‘Entendemos que no último trimestre estaremos melhorando’, diz presidente do BC

Em entrevista para a CNN, Roberto Campos Neto diz que governo saiu do percurso liberal, mas depois vai "colocar o trem nos trilhos novamente"

Da CNN, em Brasília

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A pandemia do coronavírus forçou o governo a abandonar momentaneamente seu ideário liberal na economia, afirmou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em entrevista exclusiva à CNN. Durante a conversa, ele falou sobre as medidas que o governo vem tomando para mitigar os efeitos da crise, e projetou uma melhora da economia ainda no quarto trimestre deste ano.

Leia a íntegra abaixo:

CNN: A Medida Provisória que vai regulamentar o auxílio de renda para trabalhadores ainda não saiu. Por que a demora?

Roberto Campos Neto: É um programa com divisão de risco entre Tesouro (85%) e bancos privados (15%). Quando anunciei a medida na última sexta-feira (27), disse que começaria em 15 dias, então estamos dentro do prazo. A MP deve sair entre hoje e amanhã. Estamos confiantes que semana que vem teremos algo de concreto.

O Banco Central propôs a compra de crédito privado de bancos atraves de uma emenda. Segundo apuração da CNN, a PEC do orçamento paralelo vai incluir o BC, mas vai limitar a compra de créditos ao momento atual. Como você recebe esta mudança e porque a medida se faz necessária agora?

É importante frisar que o BC dispõe hoje de instrumentos para injetar liquidez através do sistema financeiro, fomos um dos primeiros bancos centrais a agir neste sentido diante da crise do coronavírus. O total de injeção de liquidez é de R$ 1,2 trilhões, 16% do PIB. Existe uma ansiedade em como os recursos vão chegar na ponta, e nós fizemos algumas medidas de direcionamento, além disso usamos outro instrumento que alguns BCs do mundo usam, que é a possibilidade de comprar direto o crédito. A mudança foi elaborada em um programa que seria lançado no ano que vem, mas foi antecipado para ajudar na crise. Para o BC comprar créditos diretos seria preciso uma mudança na Constituição, por isso a PEC possibilitou isso, mas apenas sob caráter emergencial. Conversei com o presidente Rodrigo Maia e o BC está alinhando com o Congresso nesse sentido.

Nossa taxa básica de juros está em 3,75%, nível mais baixo da história. Porém, outros países viram seus bancos centrais baixar sua taxa de juros para zero ou até mesmo para valor negativo. Por que o Banco Central não foi mais agressivo na redução?

Hoje quando nós olhamos para o mundo, há vários fatores que fazem com que o “remédio” do Brasil seja diferente dos Estados Unidos. Temos hoje a maior movimentação de saída do capital de países emergentes da história, a chamada “corrida para qualidade”. Aliado a isso se interrompeu calendário de reformas, aumentando o risco do país.

Estamos em uma situação onde é preciso ter credibilidade para nossas ações, e não é a Selic que determina as condições financeiras, ela é um instrumento que precisa ser canalizado de forma que gere liquidez. Outro ponto é entender os componentes do custo de crédito, que em um ambiente normal é basicamente o repasse do custo de juros. Mas o que nós identificamos é que nesse movimento de falta de liquidez, o componentes se alteraram. O problema do crédito para chegar na ponta, por exemplo, é reflexo da falta de liquidez dos bancos e  do custo do capital. Identificamos então que a melhor maneira de deixar o sistema fluindo não era o preço, mas garantindo a liquidez.

Diante dos pacotes de estímulos anunciados pelo Ministério da Economia e governo federal, gostaria de saber se o projeto liberal liderado por Paulo Guedes, no qual você se incluiu desde o começo, foi suspenso, adiado ou acabou?

Na minha opinião, nós vínhamos com um programa liberal que estava funcionando. Se você olhar os dados relativos a fevereiro, eles mostravam melhora e indicava que acertamos nossos prognósticos, então veio a crise do coronavírus. Demorou um tempo para interpretar seu impacto, se acreditava que iria afetar mais a Ásia e atingir a indústria brasileira por conta da falta de componentes, mas depois ficou clara a disseminação e que os principais afetados seriam os setores de serviço. Quando isso aconteceu, foi uma decisão unânime de que nós tínhamos que mudar um pouco a maneira que estávamos pensando. Porém, mais importante que as medidas adotadas, é manter a credibilidade de que vamos sair do percurso, mas depois vamos colocar o trem nos trilhos novamente.

Existe um debate hoje sobre a diminuição do isolamento e das restrições de locomoção diante da pandemia de coronavírus. O senhor, como presidente do BC, tem qual opinião sobre este debate?

Acho que o BC não tem que opinião sobre este tipo de estratégia. Entendemos o que o governo está fazendo, pegamos as variáveis e colocamos em nossos modelos para inferir as consequências das medidas na economia, e agimos diante disso. Não cabe ao BC falar sobre isso.

Mas o debate não atrapalha?

Há uma relação de troca entre o confinamento, a diminuição da curva de contágio e o tamanho da recessão. Mas isso é uma decisão do governo, onde vários agentes participam. O BC analisa as variáveis das políticas adotadas e age em função disso.

O BC revisou o crescimento da economia de 2,2% para a estabilidade. Diante do agravamento da situação, a instituição já trabalha com cenário de PIB negativo, como o setor privado?

O mundo tem caminhado muito rápido, e desde a última reunião do Copom [nos dias 17 e 18 de março] muita coisa aconteceu. Na data da reunião, a conclusão foi de que o crescimento seria próximo de zero, mas é muito difícil fazer qualquer previsão de crescimento em um cenário como esse. Não se sabe quanto tempo vai durar a interrupção e nem da para quantificar seus efeitos, o que posso dizer é que vamos refazer a previsão, mas não darei estimativa neste momento.

O dólar está firme em R$ 5 e o BC vem com uma política de calibrar a taxa de câmbio com intervenções pontuais. Alguns analistas defendem um pacote maior, com valor definido. Porque o BC tomou a decisão de atuar aos poucos?

Nosso pilar de atuação é baseado no princípio da separação, onde o câmbio é flutuante, os juros são usados para a política monetária e usamos medidas macroprudenciais para a estabilidade do sistema financeiro, isso garante a credibilidade de instituição. No limite, há algumas conexões entre os fatores, mas entendemos que o câmbio é flutuante e não cabe ao BC definir um nível nem ter um link expresso entre o valor de moedas estrangeiras e os juros. Temos atuado no mercado, temos um arsenal muito grande de câmbio, então o BC está bem preparado, mas não é objetivo da instituição defender um nível de câmbio e sim manter a funcionalidade do mercado.

Em uma projeção de cenário pós-coronavírus, em quanto tempo o Brasil conseguirá se recuperar economicamente?

Esse é um exercício difícil para o momento. Se pensarmos nos últimos dias fica difícil fazer previsões, mas entendemos que no último trimestre estaremos melhorando, e o ano que vem será de boa recuperação. Vale lembrar que antes da crise vínhamos de crescimento esperado.

O Goldman Sachs prevê queda de 34% no PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre. Como este número pode impactar o Brasil?

Quando olhamos para os Estados Unidos, de cada 5 pessoas 4 estão paradas, é uma paralisação muito forte para a economia americana e o governo tem injetado muitos estímulos. Claro que a economia americana afeta outras economias, então o mundo vai crescer muito menos, globalmente vamos empobrecer. Mas será um choque temporário e depois será possível retomar a trajetória natural. 

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