Fazenda Futuro, de carne vegetal, chega a 22 países e quer conquistar os EUA

Hoje, a companhia tem no seu portfólio os seguintes produtos plant-based: carne moída, almôndega, linguiça, frango e --a jóia da coroa-- hambúrguer

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Com menos de dois anos de operação, a Fazenda Futuro, empresa brasileira especializada na produção de proteínas à base de plantas, já vende seus produtos em 22 países, desde os vizinhos Paraguai e Uruguai até a longínqua Austrália, passando pelo forte mercado inglês.

E, ao que tudo indica, a expansão não deve parar por aí. Em entrevista exclusiva ao CNN Brasil Business, Marcos Leta, criador e CEO da marca, revela que a companhia pretende, até o final de 2021, estar disponível nas prateleiras de pelo menos 35 nações, a começar pelos Estados Unidos, ainda em abril.

Leta, que também criou a marca de sucos Do Bem, acredita que este deve ser o grande termômetro de crescimento da companhia nos próximos anos, já que o mercado norte-americano é bem mais aquecido do que o brasileiro no segmento. Por lá, há players como Impossible Foods e Beyond Meat, que já possuem parcerias com grandes cadeias e, no caso da segunda, capital aberto.

“O mercado americano chegou no seu limite de preços, e vemos uma grande oportunidade nisso. As grandes marcas de lá estão entregando seus hambúrgueres numa faixa que pode chegar até os US$ 8, enquanto nós entraremos lá vendendo por US$ 4, US$ 5”, diz.

“Assim, nos aproximamos mais dos valores de uma proteína animal premium e esperamos conseguir atrair um grupo maior de consumidores. Isso sem falar, é claro, que estaremos entregando um produto muito próximo ou até melhor que o que é oferecido lá atualmente.”

Nessa linha, o exemplo dos Emirados Árabes Unidos joga a favor da foodtech brasileira. A Fazenda Futuro desembarcou na região há menos de um ano e já possui, segundo dados focalizados do Carrefour, 35% do market share de proteínas blant-based local.

O gestor conta que as grandes concorrentes globais estão ali, mas falta execução. “Não tinha promoções, ações para educar o consumidor no supermercado. Pegamos nossa experiência brasileira e a aplicamos lá. Também ajuda o fato de termos uma gama maior de produtos, o que acaba gerando mais experimentação”, afirma.

Produtos

Hoje, a companhia tem no seu portfólio os seguintes produtos: carne moída, almôndega, linguiça, frango e a jóia da coroa, o hambúrguer. Para dar o tom e textura às carnes, os principais ingredientes utilizados pela marca são ervilha, grão-de-bico, soja e beterraba. Ainda em 2021, também será lançado o bacon, feito de tapioca

Esse é um dos principais diferenciais da marca, diz o executivo. Ele entende que o Brasil é extremamente bem servido em termos de ingredientes, o que faltava era adicionar tecnologia ao processo, o que a marca está tentando escalar desde que lançou seu primeiro hambúrguer.

Para se ter uma ideia, o produto já está na sua terceira versão, batizada de Futuro Burguer 2030. Leta explica que a empresa tem um processo ininterrupto de pesquisa, sempre à procura de novas moléculas e ingredientes que possam agregar aos produtos existentes ou ajudar no desenvolvimento de outros.

“Precisamos ter um ambiente de evolução constante. A versão anterior do hambúrguer, por exemplo, deixava a gordura toda na panela, o que conseguimos resolver agora. Também descobrimos novas moléculas, que dão sabor e cor cada vez mais parecidos com a proteína animal”, explica.

Concorrência

Tal identificação com inovação é praticamente essencial neste setor, que se torna cada vez mais competitivo. E aqui não estamos falando somente de foodtechs, mas também de grandes frigoríficos, que têm investido em desenvolvimento ou compra de produtos plant-based.

A JBS comprou, nessa linha, as operações da holandesa Vivera por R$ 2,3 bilhões. A companhia tem três unidades produtivas e um centro de pesquisa na Europa, onde a gigante brasileira quer expandir sua oferta.

Para Leta, trata-se de um caminho sem volta, mas espera um compromisso maior por parte dos grandes players. “O leite vegetal, por exemplo, já abocanhou 15% do mercado global de leite e continua crescendo. Entendemos que o mesmo vai ocorrer com as carnes”, diz.

“Mas não adianta nada os frigoríficos comprarem empresas plant-based e não diminuírem a produção de carne, isso é só uma ampliação de portfólio. Queremos que haja um compromisso, como na indústria automobilística, de mudança em suas cadeias produtivas.”

Crescimento

A movimentação mostra um crescimento acelerado do segmento, e a Fazenda Futuro acredita que pode liderar este mercado. Mesmo assim, o executivo garante que a empresa pretende manter sua produção no Brasil. 

“Ainda temos espaço para aumentar a capacidade da nossa fábrica de Volta Redonda (RJ). Dependendo do nosso crescimento nos EUA, podemos até pensar em outra localidade, mas queremos que a produção se mantenha no Brasil, já que realmente acreditamos que o país reúne as melhores condições para isso”, diz.

Em termos financeiros, a empresa não abre dados de faturamento, mas a última captação, de R$ 115 milhões, em setembro do ano passado, deve ser suficiente para manter a operação até o final de 2022, afirma Leta. Apesar disso, ele não descarta realizar mais uma rodada, a depender da evolução da operação norte-americana.

“Os EUA são grandes como o Brasil. Vamos monitorar o crescimento por lá e, se necessário, faremos mais uma captação para executar nossos projetos lá. Depois disso, o rumo natural é ir para o mercado, através de um IPO ou outra modalidade de abertura de capital.”

Para comparar: Em 2019, o IPO da Beyond Meat foi considerado um dos melhores do ano. A empresa abriu capital com avaliação de US$ 1,5 bilhão. Menos de três meses depois, valia mais de US$ 13 bilhões. No ano seguinte, a marca alcançou uma penetração de mais de 5% nos lares norte-americanos.

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