Fundo ativista tira dois conselheiros da petroleira Exxon em vitória pró-clima

A votação é um marco importante na batalha climática porque é a primeira campanha por direito de voto em uma grande empresa dos Estados Unidos

Foto: REUTERS/Jim Young/File Photo

Matt Egan e Robert Kuznia,

do CNN Business

Ouvir notícia

Um fundo de hedge que criticou a estratégia climática da ExxonMobil conquistou apoio dos acionistas suficiente para destituir pelo menos dois membros do conselho da gigante do petróleo. O movimento representou uma grande perda para a outrora poderosa empresa.

Pela primeira vez na história moderna, a maior empresa de petróleo dos Estados Unidos enfrentou um desafio substancial de um investidor ativista, a Engine No. 1. Decepcionado com o desempenho financeiro da Exxon e sua lentidão na questão climática, o fundo de hedge trabalhou para destituir quatro membros do conselho na reunião anual de acionistas da empresa.

A Engine No. 1 ganhou dois assentos no conselho na votação dos acionistas. Outros dois assentos no conselho ainda estavam muito perto de serem conquistados na tarde de quarta-feira (26).

 

A votação é um marco importante na batalha climática porque é a primeira campanha por direito de voto em uma grande empresa dos Estados Unidos na qual o motivo para a mudança foi distanciamento dos combustíveis fósseis.

A expulsão de pelo menos dois membros do conselho da Exxon envia uma mensagem forte para outras empresas de combustíveis fósseis em um momento em que a Agência Internacional de Energia (IEA) alerta que o mundo precisa parar imediatamente de perfurar poços de petróleo e gás para evitar uma catástrofe climática. A Engine No. 1 criticou a relutância da Exxon em diversificar em energia renovável e manter medidas para maximizar a produção de petróleo.

“Os investidores não estão mais à margem. Este é um dia de ajuste de contas”, declarou Anne Simpson, diretora-gerente de investimentos do California Public Employees Retirement System (CalPERS), em um comunicado. O fundo de pensão CalPERS está entre os investidores e fundos de pensão proeminentes que apoiaram a campanha ativista.

“Os investidores dispararam contra a proa da Exxon, mas seu impacto vai ricochetear nos conselhos de todas as grandes empresas de combustíveis fósseis”, disse Mark Campanale, fundador e presidente executivo da Carbon Tracker Initiative, em um comunicado.

Tropeços levaram à rebelião

A luta com ativistas vem depois de um período de péssimo desempenho da Exxon.

Empresa mais valiosa do mundo em 2013, a Exxon perdeu quase US$ 200 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) em capitalização de mercado desde seu pico. Ela tinha desfrutado de uma trajetória ininterrupta como membro da Dow Jones Industrial Average de 1928 até que foi expulsa do índice exclusivo no meio do ano passado.

Durante os cinco anos anteriores à pandemia, o retorno total da Exxon (incluindo dividendos) caiu 17,5%, de acordo com o Engine No. 1. Ela ficou certamente em último lugar entre as cinco maiores empresas de petróleo nesse período, e a única a sofrer perdas. O S&P 500 subiu quase 80% durante o mesmo período.

No entanto, a Exxon se recuperou em 2021, à medida que os preços do petróleo subiram. O preço das ações subiu 41% este ano, quase quadruplicando o avanço do S&P 500. Ainda assim, a Exxon permanece longe dos recordes atingidos em meados de 2014.

Estratégia questionável

A Engine No. 1 argumentou que a crise climática representa uma ameaça existencial para a Exxon – que a empresa não levou a sério o suficiente. Diferentemente da BP, Royal Dutch Shell e outras grandes petrolíferas europeias, a Exxon dobrou a aposta em petróleo e gás, apesar da crescente preocupação com a crise climática.

“A recusa em aceitar que a demanda de combustível fóssil pode diminuir nas próximas décadas levou a uma falha em dar os passos iniciais em direção à evolução e a ofuscar no lugar de abordar o risco de longo prazo”, escreveu a Engine No. 1 em sua apresentação para investidores.

O Serviço de Acionistas Institucionais aconselhou os acionistas a votarem a favor de três dos candidatos da Engine No. 1.

Citando a “estratégia questionável” da Exxon para o futuro e os “retornos decrescentes”, a Glass Lewis, outra influente empresa de consultoria, pediu aos acionistas que apoiassem dois dos quatro candidatos.

