Entraves para a indústria brasileira passam por infraestrutura e tributação

Falta de insumos e de mão de obra qualificada também dificulta a recuperação do setor

Karla Chaves, Tiê Santoro e Diego Mendes, da CNN Brasil

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Nas ruas, as bicicletas se multiplicaram durante a pandemia, levando a uma guinada para a indústria brasileira do setor. No início da crise sanitária, com as medidas mais duras de isolamento, algumas fábricas chegaram a interromper a produção, mas o ano, que poderia ter sido um dos piores, surpreendeu.

“A realidade é que o brasileiro adotou a bicicleta como meio de lazer, de transporte, de deslocamento, de incentivo a interação com a família desde que a pandemia começou”, diz Cyro Gazola, presidente da Caloi, à CNN Brasil.

“Em percentuais, o segundo semestre do ano passado já deu uma aceleração bem grande, na casa de 40% a 50% em relação ao período pré-pandemia. Então é real, é relevante e temos a evolução em 2021 num patamar menor, mas ainda bastante acelerada a demanda”, diz.

 

Essa demanda, historicamente, ganha força que no segundo semestre com Dia das Crianças, Black Friday e Natal. Os fabricantes instalados no polo industrial de Manaus estimam produzir cerca de 750 mil bicicletas este ano, uma alta de 13% em relação a 2020. O número poderia ser maior, mas ampliar a produção depende de peças e, com a pandemia, o mundo passou a sofrer com a falta de insumos. No caso das bicicletas, está difícil importar transmissão, freio e suspensão. 

Isso impede que o setor atenda toda a demanda existente, explica Gazola, da Caloi. “Diria que temos ainda uma realidade em que a demanda está uns 15% ou 20% acima da nossa capacidade de atender. Houve uma inflação muito grande, seja de containers, de embarques matérias-primas em geral muito similar à que está acontecendo em outros setores da economia também”.

Esse cenário também é visto no setor de automóveis, por exemplo, que sofre, principalmente com a falta de semicondutores. A ponto de fabricantes de veículos instalados no Brasil terem de parar a produção.

A previsão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) é que o setor automotivo pode perder de 5 milhões a 7 milhões de veículos na produção global neste ano e esse movimento não deve se resolver antes de meados de 2022. “Mesmo com a oferta adicional de semicondutores, não vai se resolver em um, dois ou três meses, porque se trata de uma indústria, um setor produtor que demanda muito investimento para fazer uma fábrica, para se tornar operacional”, diz Luiz Carlos Moraes, presidente da entidade.

Falta investimento

Aos poucos, a retomada mundial da economia deve normalizar as cadeias globais de suprimento. Mas, aqui no Brasil, quando falamos de gargalos que atrapalham o crescimento, é preciso ir muito além. Por exemplo, no país onde quase 65% (64,86) do transporte de cargas é feito por estradas, poucas são ideias para o trânsito. De acordo com a Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base (ABDIB), apenas 14% da malha rodoviária é pavimentada no país.

“Quando a gente compara muitas empresas brasileiras que têm plantas aqui e lá fora, em alguns casos, a nossa produtividade é maior até, só que quando a gente sai da fábrica para fora, toda essa produtividade e competitividade que a gente teria para inserir novos mercados com produtos brasileiros e obviamente trazer na recursos para o país acaba se perdendo, porque a gente não tem uma infraestrutura adequada”, diz Igor Rocha – diretor de economia da ABDIB.

“O investimento em infraestrutura é essencial, porque o Brasil tem um gargalo em todos os setores de infraestrutura, desde energia elétrica até comunicações e transportes”, diz o economista-chefe da CNI, Renato da Fonseca.

 

O valor total investido em 2020 na infraestrutura brasileira foi de R$ 128,3 bilhões, o correspondente a 1,73% do Produto Interno Bruto (PIB) no país. Um estudo mostra que, para que esse problema comece a ser resolvido, seria necessário investir por ano mais que o dobro: R$ 321 bilhões. Esse número corresponde a mais de 4% (4,31%) do PIB.

“A infraestrutura conecta o hoje ao amanhã. Conecta um momento de demanda hoje, que acelera o PIB, a uma melhora das condições de produção para amanhã”, diz Rafael Cagnin, Economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

Essa melhora também depende diretamente do investimento em ciência, tecnologia e inovação. “Isso deveria estar entre os temas mais importantes de discussão na sociedade brasileira, porque não há futuro sem ciência, tecnologia e inovação e é isso que vai gerar produtividade e viabilizar o processo de desenvolvimento e de crescimento não só da atividade econômica, mas também nos padrões de vida da população, na renda per capta da população de forma mais direta”, diz Cagnin.

A demanda por tecnologia evidencia um gargalo antigo do brasil, a falta de mão de obra qualificada. “Nosso nível de mão de obra está muito aquém do resto do mundo. A gente tem que qualificar o brasileiro médio, tem que melhorar de qualidade, tem que deixar as crianças mais tempo na escola, com mais tempo de qualidade por causa da indústria, tem que ter questão de ensino técnico, modernizar os currículos. Se a gente não fizer isso, não vamos a lugar nenhum”, diz Emerson Marçal, professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV.

Reforma tributária e Custo Brasil

Outro grande obstáculo para a indústria brasileira pode ser resolvido ainda este ano em Brasília. Tudo depende do caminho que vai tomar a reforma tributária.

“O sistema tributário no Brasil penaliza vários setores, mas, em especial, a indústria. A indústria de transformação e a indústria que tem uma cadeia longa vai criando créditos, resíduos tributários, complexidades que destroem empregos, destroem investimentos, não estimula a exportação, muito pelo contrário”, diz Moraes, presidente da Anfavea.

Segundo o Banco Mundial, as empresas no Brasil gastam até 1.500 horas por ano somente para pagar impostos. O tempo é maior que em qualquer outro país do mundo. Além disso, hoje, a indústria arca com a maior fatia da carga tributária do país. Representantes da área acreditam que essa conta tem que ser melhor dividida entre outros setores.

“Nós falamos em globalização há quase duas décadas, mas o Brasil ainda não está preparado para atuar de forma competitiva nesse mercado. O que atrapalha é a carga tributária, a legislação trabalhista, a insegurança jurídica que paira sobre todos nós. Não temos condições de competir exportando produtos com valor agregado para o mercado mundial”, diz Wilson Luis Buzato Périco, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM).

Tudo que mostramos até aqui pode ser resumido em duas palavras: Custo Brasil. Equacionar o alto custo que o sistema brasileiro gera a empresários ou empreendedores é o que vai decidir os próximos anos para o país, acreditam economistas. Entender o problema é um importante caminho para a solução. Capacidade não falta.

“Potencial temos. Não há dúvida. A gente tem um parque industrial importante, somos uma das maiores indústrias do mundo, mas temos muito o que fazer. Precisamos solucionar da forma mais rápida possível problemas que a gente deveria ter solucionado há décadas”, diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).

Soluções que podem trazer uma retomada muito maior que os níveis pré-pandemia. E, se a indústria vai bem, a economia avança.

Operários trabalham em linha de produção em Lordstown - Estados Unidos
Foto: REUTERS/Rebecca Cook

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