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    Incertezas com cenário global inédito fazem mercado divergir sobre decisões do BC

    Ata da última reunião do Copom provocou leituras diferentes sobre o discurso da autarquia e as perspectivas para a taxa de juros —com aumentos menores ou maiores

    Mercado diverge sobre tom do Banco Central no combate à inflação
    Mercado diverge sobre tom do Banco Central no combate à inflação Adriano Machado/Reuters

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

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    A divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta terça-feira (22), se tornou mais um capítulo da divergência de analistas e agentes de mercado sobre o tom do Banco Central em relação ao combate à inflação.

    Por trás dessas visões estão dois termos  —hawkish e dovish. O primeiro se refere a uma política monetária dura, de combate à inflação e elevações maiores nos juros. Já o segundo caracteriza uma postura mais suave, com combate menos intenso à inflação e altas menores de juros em cenários como o atual.

    Ao mesmo tempo, essas divergências têm como pano de fundo a grande incerteza mundial devido à guerra na Ucrânia e o grau dos efeitos inflacionários que ela gerará, e se eles demandariam uma alta ainda maior nos juros do que o previsto pelo Banco Central.

    As divergências também ocorrem após a surpresa em parte do mercado pela sinalização do Copom em comunicado na reunião de março de que elevará os juros em 1 ponto percentual, superando algumas estimativas.

    O que diz a ata?

    No documento, os integrantes do Copom sinalizaram que a taxa básica de juros, a taxa Selic, deve ter um novo aumento de um ponto percentual na próxima reunião, em maio, chegando a 12,75%.

    A ata afirma que a estratégia seria a “mais adequada para atingir aperto monetário suficiente e garantir a convergência da inflação ao longo do horizonte relevante”, o que foi visto pelo mercado como sinalização de que o ciclo de alta de juros iniciado em março de 2021 acabaria em maio.

    Por outro lado, o próprio Copom reconheceu um “cenário desafiador para a convergência da inflação para suas metas”, indicando que poderia ajustar o tamanho do ciclo dependendo da situação, ou seja, subir ainda mais os juros.

    O Copom apresentou um “cenário de referência” para a taxa de juros com que trabalha, projetando a inflação em 7,1% em 2022 e 3,4% em 2023, baseado no preço do petróleo passar por 2022 acima dos US$ 115, mantendo a trajetória de alta iniciada em 2021 e reforçada com a guerra na Ucrânia.

    Os integrantes do comitê, porém, decidiram apresentar também um “cenário alternativo” das projeções devido à volatilidade nos preços do petróleo. Nele, a commodity terminaria 2022 em US$ 100 o barril, com previsão de inflação em 6,3% em 2022 e 3,1% em 2023, ou seja, um cenário mais brando. Para o Copom, é essa a hipótese mais provável atualmente de se concretizar.

    “O Comitê considera que a divulgação de cenário alternativo é particularmente útil e informativa em ambiente altamente incerto”, diz a ata.

    As visões do mercado

    Para a Caio Megale, economista-chefe da XP, a ata teve um tom “neutro, levemente hawkish”, já que “deixou ainda mais claro que os riscos são altistas e que está preparado para fazer um ajuste ainda maior, se necessário”. A projeção é de Selic em 12,75% ao fim de 2022.

    É uma visão semelhante à do economista-chefe da Necton, André Perfeito, que projeta a Selic a 13,25% ao fim de 2022. “Me pareceu que o Copom não terá pudor em subir mais caso precise”, avalia Perfeito. “Ele não vai querer fechar o ciclo rápido. Vai deixar em aberto”, diz, ele, o que indica uma cautela maior do comitê.

    Já Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, vê a ata como “mais dovish” que o comunicado divulgado após a reunião dos dias 15 e 16 de março, porque “dá mais sinais que pretendem encerrar em 12,75% ao ano, embora deixe a porta aberta para ir além”.

    Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central, vai na direção oposta, e considera que a ata “confirmou o que disse no comunicado, que o plano de voo é mais 1 ponto percentual e depois vai parar”, mas reforçou que o cenário pode mudar.

    Para ele, o grau de incerteza no contexto atual, em especial com a volatilidade do petróleo e um impacto grande da guerra, acabam demandando serenidade do Banco Central, ainda que o mercado “sempre queira especificar as coisas”. Mas Figueiredo ressalta que o tom foi considerado mais duro porque o BC fez questão de dizer que se for preciso vai subir mais os juros e “está super aberto a isso”.

    Para Yihao Lin, coordenador de economia da Genial Investimentos, foi exatamente a comunicação do cenário alternativo que reforçou a confusão nas interpretações do mercado, dividido entre a visão que o Copom foi hawkish ou dovish no texto.

    “Em alguns pontos eles dão sinalização mais dove, em outros acabam reforçando o caráter mais persistente da inflação, com uso de palavras que dão a entender que a política monetária vai seguir avançando em território mais contracionista que o cenário de referência”, afirma.

    A visão da Genial foi que a ata teve tom dovish, em especial pela indicação que o Banco Central está dando mais peso para o “cenário alternativo”, de inflação menor que também demandaria juros menores.

    Quem defende essa interpretação projeta a Selic ao fim de 2022 em 12,75% ao ano, mas a previsão de Lin é de juros em 13,25%.

    Para ele, essa confusão não representa uma falha de comunicação, mas sim o cenário de incerteza elevada com a situação na Ucrânia.

    Para conseguir avaliar os efeitos da guerra, sobretudo na economia, precisa responder duas perguntas: até onde vão as sanções e quais ainda podem ser aplicadas, até quando duram? E qual a duração do conflito? E ninguém controla isso

    Yihao Lin, coordenador de economia da Genial

    Lin avalia que o Copom tentou reduzir a incerteza atual por meio da ata, adicionando o cenário alternativo e indicando que está de olho em possíveis pioras, sem risco de ser pego de surpresa, mas que isso “foi feito de maneira que causou o efeito oposto”.

    O economista, ex-diretor do Banco Central e especialista CNN Alexandre Schwartsman, afirma que não vê motivos para a confusão no mercado, e que a ata foi, em sua visão, “muito dovish”, em linha com o comunicado da semana anterior.

    O problema, diz, é que “o BC projetou a inflação em 2023 do jeito que sempre faz, não gostou do resultado e fez uma nova projeção com resultado mais baixo, que permite que em tese pare [a alta de juros] em maio”.

    “Ele deixou uma porta aberta se não se seguir como planejou, pode fazer mais, mas é mais uma cláusula de escape, não entendo como sinalização dura”, afirma.

    Schwartsman avalia que, sem o cenário alternativo, o Copom estaria projetando inflação acima da meta em 2023, diferente da previsão em fevereiro (inflação em 3,2%, ante a meta de 3,25%), e portanto precisaria indicar altas maiores nos juros.

    O cenário alternativo dá a justificativa para falar de não elevar ainda mais depois de maio, mesmo que as coisas mudem mais pra frente

    Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central

    Para ele, o problema na ata e no comunicado não é de comunicação, mas sim um “pecado original”, que é “tirar um cenário do bolso. Na consideração sobre os cenários, a ata parece que misturou um pouco as coisas, e o comunicado foi mais claro. Fevereiro não foi assim, a comunicação foi bem organizada, em março piorou”.

    Mesmo assim, a situação foi, na visão do economista, criada pelo próprio Copom. “Se ele não quisesse não precisaria de toda essa ginástica. Citaria as incertezas para não sinalizar nada, ninguém julgaria. Ele não é obrigado a sinalizar, e em um cenário como esse poderia ter sido melhor não sinalizar nada e esperar”.

    *Com Priscila Yazbek

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