Entenda o “efeito dominó” dos preços que causa inflação generalizada

Aumento em commodities energéticas pode afetar desde o maquinário agrícola até o preço de transportes públicos em áreas urbanas

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Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

em São Paulo

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A inflação segue sem sinais de que vá ceder tão cedo, se mantendo na agenda crítica de autoridades no Brasil e no mundo. Entidades monetárias dos mais diversos países estão elevando os juros como medida para tentar controlar a alta de preços.

Mas a escalada dos custos de alguns produtos preocupam mais que outros, já que causam o aumento generalizado dos preços no mercado com o impacto no cotidiano do consumidor direta ou indiretamente.

Os “vilões” mais notórios da inflação nos últimos meses são conhecidos dos brasileiros, como é o caso dos combustíveis, energia elétrica e dos alimentos. Mas a subida no preço desses itens empurram pra cima o preço de diversos outros produtos impactando toda a cadeia de consumo.

“O problema do aumento da energia e combustíveis não está no aumento que eles acumulam, mas sim nos que eles causam. Os combustíveis encarecem o frete, que por sua vez encarece tudo o que chega nos centros urbanos. Hortaliça, legumes, carros, tudo é transportado via frete rodoviário”, explica o economista André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Outro ponto é a contribuição que a energia pode dar. Isso porque se aumenta a energia, ela encarece a prestação de serviços e a produção industrial. A energia é usada em uma indústria automobilística para montar um carro, tocar as máquinas, e também no ar-condicionado e no secador do salão de beleza”, acrescentou.

Soma-se ainda a alta dos preços de grãos, que traz inflação para alimentos que não estão diretamente ligados e, afetando mais consumidores.

“Quando o milho sobe, muita gente pode pensar que por não consumir milho está livre, mas não é bem assim. O milho é ração para o trato de aves, que nós consumimos a carne. Então, se o preço do milho muda, o frango tende a ficar mais caro também, por exemplo”, disse.

“Já quando o trigo tem uma mudança de preço, toda a cadeia de derivados segue a alta. O pão francês, biscoito, as massas, tudo em geral fica mais caro porque são produzidos a partir do trigo. O que é matéria-prima vira bem final no processo industrial”, destacou.

Ainda que os grãos sejam componentes importantes na composição dos preços de outros alimentos encontrados nos supermercados justamente por se tratarem de insumos para os animais, o economista associado do FGV Ibre Matheus Peçanha disse que a categoria não está na mesma potência que energia e combustível para puxar uma inflação generalizada.

“À medida que os grãos impactam no preço de outros alimentos e produtos do ramo da agropecuária, eles não fazem parte do núcleo da inflação”, salientou.

Peçanha ressalta que o aumento de um combustível como diesel traz consequências para diversas frentes da produtividade brasileira, desde o maquinário agrícola no campo até o preço do transporte público em um grande centro urbano.

Os especialistas destacaram que, como o momento inflacionário não ocorre somente no Brasil, mas no mundo todo, choque de preços fica ainda mais impactante.

“Vemos a inflação subindo em mercados maduros, como EUA, zona do euro e outras nações que não imaginaram estar nesta situação. É um fenômeno global”, disse Matheus Peçanha.

Portugal registrou inflação de 7,2% em abril, a mais alta desde 1993, enquanto a inflação na Alemanha acelerou a 7,4% no mês, algo que não acontecia desde 1981.

Outros países que tiveram disparadas nunca vistas nos últimos anos foram a Rússia, com inflação chegando a 17,83%, considerada a maior desde 2002, e a China, que viu o índice de preços ao consumidor (CPI) subir 2,1% na comparação anual de abril e ultrapassar as projeções do mercado.

Nos EUA, os preços ao consumidor atingiram uma máxima em mais de 16 anos no último mês de março. Assim como nos outros países mencionados, entre os motivos estão as altas recordes dos preços dos combustíveis no mundo, vindas do choque de oferta com a guerra na Ucrânia e puxando para cima os preços dos outros itens.

Segundo o Departamento do Trabalho dos EUA, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 1,2% em março, o maior ganho mensal desde setembro de 2005.

O índice desacelerou em abril, o que não acontecia desde agosto de 2021. Os preços ainda aumentaram 0,3% no mês, mas em um ritmo mais lento do que nos meses anteriores.

Conforme explicou Peçanha, os produtos energéticos como o diesel geralmente têm uma demanda inelástica, ou seja, não possuem muitas alternativas para haver uma mudança de comportamento no consumo das pessoas.

“Ainda somos muito dependentes desses itens, então não há muita escolha ou alternativa para mudanças de hábitos de consumo”, pontuou.

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