Em 20 anos, inflação só ficou no centro da meta um mês

IPCA de abril foi negativo e reforça apostas de que índice de preços deve descumprir, mais uma vez, o limite mínimo estipulado pelo governo

Juliana Elias

do CNN Business, em São Paulo

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O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação divulgado nesta sexta-feira (8), confirmou uma freada brutal no consumo em abril e apresentou deflação de 0,31% no mês. Em 12 meses, a inflação acumulado foi para 2,40%

O resultado confirma a possibilidade cada vez mais real de que a inflação deve encerrar 2020 abaixo do limite mínimo da meta estipulada pelo governo, que é de 4% com uma banda de tolerância que vai de 2,5% a 5,5%. As projeções mais recentes do mercado esperam um IPCA de 1,97% ao fim 2020, de acordo com o Boletim Focus do Banco Central. Só em 1998, com um 1,65%, a inflação anual do país foi mais baixa do que isso.

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Não vai ser a primeira vez que o Brasil fica completamente fora da meta de inflação que deveria estar cumprindo – desde 1999, quando o regime de metas foi implantado, isso já aconteceu cinco vezes, considerado o fechamento do ano: em 2001, 2002, 2003, 2015 e 2017. Nas quatro primeiras, o estouro foi para cima. Só em 2017 o descumprimento foi para baixo (o IPCA ficou em 2,95% para uma tolerância que ia de 3% a 6%). 

O regime de metas para a inflação é um mecanismo que visa evitar descontrole de preços e que foi implantado no Brasil em junho de 1999. O CNN Business fez um levantamento para verificar em quantos meses, desde janeiro de 2000, a inflação de fato realizada (considerado o IPCA acumulado em 12 meses) ficou dentro da meta estipulada à época. 

Nos 243 meses de lá até março de 2020, em apenas um o resultado acertou exatamente o alvo: julho de 2009, com meta e IPCA em 4,5%. Naquele ano de recessão, a crise financeira internacional atingiu momentaneamente os preços e foi o que ajudou a puxar para o centro uma inflação que vinha rodando a 6% um ano antes.

Em todos os outros meses, o indicador operou abaixo ou, com ainda mais frequência, acima do centro da meta. Em um terço do período todo (80 meses) o IPCA furou o teto tolerado.

Veja estes e outros fatos sobre o regime de metas no Brasil:

A meta a ser perseguida pelo Banco Central já foi revista algumas vezes. A primeira e mais alta (considerado o centro) foi de 8%, em 1999. A mais baixa foi de 3,25%, em 2003, revisada em poucos meses. O período mais longo sem alterações foi de 2005 a 2018, com o alvo mantido em 4,5%.

– A inflação ficou acima do centro da meta em 184 meses dos 243 considerados (75,7% do total)

– A inflação ficou abaixo do centro da meta em 58 meses dos 243 considerados (23,8% do total). Destes, 30 foram nos 10 anos até 2010 e 28 nos três anos de 2017 a início de 2020. Nenhum mês entre 2011 e 2016 registrou inflação abaixo do centro da meta.

– Dos 243 meses analisados, a inflação ficou a menos de 0,25 ponto do centro da meta, para mais ou para menos, em apenas 24 (9,9% do total)

– 2009, 2010 e 2018 foram os anos com mais meses próximos do centro da meta: quatro meses cada (considerada a distância máxima de 0,25 ponto para mais ou para menos)

– Em apenas um mês, de todos os 243, a inflação ficou exatamente no centro: julho de 2009 (meta e inflação de 4,5%). A inflação ficou a menos de 0,1 ponto do alvo em outros 13 momentos. 

– A inflação descumpriu e furou o teto da meta em 80 meses (32% do total); todos eles anteriores a 2016

– Os dois períodos mais longos de IPCA acima do teto foram de fevereiro de 2001 a dezembro de 2003 (35 meses) e de janeiro de 2015 a novembro de 2016 (23 meses)

– A inflação descumpriu e ficou abaixo do piso da meta em 12 meses (4,9% do total); todos eles posteriores a 2017, sendo 11 em sequência (de julho de 2017 a maio de 2018)

– A inflação mais alta registrada foi de 17,24%, em maio de 2003 (a meta era de 4%, com piso de 1,5% e teto de 6,5%)

– A inflação mais baixa registrada foi de 2,46%, em agosto de 2017 (a meta era de 4,5%, com piso de 3% e teto de 6%)

O que é o regime de metas

O sistema de metas para a inflação foi um padrão estabelecido em diversos países no final dos anos 1990 e é usado até hoje para moderar os preços. Aqui, as metas são definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), colegiado ligado ao Ministério da Economia.

É papel do Banco Central manter o país no centro dessa meta por meio, principalmente, da taxa de juros, a Selic, que é definida por ele: juros baixos estimulam o crédito e o consumo e fazem a inflação subir, enquanto juros altos servem para o oposto.

No Brasil, a meta tem um alvo central (hoje em 4%) e pequenas bandas de tolerância para mais e para menos. Essas margens de tolerância já foram criadas para comportar os choques externos que possam desviar a rota do centro, como disparadas de preços internacionais ou pandemias. Por isso, não deveria haver desculpas para descumpri-las, e o objetivo deve ser sempre estar o mais próximo possível do alvo.

A cada vez que o país fecha o ano com o IPCA furando o teto ou o piso dessa tolerância, o presidente do Banco Central deve fazer uma carta aberta explicando as razões por não ter cumprido sua missão. Desde 1999, isso aconteceu cinco vezes, sendo que as quatro primeiras foram por estouros para cima: 2001, 2002, 2003, 2015 e 2017. 

O sistema brasileiro, diferentemente de alguns países, exige que a banda da meta seja cumprida apenas no fechamento de cada ano, tolerando furos do teto ou do piso em outros meses ao logo do ano.

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