015, e em menos de quatro anos (2016 a 2020) acumulamos mais de R$ 32 bilhões de lucro?, afirma o ex-presidente da estatal, Wilson Ferreira Jr. O analista da Fitch Ratings, Wellington Senter, afirma que a expectativa é que a capitalização movimente cerca de US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões).

Esse valor ficaria no caixa da empresa, mas como está prevista a renovação antecipada de concessões de 26% da capacidade instalada da empresa, parte do valor seria repassado ao governo por meio de pagamento de outorga.?

A Eletrobras terá uma nova concessão de trinta anos para os ativos envolvidos e poderá recontratar essa capacidade com melhores condições comerciais?, diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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