McDonald’s não demitiu em 2020 e espera programa do governo para repetir o feito

Rede viu o seu faturamento cair mais de 20% em 2020, mas quer mudar panorama em 2021 e vai investir US$ 130 milhões para ajudar os planos a saírem do papel

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O McDonald’s entrou em uma feliz estatística em 2020: não demitiu nenhum colaborador por causa da pandemia, mesmo estando em um dos setores mais atingidos. O CEO da rede no Brasil, Paulo Camargo, coloca o programa que permite cortar jornadas e salários, o BEM, como fundamental para que isso tenha acontecido.

Porém, para se manter com essa realidade, Camargo espera com ansiedade a renovação do programa pelo Governo Federal. 

No ano passado, boa parte dos 50 mil colaboradores da empresa acabaram sendo incluídos no programa, algo que deve se repetir em 2021, segundo o executivo. “O programa ajudou a manter muitos empregos e esperamos que continuemos assim neste ano”, diz Camargo.

Então, sem o BEM, podemos ter demissões?

Se em algum momento for necessário, vamos ter que fazer o que fazer. Mas de acordo com as nossas conversas com o governo, o programa vai acontecer. Se as demissões tiverem que acontecer, espero ser a última empresa a fazer. Mas acho que no fim vai dar tudo certo

Paulo Camargo, CEO do McDonald's

Há uma semana, o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, afirmou que o programa voltará e deve atingir 4 milhões de funcionários com carteira assinada. Na noite desta terça-feira (6), o governo enviou ao Congresso o projeto de lei que possibilita a reabertura do BEM, assim como o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

Camargo aguarda para tomar decisões. Afinal, nem mesmo a gigante do fast food no Brasil conseguiu se safar da queda das vendas nesse período complicado da economia brasileira. No geral, mais de 330 mil bares e restaurantes fecharam as portas por causa da pandemia.

3 D’s: Drive-thru, Delivery e Digital

O ano de 2020 teve várias nuances para o McDonald’s. A rede controlada pela Arcos Dorados na América Latina viu as suas vendas caírem 80% no início da pandemia, com o fechamento das unidades, e até mesmo a sua geração de caixa ficou negativa. Para tentar diminuir o impacto, Camargo decidiu acelerar um plano chamado internamente de “3 D’s”: Drive-thru, Delivery e Digital.

Os conceitos são autoexplicativos, mas ganham ainda mais importância no período da pandemia. Nos 12 meses do ano passado, a empresa registrou uma queda de 22% nas vendas. Porém, nos últimos meses do quarto trimestre, segundo Camargo, as vendas já estavam em patamar similar às registradas em 2019, mesmo com tantas pessoas ainda com receio de voltar aos restaurantes.

Uma das saídas foi ampliar os serviços de drive-thru. Nos Estados Unidos, essa modalidade de vendas chega a representar 70% de todo o faturamento. Por aqui, chegou a 38% com a pandemia. Um dos motivos para esse aumento da representatividade, além da diminuição nas vendas em restaurantes, foi a alta da eficiência nessa modalidade. Segundo Camargo, o tempo de espera nos estacionamentos do McDonald’s foi reduzido pela metade durante o período de pandemia –especialmente com o uso de tecnologia, como o pagamento por meio do Sem Parar.

Trata-se de um movimento global. Nos EUA, essa modalidade de venda tem atraído cada vez mais a atenção. Por lá, o McDonald’s tem investido até mesmo em inteligência artificial para facilitar as vendas. E tem dado resultado: o tempo médio de espera caiu de 6 minutos e 18 segundos para 5 minutos e 49 segundos em dois anos. Isso quer dizer: mais lanches vendidos em menos tempo. No Brasil, houve uma diminuição do tempo pela metade, mas Camargo diz não poder revelar o tempo exato.

Paulo Camargo CEO McDonald's
Paulo Camargo, CEO do McDonald’s: empresa acelerou processo de digitalização com a pandemia
Foto: McDonald’s/Divulgação

O segundo D, de Delivery, também deu um grande salto em 2020. Houve um aumento de mais de 150%, o que fez esse tipo de venda representar 14% do total das vendas. Hoje, o McDonald’s é parceiro de todas as principais plataformas de entrega: iFood, Rappi e Uber Eats. Mas a empresa quer fugir um pouco das taxas cobradas e turbinar o seu próprio serviço de entregas, o McDelivery. 

Não digo que teremos 60% dos pedidos realizados pela nossa plataforma, mas em países mais avançados chegam a 30% e podemos chegar a esse número.

Paulo Camargo, CEO do McDonald's

Por último, há o D de Digital. A companhia tem investido para integrar todos os restaurantes com os seus sistemas de vendas digitais. Afinal, se o cliente pode comprar um sanduíche pelo celular e ir buscar rapidamente, sem fila e dor de cabeça, por que não dar essa opção? 

É isso o que já pode ser feito em centenas de restaurantes no Brasil com o “Méqui sem fila”. Dessa maneira, além de trazer facilidade, o McDonald’s começa a entender os hábitos do usuário e passa a enviar promoções totalmente direcionadas –o que aumenta a assertividade na conversão das vendas. Atualmente, já são 30 milhões de pessoas com o aplicativo instalado em seus smartphones, mas a empresa sabe que precisa de mais. 

40 novos restaurantes este ano

No entanto, se engana quem pensa que o McDonald’s vai esquecer das lojas físicas. Segundo Camargo, mesmo com a pandemia, a empresa segue com os planos de ampliar o número de unidades. A companhia encerrou o ano de 2020 com 1.020 restaurantes no Brasil, três a menos do que tinha um ano antes.

Não foi positivo, mas, diante do tombo que o mercado sofreu, pode ser até visto como positivo.

Para este ano, a Arcos Dorados reservou US$ 130 milhões para investimento em toda a América Latina. Com esse dinheiro, 50 novos restaurantes serão abertos na região –40 deles aqui no Brasil. E, se tiver um empurrãozinho do governo, o McDonald’s não só não vai demitir, como vai contratar novos colaboradores.

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