Empresas de tecnologia vão ser as maiores da bolsa brasileira, prevê Lemann

Um dos maiores e mais bem-sucedidos empreendedores do país deu a sua visão sobre os efeitos da pandemia: 'vamos ser mais produtivos'

Para Jorge Paulo Lemann, empresas brasileiras de tecnologia vão ser as maiores da bolsa brasileira
Para Jorge Paulo Lemann, empresas brasileiras de tecnologia vão ser as maiores da bolsa brasileira Foto: Divulgação

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O mundo vai mudar e temos que nos adaptar para ser mais produtivos e construtivos. Essa é a visão de um dos mais bem-sucedidos brasileiros de todos os tempos, Jorge Paulo Lemann, 80 anos, sobre o momento atual da sociedade com a pandemia causada pelo novo coronavírus.

O empreendedor falou nesta segunda-feira (10) com membros e alunos da Fundação Estudar na sua reunião anual de líderes, a qual o CNN Brasil Business teve acesso.

A Estudar é uma instituição sem fins lucrativos que se dedica a financiar estudos de brasileiros no exterior. O encontro foi realizado por meio da ferramenta de videoconferência Zoom.

Na edição deste ano, Lemann entrevistou e foi entrevistado pelo empreendedor brasileiro Henrique Dubugras, 24 anos, um dos fundadores da fintech americana Brex. A startup criada no Vale do Silício é considerada uma das mais inovadoras no segmento financeiro e, em apenas três anos, já é um unicórnio, como são conhecidas empresas novatas avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.

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O empreendedor que montou o império da maior cervejaria do mundo, a ABInBev, e que controla gigantes do setor de consumo como a Kraft Heinz e o Burger King, além das Lojas Americanas, contou como encara a nova realidade empresarial moldada pela pandemia.

“Eu gostei muito. Estava no exterior e trabalhei utilizando Zoom quase o tempo todo. Acho que não diminuiu a minha produtividade, não tive que viajar tanto nem ir a muitos jantares, como costumava fazer. As pessoas são mais objetivas nas reuniões”, afirmou o empreendedor.

“Todo mundo vai trabalhar mais de casa no futuro e terá que ser mais objetivo nas reuniões.”

Mas nem tudo acontece de maneira positiva no novo normal dos negócios, ressalvou o bilionário. Lemann comentou que um dos desafios que mais se impõem é o do treinamento e do ensino da cultura à distância nos programas de trainees, um dos principais pilares para as empresas controladas e administradas por ele e seus colegas de longa data, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira.

“Estando em contato diretamente é mais fácil de treinar do que à distância, principalmente pessoas que acabaram de entrar na empresa”, afirmou o empreendedor.

Techs no Brasil 

Lemann disse que o domínio exercido pelas big techs (Amazon, Apple, Google e Facebook), que estão entre as empresas mais valiosas do mundo, vai se repetir em breve no Brasil. 

“As empresas de tecnologia vão ser as cinco maiores da bolsa brasileira. Temos aí o exemplo do Mercado Livre, que se tornou a maior empresa em valuation da América Latina. Vão ter outras”, disse.

O empreendedor fez um paralelo com os negócios que administra, no segmento de bens de consumo. “Nós somos da época em que buscávamos operar com custos mais baixos e uma operação mais eficiente e o produto se vendia.”

“Vamos ficar um pouco para trás. A Ambev já foi a maior empresa brasileira e não é mais. Mas, se somarmos os ativos que temos no exterior, vai ser superior ao que teríamos conseguido só no país”, disse Lemann ao ser questionado sobre as razões da internacionalização de seus negócios.

O empreendedor disse avaliar que a era da nova economia é imperativa para os negócios. “Entramos em uma nova época digital em que o consumidor tem muita mais opção e quer inovação. E temos que nos adaptar para entendê-lo nessa nova situação, que é centrada no consumidor”, disse.

Ele diz que essa transformação está acontecendo nas empresas controladas por ele, Telles e Sicupira, mas que isso leva tempo dado o tamanho que possuem.

“Ainda é bom ter gente com garra, mas as pessoas têm que estar muito mais preparadas em conhecimento de tecnologia”, afirmou o empresário sobre o mercado de trabalho.

Startups no radar

Lemann contou que, junto com Telles e Sicupira, estruturaram há alguns anos, um veículo de investimento para aportar recursos em startups. E que, em meio à pandemia, eles estão avaliando de cinco a dez empresas semanalmente como potenciais candidatas. 

“Olhamos quem é o empreendedor e o que ele quer fazer realmente. Qual o lucro que ele tem, qual o sonho grande e o que ele já fez anteriormente”, afirmou Lemann sobre o seu modelo de análise para avaliar se uma empresa novata merece ou não o investimento. E ele revelou ter um desafio particular com o qual precisa lidar, que é inerente ao modelo das startups de tecnologia.

“Cadê o lucro? Temos uma dificuldade enorme com essa história em que o empreendedor conta que está vendendo 20% a mais por mês, mas não tem lucro”, disse o empreendedor.

Talento brasileiro

A Brex, fundada em 2017, atua na concessão de crédito para empresas novatas e de e-commerce. O seu principal produto é um cartão de crédito corporativo com um limite mais elevado para companhias sem histórico de crédito, algo que é possível graças a um avançado modelo de análise. 

Segundo Dubrugas, o engenheiro brasileiro está em nível semelhante ao do engenheiro formado nos Estados Unidos. Ele diz que um dos principais diferenciais da cultura da inovação no Vale do Silício é a troca de experiências, algo que passa a ser feito de forma remota com a pandemia. E isso abre oportunidades para que empresas brasileiras se inspirem a fazer o mesmo no país.

Ele citou Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, como a sua grande inspiração. “É sem dúvida a empresa mais bem gerida dos Estados Unidos”, segundo o empreendedor.

Ele também apontou a Airbnb como outra empresa que admira e na qual busca se inspirar. “É uma empresa amada pela sociedade”, explicou, fazendo um paralelo com a Uber.

“São duas empresas que enfrentam questões legais para operar, a Uber com os motoristas e o Airbnb com os aluguéis. Com a diferença de que a imagem do Airbnb é muito melhor.”  

Dubugras citou as startups Wildlife, Stone e Nubank (que, segundo ele, “tem um dos melhores times de tecnologia do mundo”) como empresas que observa e admira no Brasil.

E destacou a quantidade de capital e de venture capital que vem para o Brasil como ponto positivo para o surgimento de novas companhias nos próximos anos.

Amex na mira

Lemann fez uma provocação a Dubugras. “Qual o seu sonho grande?”, em alusão a uma de suas expressões mais famosas, que deu nome ao livro sobre sua trajetória, a de Telles e Sicupira.

“O sonho grande evolui muito com o tempo e acreditamos que a Brex pode ser uma das maiores fintechs do mundo, substituindo bancos que ocupam esse espaço”, disse Dubugras.

Ele afirmou que a aquisição da American Express, uma das maiores e mais tradicionais companhias de cartões de crédito do mundo, é um dos “sonhos grandes” da companhia.

E falou sobre os planos de abertura de capital. “Com certeza queremos ser uma empresa pública, daqui a quatro ou cinco anos. A Covid-19 atrasou em um ano esse processo”, afirmou Dubugras, que fundou no Brasil a Pagar.me em 2013. A empresa de pagamentos foi adquirida em 2016 pela Stone.

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