Está de quarentena? Saiba como manter seus ganhos ou até fazer renda extra

Não dá para romantizar o empreendedorismo na crise, mas para quem tem alguma estrutura (e internet) há alternativas para levantar algum dinheiro no isolamento

Home office: internet tem sido a principal aliada de trabalhadores informais durante a quarentena
Home office: internet tem sido a principal aliada de trabalhadores informais durante a quarentena Foto: Chris Adamus/Unsplash

Luísa Melo

Do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Lojas, restaurantes, salões de beleza e escritórios fechados. Com as medidas de isolamento social impostas para tentar conter o avanço do coronavírus, muitos autônomos brasileiros estão se virando como podem para conseguir manter seus ganhos. Na quarentena, a internet tem sido a principal aliada desses trabalhadores e possibilita também oportunidades de renda extra para quem vai continuar recebendo o salário normalmente.

O professor de ioga Emir Elias, de 58 anos, é um dos que apostam no universo online para manter as contas em dia nos próximos meses. Ele é tímido e avesso a tecnologias – não tem sequer WhatsApp –, mas deu um jeito de aprender a mexer no Skype para poder continuar dando aulas enquanto está impedido de frequentar os parques de São Paulo com seus alunos.

A ideia veio da própria turma e a primeira classe ocorreu no último sábado (28). “Vou convidando as pessoas a participarem e aqueles que puderem contribuir (financeiramente), contribuem. Ioga é isso, trabalhar a solidariedade, a percepção ampliada.Tem muita gente fazendo de graça, mas sou um professor, estudei para isso, e dependo dessa renda, diz.

O professor de ioga Emir Elias dá aulas pela internet na quarentena

Avesso a tecnologias, o professor de ioga Emir Elias, à direita da foto, teve que aprender a dar aulas pela internet na quarentena
Foto: Arquivo pessoal

Ele conta que tem uma poupança, mas como a duração do isolamento ainda é incerta, não sabe se o dinheiro será suficiente para cobrir todos os gastos e continuar contribuindo para a Previdência. “Mês que vem ainda entra alguma coisa do que trabalhei em março, mas se a quarentena chegar a três, quatro meses, a reserva não vai dar. Porque as contas não param.”

Mas Elias está animado com a descoberta e vê no horizonte uma oportunidade de expandir sua atuação. “Se eu me der bem com o online, posso continuar depois da quarentena”. 

“Hoje em dia, com a tecnologia e um celular, você resolve muita coisa”, diz a planejadora financeira Gisele Colombo de Andrade. Segundo ela, o desafio é colocar a cabeça para produzir. “Tem muitas possibilidades de oferecer trabalho quando se está em casa, mas normalmente a gente não presta atenção. A criatividade não é espontânea. A mãe da criatividade é a dificuldade”, afirma.

É claro que não dá para romantizar o empreendorismo em uma crise como a atual. Ele é uma necessidade e, para muitos brasileiros, a única via de sobrevivência – outros sequer têm condições básicas para isso.

Por isso, o governo vai garantir uma renda de R$ 600 aos trabalhadores informais pelos próximos três meses. Para “mães solo”, a ajuda pode ser dobrada, de R$ 1,2 mil. O pagamento deve ser feito pela Caixa Econômica, por meio de contas digitais.

Mas para os que contam com alguma estrutura, há maneiras de tentar levantar algum dinheiro durante o isolamento. Veja dicas dos especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business:

1. Se você vende um produto, ofereça-o na internet e faça delivery (tomando todos os cuidados de higienização)

Esse é o caso da feirante Marcia de Oliveira, de 49 anos. Ela vende frutas na região dos Jardins, na zona Oeste de São Paulo, quatro vezes por semana. As feiras em que ela trabalha não foram fechadas, mas o movimento minguou. “Com a quarentena não vai ninguém, as velhinhas não saem de casa”, conta.

Nem por isso suas vendas diminuíram. Ela sempre trabalhou com entrega a domicílio, mas antes só para as proximidades dos locais da feira. Agora, expandiu o serviço para quase toda a cidade. “Antes só ia até a Aclimação (na zona Sul), agora entrego até no Tatuapé (zona Leste)”. Para dar conta de tudo, contratou dois motoboys, que recebem o valor integral do que é cobrado pela entrega. 

