Galerias de arte operam em blockchain para exibir NFTs e registrar histórico de vendas

Companhias do setor apontaram que os maiores problemas são as artes digitais serem lastreadas em criptomoedas

Yaak Studio cobra uma porcentagem entre 5% e 30% na venda de obras digitais; lucro da Meta Art City é via uma taxa de 50% em cima de cada obra comercializada
Yaak Studio cobra uma porcentagem entre 5% e 30% na venda de obras digitais; lucro da Meta Art City é via uma taxa de 50% em cima de cada obra comercializada 30/09/2021 REUTERS/Tyrone Siu

Artur Nicocelido CNN Brasil Business

em São Paulo

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O blockchain entrou no radar dos donos de galerias de arte. Eles estão usando a tecnologia descentralizada para exibir e vender artes digitais, conhecidas como NFTs (tokens não-fungível). 

O CNN Brasil Business conversou com três companhias especializadas no metaverso artístico para entender como funciona esse novo modelo de negócios.

As empresas afirmaram que a vantagem em relação às galerias presenciais é que as obras podem ser comercializadas em qualquer parte do mundo e a qualquer momento.

“Um espaço físico não conseguiria suprir essa lógica de maneira tão eficiente”, afirma Mauricio Hartman, fundador da Meta Art City, uma galeria que possibilita o artista configurar o espaço virtual como preferir.

Outros benefícios listados por especialistas são a otimização da logística, do armazenamento e da conservação das obras, já que o acervo é totalmente digital, e a possibilidade de registrar o histórico de venda das obras.

As companhias informaram que o investimento inicial para começarem o projeto de uma galeria de arte digital é de R$ 100 mil a R$ 550 mil.

Por outro lado, a dificuldade do setor é que as obras virtuais são negociadas em criptomoedas. Ou seja, quando a cotação de uma moeda digital cai, o preço de NFT tende a tombar também.

Na última quarta-feira (11), por exemplo, o bitcoin atingiu o menor nível em 17 meses, quando bateu US$ 29.367. Assim, no mesmo período, uma arte digital lastreada pela cripto pode ter desvalorizado na mesma magnitude. A volatilidade desse ecossistema deve representar uma desvantagem, fazendo com que o preço final das obras variem muito, segundo Thiago Gouvêa, responsável pela direção criativa da Yaak Studio.

O CEO da Origins, Diego Mathias, cita ainda como dificuldade o trabalho de reunir, organizar e transformar todos esses dados das obras físicas em códigos digitais.

Cada artista e galeria podem decidir onde querem transformar as obras em endereços digitais para depois expôr. O custo no desenvolvimento de uma coleção no blockchain da rede ethereum, por exemplo, gira em torno de R$ 100 mil.

Mas também é possível tokenizar um único item por meio de plataformas de marketplace, como a OpenSea.

Conheça abaixo três galerias de arte que operam no metaverso:

Os dois braços

A Origins é uma galeria que opera tanto no metaverso quanto no mundo físico. O CEO da companhia diz que o objetivo é ter ambos os espaços conectados.

“É possível ver um quadro físico e mergulhar em toda sua história de maneira rápida, fácil e com usabilidade excelente. Ao mesmo tempo, caso veja uma obra digital que tenha elementos do mundo físico, é importante acessar [digitalmente] a história por trás para compreender a obra por completo”.

Eles também pretendem operar como um protocolo descentralizado para registro e validação de obras de arte.

A Origins fatura cerca de US$ 60 mil por mês. A companhia cobra uma taxa de 20% quando são vendidos quadros físicos e 10% quando é um NFT.

A expectativa do CEO é, após a nova versão, faturar US$ 5 milhões no primeiro ano, US$ 40 milhões, no segundo, US$ 55 milhões, no terceiro ano e mais de US$ 100 milhões, no quarto ano.

Gestão do espaço

A Meta Art City, que começou suas operações há cerca de um mês, é focada apenas no universo digital. A companhia possibilita que os artistas construam instalações na exposição virtual, como uma galeria customizada.

Para os artistas, o investimento pode ser de R$ 20 mil se optarem pela configuração do espaço da ‘galeria modelo’ (estrutura já pronta e oferecida pela empresa) ou no mínimo R$ 50 mil para criar a estrutura que quiserem.

As obras podem custar entre US$ 20 até milhares de dólares, apontou o fundador da Meta Art City. “Depende da coleção”.

A empresa vende cerca de 200 obras por mês e, atualmente, estão com uma única coleção. O lucro da companhia é cobrando uma taxa de 50% em cima de cada obra comercializada.

Hartman informou que em 28 de maio será lançada uma segunda versão da Meta Art City, em que será possível ter mais de 10 galerias virtuais. “E, em seguida, [o planejado] é uma terceira versão em que conseguiremos ter eventos, exposições de arte, música, cultura e um museu de NFTs com pegada social”.

Na segunda versão, a galeria contará com artistas da Inglaterra, Uruguai e Argentina.

Da gratuidade até US$ 90 milhões

A Yaak Studio começou as operações no final de 2021. Desde então tiveram cerca de 5.000 compradores, com um ticket médio de R$ 1.200. Dentro do portfólio da galeria existem obras que variam entre R$ 500 e R$ 60 mil.

Thiago Gouvêa, responsável pela direção criativa da Yaak Studio, diz que “o mundo dos NFTs tem arte para todos os orçamentos”. A obra ‘The Merge’, do artista Pak, por exemplo, levantou US$ 90 milhões, na galeria. Por outro lado, também existem alguns projetos artísticos que distribuem tokens de forma gratuita.

A Yaak Studio cobra uma porcentagem entre 5% e 30% na venda, o que vai variar é se o projeto utiliza uma tecnologia própria ou da empresa. A expectativa de faturamento é de R$ 2 milhões no próximo semestre e R$ 6 milhões em 2023.

Gouvêa afirmou também que pretende cada vez mais ampliar as operações da Yaak Studio via blokchain, buscando trazer mais artistas e fechar parcerias com diversas marcas. Para tal, ele apontou que será necessário um investimento de ao menos R$ 3 milhões.

“Se comparado com questões presenciais, apesar de a vantagem de não ter os custos relacionados à logística de obras de arte, uma galeria no metaverso tem uma estrutura de custos própria. Por isso, também necessita de um terreno, de um construtor, de um acervo e curadoria”, disse Gouvêa. “A diferença é que estas tarefas são executadas por um time de tecnologia”.

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