Investidores estrangeiros são perdedores na luta da Evergrande para sobreviver

Incorporadora tem priorizado pagamentos para investidores chineses em seu processo de recuperação

Analistas afirmam que crise da Evergrande não deve ter mesmos efeitos da de 2008
Analistas afirmam que crise da Evergrande não deve ter mesmos efeitos da de 2008 REUTERS/Tyrone Siu

Michelle Tohdo CNN Business

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A forma como a crise da Evergrande acabará ainda é desconhecida. Mas o problemático conglomerado chinês está começando a colocar suas prioridades em ordem – e os investidores estrangeiros parecem estar no fim da lista.

Nos últimos dias, a gigante imobiliária tem trabalhado para limpar algumas contas com os credores domésticos, enquanto tenta resolver sua montanha de dívidas de US$ 300 bilhões.

Mas a empresa permaneceu em silêncio sobre dois pagamentos de juros a investidores estrangeiros que venceram nas últimas semanas.

Esses pagamentos de juros eram devidos sobre títulos denominados em dólares: um de US$ 83,5 milhões e o outro de US$ 47,5 milhões. Os prazos vieram e passaram sem nenhuma atualização oficial.

Isso sugere que a prioridade da empresa é pagar primeiro os investidores chineses, se é que é possível pagá-los. Ela também está sob forte pressão de Pequim para proteger as pessoas que compraram seus apartamentos e ainda não tomaram posse.

Estima-se que o setor imobiliário da China e as indústrias relacionadas representem cerca de 30% do PIB (Produto Interno Bruto), e as autoridades querem evitar uma crise mais ampla.

Na quarta-feira passada (29), a Evergrande anunciou que concordou em vender parte de sua participação em um banco local para uma empresa estatal por quase 10 bilhões de yuans (cerca de US$ 1,5 bilhão).

Em um documento enviado para a bolsa de valores, a incorporadora disse que sua crise de caixa prejudicou as operações do Shengjing Bank “de forma material”, e que o credor exigiu que todos os rendimentos da venda fossem usados ​​para resolver “passivos financeiros” entre as duas partes.

A Evergrande também chegou recentemente a um acordo sobre os juros devidos sobre um título em yuans, dizendo que a questão foi “resolvida por meio de negociações”.

Pode levar algum tempo até que o futuro da empresa volte ao foco: a China continental acaba de dar início a um grande feriado de uma semana.

Mas os mercados estão abertos esta semana em Hong Kong, onde as ações da Evergrande e alguns de seus títulos são negociados. E os rumores sobre seu destino podem continuar abalando as ações.

As ações da Evergrande foram suspensas das negociações em Hong Kong na segunda-feira (4). Um aviso da bolsa de valores não entrou em detalhes sobre o movimento.

Adam Slater, economista-chefe da Oxford Economics, disse que os investidores ficarão de olho em quaisquer desenvolvimentos, ou mesmo rumores.

“Os mercados globais ainda podem reagir”, disse ele à CNN Business.

Nenhum sinal de um ‘momento Lehman’

A Evergrande é a incorporadora mais endividada da China, e seu enorme passivo inclui quase US$ 20 bilhões em títulos internacionais, de acordo com o provedor de dados Refinitiv Eikon.

Mas como os credores estrangeiros detêm uma “parcela relativamente pequena” da dívida geral da Evergrande, suas perdas “não serão grandes o suficiente para causar qualquer contágio internacional significativo”, disse Slater.

“Impor perdas sobre eles libera fundos para compensar os credores, fornecedores [ou] consumidores domésticos”, acrescentou.

De acordo com Slater, a escala do dano potencial aos credores estrangeiros “parece administrável”. Ele estimou que eles poderiam perder cerca de US$ 15 bilhões, supondo que o preço atual dos títulos “reflita com precisão o valor de recuperação final dos títulos offshore da Evergrande”.

“Isso não é particularmente grande no que diz respeito à inadimplência corporativa”, observou ele.

Nas últimas semanas, os investidores internacionais foram influenciados por temores de contágio da Evergrande e uma desaceleração do crescimento chinês. A situação no mês passado gerou pânico nos mercados globais, bem como grandes protestos na China.

Alguns até levantaram a possibilidade de que um calote da Evergrande possa se transformar no “momento do Lehman Brothers” da China, em referência à falência de um banco que gerou a crise de 2008, embora muitos analistas digam que isso é improvável.

Slater disse que embora um colapso da Evergrande fosse significativo, “não é um ‘momento Lehman'”.

A prioridade para as autoridades chinesas “parece ser evitar o contágio doméstico dos problemas da Evergrande, especialmente o que prejudicaria consumidores e fornecedores”, observou.

“Os mercados presumem – provavelmente de forma correta – que as autoridades chinesas conterão o impacto dos problemas financeiros da Evergrande”.

Pequim tem poucas opções boas, no entanto. O governo vai querer proteger os muitos chineses que compraram apartamentos inacabados da Evergrande, bem como trabalhadores de construção, fornecedores e pequenos investidores.

De acordo com uma análise recente do Bank of America, a Evergrande vendeu 200.000 unidades habitacionais que ainda não foram entregues aos compradores.

O governo também vai querer limitar o risco de falência de outras imobiliárias. Ao mesmo tempo, Pequim tenta conter o endividamento excessivo por parte dos incorporadores – e não vai querer diluir essa mensagem.

Até agora, os especialistas dizem que os resultados potenciais incluem um resgate, reestruturação ou calote apoiado por Pequim.

A China se move para proteger os consumidores

Nas últimas semanas, o governo voltou seu foco para limitar as consequências da crise e proteger as pessoas comuns, embora tenha se abstido de comentar diretamente sobre a Evergrande.

Em um comunicado no final do mês passado, o Banco Popular da China prometeu “manter o desenvolvimento saudável do mercado imobiliário e salvaguardar os direitos e interesses legítimos dos consumidores de imóveis”.

Embora não se refira especificamente à Evergrande, o banco central tem injetado dinheiro no sistema financeiro nos últimos dias para ajudar a estabilizar a situação e acalmar os nervos.

Na terça-feira passada (28), ele anunciou que havia acrescentado 100 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 15,5 bilhões) ao sistema, dizendo que era para manter a liquidez.

Iris Pang, economista-chefe da Grande China do ING, disse que a medida foi “um sinal simbólico para o mercado de que o governo chinês está no controle do incidente e não está permitindo que ele se transforme em uma crise”.

Mas mesmo que as perdas para os investidores estrangeiros sejam relativamente contidas, a crise pode forçar alguns a repensar a forma como emprestarão a outras empresas chinesas no futuro, de acordo com Slater.

Ele advertiu que os credores poderiam “decidir ‘reavaliar’ [os ricos na] China à luz de seu tratamento na reestruturação da Evergrande, e à luz do que os problemas da Evergrande dizem a eles sobre a relação risco e recompensa mais ampla na dívida chinesa”.

“Isso, por sua vez, depende muito da maneira exata como a reestruturação da Evergrande será organizada”, acrescentou.

(Texto traduzido. Para ler o original, clique aqui)

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