Lara Resende: política econômica coerente, não alta de juro, pode conter inflação

Ferramenta do BC para conter inflação funcionaria melhor num cenário de economia aquecida, defende o economista e ex-diretor do BC à CNN, o que não é o caso do país hoje

Ligia Tuondo CNN Brasil Business

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Em alta desde o início do ano, a inflação no Brasil supera com folga o teto da meta determinada pelo Banco Central para o ano, o que vem criando preocupações entre economistas e analistas de mercado. Para remediar a situação, a autoridade monetária vem elevando a Selic – taxa básica de juros – que já subiu 5 pontos percentuais neste ano.

No entanto, a ferramenta do BC para conter a inflação funcionaria melhor num cenário de economia aquecida, defende o economista André Lara Resende, o que não é o caso do país hoje.

“O Brasil sai de uma situação de recessão provocada pela pandemia, continua com desemprego altíssimo, perto de 14%, provavelmente muito mais de subemprego, perto de 30%, o que mostra uma economia desaquecida. Portanto, nesse momento, a alta de juros é altamente desaconselhável”, diz o ex-diretor do Banco Central em entrevista à CNN na manhã desta sexta-feira (26).

Resende cita que, quando a Selic sobe cinco pontos, o efeito é de 8% do PIB de transferência de pagamento de juros. “Isso é quase três vezes a totalidade de investimento publico por ano nos últimos anos. Não vejo isso sendo discutido”, diz.

O economista frisa que, agora, a alta de juros é “altamente desaconselhável”, primeiro porque a contenção da demanda só vai agravar o desemprego, provocando uma volta da recessão. Além disso, tem efeitos secundários negativos, já que a alta dos juros é fator determinante no aumento dos gastos públicos, com as despesas com juros no Orçamento federal, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.

Para conter esse cenário, defende, uma melhor organização do debate público sobre gastos seria mais eficiente do que o aperto monetário.

“É essa percepção de desorganização política e falta de projeto econômica coerente que agrava a percepção de risco e retrai os investimentos e expectativas no país, agravando o cenário atual”, diz.

Inflação transitória?

Resende ressalta o caráter transitório da atual escalada dos preços — levada pela valorização internacional do petróleo, pela falta de chuvas, que encareceu a energia elétrica, e pelo real desvalorizado ante o dólar. Embora esse movimento no Brasil tenha peculiaridades, a inflação em alta é um efeito global.

“Diante disso, os bancos centrais das principais economias, sobretudo o Fed, nos EUA, têm esperado para agir, com expectativa que a alta seja transitória. E não estão se precipitando aumentando a taxa de juros, como vem fazendo o BC brasileiro”, diz.

“Essa inflação transitória tem risco de permanecer e continuar? É possível. Por isso, temos que tomar cuidado. O instrumento é alta violentíssima dos juros? Não, isso agrava o desequilíbrio fiscal”.

 

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