G10 Bank promete ser o banco digital das favelas

Grupo lança um banco digital para atender os moradores de favelas, público que movimenta R$ 119,8 bilhões por ano

Outro ângulo da disparidade entre Paraisópolis e Morumbi
Outro ângulo da disparidade entre Paraisópolis e Morumbi Foto: Johnny Miller/Reprodução

Estela Aguiar, do CNN Brasil Business, em São Paulo*

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Em 2019, estimava-se que cerca de 45 milhões de brasileiros não possuíam conta bancária. No ano passado, essa realidade mudou devido aos efeitos da pandemia, com a criação das contas de poupança digital social para o recebimento do auxílio emergencial. De acordo com a Caixa Econômica Federal, cerca de 20 milhões de beneficiários do auxílio passaram a ter conta em banco.

Neste cenário, o G10 Favelas, bloco de líderes e empreendedores de impacto de comunidades brasileiras, lança um banco digital para atender os moradores de favelas, público que movimenta R$ 119,8 bilhões por ano, segundo os Institutos Data Favela e Locomotiva. 

“Com a criação do G10 Bank, pode-se levantar o sonho antigo da favela, que é empreender, de poder transformar e aproveitar oportunidades, pois muitas delas não chegam lá”, diz Gilson Rodrigues, líder comunitário em Paraisópolis e presidente do G10 Favelas e do G10 Bank Participações. 

Neste primeiro momento, com o capital inicial de R$ 1,8 milhão, o grupo está criando ferramentas para o enfrentamento da pandemia e da instabilidade econômica gerada pelo fim do auxílio emergencial. A ideia é dialogar com os comerciantes locais e selecionar empreendedores que precisem dos recursos do banco. 

O próximo passo é trabalhar com pessoas físicas. “Vamos investir muito mais em cartões, porque, a princípio, o cartão é de uso da própria comunidade e temos autorização para trabalhar com o crédito e empréstimos”, acrescenta.

De presidente de rua a educador financeiro 

De olho em lideranças de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, o G10 viu nos “presidentes de rua” –moradores designados para vigiar a saúde e os hábitos de vizinhos em meio à pandemia– figuras importantes para seu plano de levar crédito à comunidade. 

“O presidente de rua passa ser para gente um avaliador informal, porque ele entende as necessidades de crédito do morador. Temos transformado os presidentes em educadores financeiros”, afirma o líder comunitário. 

A ideia do G10 Bank é expandir essas operações para as comunidades de todo país. “Onde estiverem os presidentes de rua, teremos o banco.” 

Rodrigues alerta para o fato de haver um site com o nome do G10 Bank em funcionamento, oferecendo diversos serviços financeiros, inclusive maquininhas de cartão, mas está atuando de maneira indevida. 

“Acionamos o registo da marca para que seja retirado do ar, e o processo está com o nosso advogado.” 

Inspiração em Bancos Comunitários

Na definição do Instituto Palmas, organização que articula os bancos comunitários no Brasil, essas instituições são serviços financeiros solidários em rede, de natureza associativa e comunitária, voltados para a geração de trabalho e renda. O objetivo deles reorganizar as economias locais, tendo por base os princípios da Economia Solidária.

Atualmente, na rede brasileira desenvolvida pela instituição, há 103 bancos comunitários espalhados pelo território nacional, a maior parte está concentrada no nordeste. 

Na capital da Bahia, por exemplo, funciona o Banco Comunitário Santa Luzia, oferecendo aos moradores do bairro do Uruguai uma moeda local que é aceita em diversos comércios. Durante a pandemia, a atuação da instituição foi auxiliar a população mais vulnerável do bairro.  

“Realizamos arrecadação de alimentos e kits de higiene e, paralelamente a isso, junto com a uma parceria internacional que já atua na comunidade, conseguimos beneficiar 401 empreendedores com R$ 600 durante seis meses, como forma de incentivo para quem teve de parar”, explica Tiago Alves Muniz, agente de crédito do Banco Comunitário Santa Luzia. 

Em São Paulo, com atuação no bairro do Campo Limpo, opera o Banco União Sampaio. A iniciativa nasce como uma incubadora da Universidade de São Paulo (USP), envolvendo todos da comunidade. Com criação de uma moeda solidária, que circula entre os moradores e 12 estabelecimentos, a organização também atuou para cessar os efeitos da pandemia.

“Tivemos ajuda de alguns órgãos particulares com a doação de cestas básicas e cadastramos as famílias que estavam em maior nível de vulnerabilidade”, diz Neide Abati, co-fundadora da instituição. Entre as iniciativas, ela destaca a organização de mulheres para fabrição de máscaras para doar ou vender por um preço acessível. 

No momento de incertezas sobre o auxílio emergencial, Muniz ressaltou a importância do banco comunitário nas favelas brasileiras. “Nosso público alvo são pessoas que estão com o nome negado, e não temos os mesmos parâmetros de um banco tradicional. Vamos auxiliar no momento de dificuldade, suprindo um empréstimo”, diz. 

* Sob supervisão de Ligia Tuon

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