Fundo britânico chega com grana e quer investir no mercado vegano no Brasil

Super Vegan, fábrica de chocolates santista, receberá investimento do Veg Capital e pretende crescer 10 vezes em 2021

Foto: Super Vegan/Divulgação

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

Ouvir notícia

A Veg Capital, fundo de Venture Capital britânico focado no mercado vegano, está à procura de boas empresas –plant-based, é claro– para investir no Brasil. E, para isso, a iniciativa desembarca por aqui em parceria com o dinamarquês-brasileiro Christian ‘Crica’ Wolthers, investidor-anjo e criador do app Zen.

Crica mora no Brasil há 11 anos e tornou-se vegano há quatro, inicialmente por questões de saúde, mas se encantou pelo tema. Decidiu, então, pouco antes da pandemia, mudar toda a sua tese de investimento para apostar apenas em empresas do segmento ou que, pelo menos, tenham fundadores veganos.

Em sua busca por oportunidades no setor, conheceu a Veg (mais precisamente o diretor executivo do fundo, Matthew Glover, no LinkedIn) e se impressionou. Com apenas 18 meses de vida, a empreitada vem ganhando tração no Reino Unido e também já apoiou empresas de outros países na Europa e na Ásia.

Ao todo, foram 19 empresas impulsionadas e cerca de US$ 4 milhões investidos até aqui, provenientes de investidores, em sua maioria anônimos, alinhados com a missão de difundir o veganismo. Agora, com a ajuda de Crica, o fundo olha para o mercado sul-americano e, mais precisamente, para o Brasil.

A dupla já até escolheu sua primeira parceria. Trata-se da Super Vegan, fábrica de chocolates de Santos (SP) que vende cerca de 750 quilos mensalmente, atende o país todo através do seu e-commerce e possui pontos de venda em 32 cidades. A empresa espera crescer 10 vezes em 2021.

Uma outra companhia, focada na produção de leite vegetal, deve ser a próxima da lista.

Aqui já fica uma dica sobre como o fundo quer agir no país. Empresas escaláveis, em fases não muito avançadas e, principalmente, com produtos que possam ajudar a revolucionar o mercado. O ticket de investimento varia de R$ 350 mil, como foi o caso da Super Vegan, a R$ 1,5 milhão, de acordo com o porte de cada empresa. 

“A Veg Capital não tem fins lucrativos. Tudo que recuperamos com os nossos investimentos é doado para instituições do segmento. Dito isso, nosso principal objetivo é remover animais da cadeia de suprimentos, e fazemos isso investindo em empresas jovens que estejam desenvolvendo produtos nessa linha”, diz Glover.

“E o Brasil está no ponto em que o Reino Unido estava há dois, três anos atrás. Os Estados Unidos avançaram muito na produção, com empresas como Beyond Meats e Impossible Foods, e nós ficamos para trás. Mas o sucesso americano foi tão grande que chegou à Europa e nos ajudou a avançar. O mesmo pode ocorrer neste caso.”  

Nessa linha, e questionados sobre a receptividade do público brasileiro a produtos plant-based, os investidores se mostram otimistas. Crica relembra uma pesquisa de 2018 do Ibope, em que 14% dos brasileiros se declararam vegetarianos e 55% afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se sua origem estivesse indicada na embalagem.

“O Brasil é a terra dos contrastes. Acredito que ainda não temos tantas discussões sobre sustentabilidade como em outros países porque enfrentamos uma série de outros problemas por aqui, mas as pessoas estão abertas a experimentar novos produtos, e estes produtos estão cada vez mais acessíveis”, diz Crica. 

Ele afirma, inclusive, que o mercado nacional já tem desenvolvido ótimas alternativas, como as da Fazenda Futuro, mas que pode muito mais. A partir disso, indica os segmentos de queijo e chocolate como possíveis destaques em uma nova onda de disseminação vegana no país.

Glover corrobora o sentimento e também indica um iminente intercâmbio entre produtos brasileiros e europeus, sempre priorizando a substituição dos produtos de origem animal mais consumidos em cada região. Ele cita particularmente o VFC, ou Vegan Fried Chicken, frango frito vegano desenvolvido por empresa inglesa e apoiado pelo Veg Capital que pode chegar ao Brasil no futuro.

“O mercado vegano está alcançando um crescimento exponencial no sabor, na competitividade de preços e na distribuição. Além disso, precisamos encontrar soluções para os nossos problemas de sustentabilidade, e não conseguiremos fazer isso sem mudar nossa dieta”, resumem. 

veg capital
Crica e Glover, investidores veganos
Foto: Divulgação
Super Vegan

Adepta do veganismo desde os 14 anos, a santista Juliana Salgado, formada em nutrição, sentia falta de opções de alimentos que “não explorassem animais nem prejudicassem o meio ambiente”, principalmente do seu doce preferido, o chocolate. Começou, então, a empreender para suprir essa demanda. 

“Eu sou apaixonada por chocolate branco e, no mercado vegano, você não encontrava esse sabor na época. Eu testei algumas fórmulas para consumo próprio, mas deu tão certo que alguns amigos quiseram comprar. Semanas depois já tinha criado a marca e estava vendendo em algumas lojas de São Paulo. Ainda em 2013, eu me mudei para fora do país e a Super Vegan entrou em um hiato, até que voltei para o Brasil, em 2018, e resolvi retomar o projeto”, conta. 

Além do público vegetariano e vegano, a Super Vegan também tem grande aceitação entre pessoas intolerantes à lactose e ao glúten, por exemplo, pois seus produtos são a base de leites vegetais, castanhas e cacau. A empresa produz 11 sabores, que vão do chocolate branco ao amargo, passando por doçuras como morango e cookies.

Mais Recentes da CNN