E a entrega não precisa ser restrita a produtos. A planejadora financeira Gisele de Andrade destaca serviços que também podem continuar sendo prestados num modelo de delivery, como costura, pequenos consertos e até passar roupa. “O cliente deixa na porta e você busca, arruma, e depois devolve, tomando todos os cuidados”.

Isso pode ser feito montando lojas virtuais em sites como Enjoei e Mercado Livre, ou mesmo anunciando em redes sociais como Instagram e WhatsApp.

2. Se seu serviço pode ser oferecido online, abuse da rede

Dá pra usar o Skype, a exemplo do professor de ioga Emir Elias, ou mesmo fazer lives no Youtube ou em redes sociais como Facebook e Instagram. Funcionam até mesmo chamadas de vídeo pelo WhatsApp. 

“Empreendedores são pessoas que veem oportunidades onde os outros só veem problemas. Os problemas são oportunidades esperando para serem descobertas, o foco é transformá-los em uma fonte de renda. Pense em como resolver problemas da sua comunidade prestando serviços e cobrando de uma maneira justa”, aconselha Enio Pinto, gerente de relacionamento com o cliente do Sebrae.

3. Se seu serviço é estritamente presencial, pense em ensinar como fazê-lo na internet 

Profissionais que não conseguem prestar seus serviços remotamente tem um desafio maior, mas podem encontrar uma saída para levantar ao menos um dinheirinho, de acordo com Gisele de Andrade. 

“Não tem milagre, mas todo mundo sabe fazer alguma coisa que é útil pra alguém. Não dá pra ser manicure e cabeleireira agora, mas às vezes, por telefone ou pela internet, você pode dar uma aula de como fazer as unhas. Pode talvez cobrar um valor menor, mas ensinar a cliente a se cuidar”, exemplifica.

4. Transforme suas habilidades em conteúdo online

Não é preciso ser um “digital influencer” para compartilhar conteúdo na internet. E também não é necessario ter diploma, basta ter algum conhecimento ou habilidade interessante.

“Vale dar uma aula de como consertar um chuveiro ou outro aparelho elétrico, por exemplo, ou ensinar a fazer uma receita”, diz Gisele. 

5. Cadastre-se como freelancer em plataformas de conteúdo

Enio Pinto, do Sebrae, lembra que há sites em que é possível se cadastrar como freelancer para fazer revisão de texto, oferecer serviços de design e desenvolvimento de conteúdo, além de atuar como tutor de cursos à distância. 

“Fuçando a internet você encontra plataformas que fazem a conexão entre os prestadores, os proprietários de soluções e os interessados em adquirir esses serviços”, diz emendando que essa é uma opção não só para os trabalhadores informais, mas para as pessoas que não perderam renda, mas estão em casa e querem tentar levantar uma grana extra.

6. Aproveite a arrumação dos armários para colocar itens sem utilidade à venda

O diretor do Sebrae também destaca outra possibilidade para quem quer uma renda extra: vender pela internet itens que não se usa mais. “Todo mundo está aproveitando a quarentena para arrumar armário e despensa e se deparando objetos sem utilidade”, afirma. 

“Vender essas coisas é muito saudável, isso deveria ser um hábito, inclusive”, afirma Gisele. 

A planejadora financeira diz que, mesmo nesse período de incerteza e dificuldade, sempre haverá pessoas dispostas a comprar. “Mercado é uma questão de preço. Sempre tem alguém que  vai estar precisando de alguma coisa”. 

Ela destaca, porém, que as pessoas que não terão a renda afetada nesta crise podem e devem continuar pagando pelos serviços que costuma utilizar, como o de empregados domésticos, mesmo que eles não estejam sendo entregues no momento. 

“Esses profissionais cuidam das coisas mais importantes: nós, nossas casas, nossa família. Se tiver condições de remunerar essas pessoas, faça. Essa é uma verdadeira ação social.”

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