Gerdau quer vender menos aço e mais serviços – e investidores gostam disso

A centenária indústria de aço brasileira faz intenso programa de desinvestimentos, sai dos mercados europeu e asiático e quer ser vista como uma empresa "tech"

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

Ouvir notícia

Poucas empresas podem comemorar bons resultados em meio ao ano de pandemia. Obviamente, saíram na frente aquelas ligadas ao setor de tecnologia, que se saiu bem nesse período de quarentena e pessoas em casa. Mas houve também algumas empresas da economia tradicional. Uma que tem o que comemorar, e até virou queridinha dos investidores, foi a siderúrgica Gerdau – que também quer ser vista como uma empresa de tecnologia, não só como uma indústria.

Os resultados que a empresa apresentou em 2020 foram bem acima do que era esperado por analistas. Pegando apenas os números referentes ao quarto trimestre, a Gerdau reportou um lucro de pouco mais de R$ 1 bilhão, 939% a mais do que o apresentado um ano antes, quando nem se falava em pandemia. Em todo o ano, o lucro foi de quase R$ 2,4 bilhões, fazendo com que a empresa praticamente dobrasse o ganho de um ano para o outro.

Alguns fatores ajudaram essa alta considerável no lucro da Gerdau. O primeiro deles foi a alta do preço do minério de ferro, que valorizou mais de 80% em 2020 e segue em viés de alta para este ano. Porém, para conseguir captar as partes boas desse novo momento de alta das commodities, a empresa vem colocando em prática um forte plano de reestruturação de suas operações.

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau
Gustavo Werneck, CEO da Gerdau: “Nosso futuro está nas Américas”
Foto: Gerdau/Divulgação

Essa mudança foi acelerada há cerca de dois anos, quando o executivo Gustavo Werneck assumiu a cadeira de CEO da companhia brasileira. Foi a primeira vez que alguém de fora da família Gerdau passou a ser o timoneiro da empresa. Além disso, os aportes nas áreas de tecnologia e na criação de novos serviços passaram a ser praticamente uma regra dentro da siderúrgica.

“Nos últimos anos, resolvemos passar por uma transformação corajosa de desinvestir em diversos setores e mudar a cultura da companhia. Foi uma transformação cultural para deixar a Gerdau mais leve e ágil”, diz Werneck.

Foco nas Américas

Nos últimos anos, a empresa se desfez de diversos ativos, o que fez a companhia arrecadar R$ 7 bilhões. A ideia de ser uma empresa global ficou mais de lado. A Gerdau decidiu sair de mercados importantes, como Índia e Europa, além de se desfazer de segmentos que não faziam mais sentido, como a operação de vergalhões para construções nos Estados Unidos.

“Não queremos ter mais investimentos na Europa e na Ásia. O nosso futuro está nas Américas”, diz Werneck.

Uma nova Gerdau

O executivo sabe que o futuro da empresa não pode ser apenas o aço. Existe uma meta dentro da empresa de transformar boa parte dos negócios, a fim de se conectar com o novo momento do mundo.

O primeiro deles, claro, é ser uma empresa cada vez mais tecnológica. Não por acaso, a companhia começou a criar métricas em cima de dados. Em 2021, a meta é ser “data driven” – em outras palavras, todas as estratégias serão tomadas em cima dos números, desde a gestão da cadeia de suprimentos até a utilização da internet das coisas para monitorar todas as suas plantas.

Além disso, a empresa também lançou o programa Gerdau Next pensando na Gerdau do Futuro. Segundo Werneck, a meta da empresa é que 20% das receitas da Gerdau nos próximos dez anos virão de produtos ou serviços que sequer existem hoje. 

Um exemplo é a entrada da Gerdau na área de fundações sob medida para construção de prédios – chamada de G2Base. “Isso faz parte de uma meta da Gerdau de vender menos aço e mais serviço”, diz Werneck.

A companhia também faz parte do grupo Juntos Somos+, que é um programa de fidelidade feito em parceria com grandes indústrias do setor, como a Votorantim Cimentos e a Tigre. 

A ideia surgiu como uma forma de trazer soluções e benefícios para os comerciantes, que respondem por quase 70% das vendas de toda a construção civil. A entrada nesse grupo já potencializou as vendas da Gerdau: cerca de 10% de tudo o que é vendido pela empresa já é feito pela internet. 

ESG e diversidade

Werneck afirma que a empresa também está conectada com os novos momentos, em especial à importância de fomentar uma agenda de diversidade dentro de casa, além de garantir o cumprimento de compromissos ambientais, a tal da agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança Corporativa). 

Uma das frentes que já estão sendo atacadas é a falta de mulheres na liderança da empresa, algo que é bem comum na indústria como um todo. Em um horizonte curto, Werneck diz esperar que a Gerdau tenha 25% de mulheres em posições de liderança, desde a diretoria até o chão de fábrica. 

Usina de Charqueadas da Gerdau
Usina de Charqueadas, no Rio Grande do Sul, da Gerdau: empresa teve lucro acima do esperado pelo mercado em 2020
Foto: Gerdau/Divulgação

Um primeiro passo foi dado em novembro do ano passado. A engenheira Michele Robert foi anunciada como CEO da Gerdau Summit, subsidiária da companhia que surgiu com foco no fornecimento de peças para a geração de energia eólica.

Ela foi o principal exemplo da guinada da Gerdau nessa área – de 2019 para 2020, o percentual de mulheres em cargos de liderança subiu de 18% para 20,4%. Trata-se de um número considerável pensando na baixa penetração de mulheres no setor siderúrgico: 9%, segundo o Instituto Aço Brasil. 

Queridinha dos investidores

Nos últimos meses, a ação da Gerdau se tornou uma queridinha dos investidores. Não à toa, diversos bancos de investimento estão recomendando a compra dos papéis da companhia. Nos últimos 12 meses, os papéis preferenciais da empresa praticamente triplicaram de valor. 

Ajudou também o fato de os resultados da empresa terem vindo acima do esperado. A Gerdau ainda afirmou que vai investir bem mais do que o esperado em 2021: R$ 3,5 bilhões serão desembolsados neste ano. Ou seja, parte do que não foi investido em 2020 será aplicado neste ano.

E a empresa está capitalizada para isso. Seu endividamento também está bem controlado. No final de 2019, a relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) estava em 1,67 vez, um patamar considerado ótimo por analistas. Em 2021, caiu ainda mais: 1,25. 

“Esperamos que a Gerdau se beneficie do forte ambiente de precificação do aço em todas as regiões, da sólida demanda demanda de aços longos no Brasil e das margens saudáveis continuadas nos EUA”, escreveram os analistas Thiago Lofiego e Luiza Mussi, da corretora Ágora.

Ajuda o fato de o pacote trilionário do presidente Joe Biden ter sido aprovado. Logo, um dos maiores mercados para a companhia deve ter uma forte recuperação econômica – especialistas enxergam que é possível que o PIB dos EUA tenha um salto de 7% em 2021.

De olho nisso, a corretora Mirae está comprada na Gerdau. “O novo presidente Biden deve priorizar investimentos em infraestrutura para gerar empregos”, escreveu o analista Pedro Galdi. Ou seja, mesmo querendo depender cada vez menos do aço, a Gerdau não pode desperdiçar a oportunidade de aumentar ainda mais o seu lucro –e agradar ainda mais os seus investidores. 

Mais Recentes da CNN