“Acreditamos que a Engine No. 1 apresentou um caso convincente de que, sem uma resposta mais orquestrada e uma estratégia bem desenvolvida relacionada à transição energética global, os retornos, fluxo de caixa e dividendos da Exxon e, portanto, seu valor para o acionista, estão cada vez mais sob ameaça”, escreveu Glass Lewis em seu relatório.

Os ‘três grandes’

A Engine No. 1 detém apenas 0,02% das ações da Exxon. No entanto, o fundo de hedge ganhou o apoio de grandes investidores institucionais, incluindo a Igreja da Inglaterra e os fundos de pensão New York Common Retirement Fund, California Public Employees’ Retirement System (CalPERS) e California State Teachers’ Retirement System (CalSTRS).

Mas, como a maioria das eleições por direito de voto, a batalha depende de qual lado recebe o apoio dos três grandes gestores de ativos. BlackRock, State Street (STT) e a Vanguard, em conjunto, detinham quase 19% das ações da Exxon no final de março, de acordo com a Refinitiv.

É por isso que foi importante, como relatou a Reuters, que a BlackRock tenha votado em três dos quatro candidatos da Engine No. 1 para ingressar no conselho da Exxon. Um porta-voz da BlackRock se recusou a comentar o relatório e não ficou claro como a empresa de fato votou.

A BlackRock, maior administradora de ativos do mundo, está sendo criticada por ativistas que exigem que cumpra suas próprias promessas climáticas. A campanha está sendo liderada pela coalização BlackRock’s Big Problem, que inclui o Sierra Club, a rede Rainforest Action e a organização Friends of the Earth.

“Questionamos se a BlackRock está pronta para responsabilizar os maiores poluidores de petróleo e gás e seus financiadores. Qualquer coisa menos que isso é promessa vazia – e lavagem verde”, escreveu Roberta Giordano, uma das organizadoras, em um memorando na segunda-feira (24).

Além da batalha do conselho, a Exxon também enfrenta várias propostas de acionistas relacionadas ao clima.

Tanto a Glass Lewis quanto a ISS recomendam aos acionistas três propostas separadas exigindo que a Exxon emita relatórios detalhando os impactos financeiros do cenário de emissões zero em 2050 da IEA, trazendo os pagamentos e políticas de lobby climático governamental e corporativo que esteja alinhado com o acordo climático de Paris.

As promessas da Exxon

A Exxon defendeu sua estratégia apontando projeções para a continuidade da demanda por petróleo e gás natural, principalmente em mercados emergentes. A empresa também destacou esforços para reduzir as emissões e investir na captura e armazenamento de carbono e hidrogênio. A Exxon estimou que apenas a captura de carbono poderia representar um mercado de US$ 2 trilhões (cerca de R$ 10,6 trilhões) em 2040.

“Acreditamos que o sucesso no desenvolvimento dessas tecnologias será fundamental para o avanço das ambições da sociedade por um futuro de baixa emissão carbono e na entrega de valor de longo prazo para os acionistas”, escreveram o CEO da Exxon, Darren Woods, e o conselheiro principal Ken Frazier, em uma carta aos acionistas na segunda-feira.

No entanto, a Glass Lewis disse não acreditar que a Exxon “defendeu seu caso de forma convincente” ao dizer que a captura de carbono se tornará economicamente viável ou crescerá na escala necessária para se tornar a peça central da estratégia de transição energética da empresa.

“Ficamos com a sensação de que a Exxon não está fazendo o suficiente em termos de preparação ou investimento para o futuro”, escreveu a Glass Lewis.

Em um sinal da pressão que a Exxon enfrenta, a empresa também prometeu adicionar dois novos membros do conselho nos próximos 12 meses, um com experiência no setor de energia e outro com experiência em clima. Eles se somariam aos seis novos membros que foram adicionados desde 2017.

De sua parte, a Engine No. 1 exortou os acionistas a não se deixarem influenciar pelo que chamou de “manobras cínicas de última hora” da Exxon.

“É a mesma empresa que por anos se recusou a dar passos materiais graduais para estar mais bem posicionada a longo prazo em um mundo de descarbonização”, disse a Engine No. 1 em um comunicado.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui)

Tópicos

Mais Recentes da CNN