Juros não devem cair mais; veja o que muda nas recomendações de investimentos

Menos títulos pré e mais títulos pós-fixados, além de diversificação para além da renda fixa, estão entre indicações feitas por corretoras e gestoras

Entendimento do mercado é de que Selic fica parada em 2% agora e volta a subir no fim de 2021
Entendimento do mercado é de que Selic fica parada em 2% agora e volta a subir no fim de 2021 Foto: Nick Fewings/Unsplash

Juliana Elias,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O Banco Central não deve mais baixar a Selic, a taxa de juros de referência do país, até o fim do ano que vem, depois de quatro anos de queda. O entendimento da maior parte dos analistas e gestores do mercado financeiro é que a Selic fique parada nos atuais 2% até o fim do ano que vem, quando deve, então, voltar a subir lentamente. 

Por outro lado, a inflação, que despencou neste ano aos menores níveis da história por conta da pandemia do novo coronavírus, deve subir mais no ano que vem e causar algo que só acabou evitado em 2020 por causa da brutal recessão: o país deve ter juros reais francamente negativos em 2021. Os juros reais são os ganhos depois de descontada a inflação.

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Esse quadro mexe um pouco com as recomendações de investimentos feitas pelos especialistas. Do lado da renda fixa, títulos públicos atrelados à inflação e papéis pós-fixados, como CDBs que paguem acima de 130% do CDI, são algumas das sugestões para que o investidor não fique à mercê das incertezas. 

A aposta em investimentos mais arrojados, como fundos multimercado, fundos imobiliários e ações, também continua, mesmo para os perfis mais conservadores. “Uma carteira que tenha 100% de renda fixa dificilmente dará retorno real, e até para os mais conservadores, a depender do prazo, recomendamos um pedaço de renda variável”, disse o diretor de produto da gestora digital de investimentos Monetus, Vinicius Soares.

Neste ano, a inflação deve ficar próxima dos 2%, empatada com os 2% em que está a Selic. Já em 2021, enquanto a Selic deve continuar praticamente o ano todo nos mesmos 2%, a inflação já deve estar mais próxima dos 3%. As projeções são do Boletim Focus do Banco Central.

Nas carteiras de investimentos geridas pela Monetus, a participação das ações parte de cerce de 10% do total, no caso dos clientes mais conservadores e que não planejem usar aquele dinheiro antes de cinco anos.

Hora do pós-fixado

Na parte de renda fixa, há também uma reorganização nos tipos de investimentos. Os títulos prefixados, que têm todo o juro definido no início da aplicação, estão perdendo espaço para os pós-fixados, cuja remuneração é atrelada à Selic ou ao CDI e fica maior ou menor conforme os juros básicos sobem ou descem.  

Títulos atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, que têm uma parcela da remuneração pós-fixada, ligada à variação da inflação, e a outra fixa, também são uma opção no meio do caminho. 

“O investidor deve agora ficar um pouco mais na renda fixa pós-fixada, justamente por conta das altas de juros que podem vir pela frente”, disse a estrategista-chefe da Órama Investimentos, Sandra Blanco, mencionando a distorção que está puxando para cima os juros dos títulos do Tesouro com vencimentos mais longos, num movimento de possível antecipação do aumento da Selic nos próximos anos.

“Quando os juros estavam a 14% e não se esperava mais que eles subissem, era vantajoso para o investidor ter um título [prefixado] com aquela taxa. Agora com a taxa baixa é diferente. Se os juros sobem, o investidor tem mais a perder do que a ganhar.”

Como, entretanto, os juros estão muito baixos, a migração para o título pós-fixado também deve ser mais exigente. No lugar do tradicional Tesouro Selic, que remunera exatamente a Selic (ou seja, 2% ao ano), Blanco recomenda buscar títulos privados como CDBs, LCAs e LCIs que, a depender do prazo, podem pagar até mais que 140% do CDI (o equivalente a 2,8% ao ano). 

“O Tesouro Selic e o fundo DI vão remunerar muito pouco e devem ser usados mais para a reserva de emergência, aquele dinheiro de curtíssimo prazo”, diz ela. 

FIIs, multimercados e ações

A palavra da vez continua sendo diversificação. Com as turbulências recentes e as incertezas futuras, como o ritmo de retomada e a possível subida de juros, a bolsa de valores segue com espaço grande nas recomendações, mas com um pouco mais de cautela.  

“Reduzimos um pouco as recomendações de renda variável, quando que vimos que a bolsa andou muito rápido depois da crise; queremos agora esperar um pouco para ver os próximos capítulos”, disse Blanco, da Órama. 

Fundos imobiliários, que podem ser um pouco mais estáveis, e fundos multimercados, que são bastante diversificados, são outras opções que aparecem no meio do caminho entre a renda fixa e a bolsa de valores, como alternativas menso agressivas de diversificação em busca de rentabilidades um pouco maiores. 

“Começamos a reduzir a renda fixa dos clientes e aumentar um pouco as posições em multimercados e em ações principalmente depois que os juros chegaram a 3%, um pouco depois do começo da pandemia”, disse Soares, da Monetus. “Queríamos esperar passar esse movimento de maior volatilidade e o mercado voltar a subir.”

Nas recomendações da Órama, conta Blanco, ganharam bastante espaços também os fundos de investimentos imobiliários (FIIs). São fundos que podem investir tanto em imóveis reais, e receber uma renda recorrente com os aluguéis deles, como em títulos do setor, como os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), que são mais conservadores. 

Os FIIs que investem em títulos são chamados de “fundos de papel” e os que investem em imóveis levam o nome de “fundos de tijolo”. 

“A vantagem dos fundos imobiliários é que eles têm diferentes tipos de perfis”, disse Blanco. “Para os mais conservadores, trabalhamos com fundos de papel, que são mais estáveis, enquanto os perfis de rico moderado a agressivo já podem incluir fundos de tijolo também.”

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