Netflix é a responsável por crise relacionada ao especial de Dave Chappelle

O especial "The Closer", do comediante americano Dave Chappelle, sofreu acusações de transfobia

Dave Chapelle é acusado de transfobia por falas em seu show "The Closer", transmitido pelo Netflix
Dave Chapelle é acusado de transfobia por falas em seu show "The Closer", transmitido pelo Netflix CNN

Frank Pallottada CNN

Ouvir notícia

O especial de um dos mais famosos comediantes dos Estados Unidos Dave Chappelle, chamado “The Closer” e lançado recentemente pela Netflix é responsável pela maior crise que a empresa de streaming já passou. E trata-se de uma bagunça feita pela própria empresa.

O especial de Chappelle, que estreou na Netflix no início deste mês, causou uma tempestade dentro e fora da empresa. Inclui várias piadas sobre pessoas trans, que alguns consideraram profundamente ofensivas. A Netflix manteve o especial, mesmo depois de ter sido criticado e apontado como transfóbico por defensores da comunidade LGBTQ+, artistas e até mesmo pelos próprios funcionários da Netflix.

A estratégia da Netflix, de oferecer um catálogo de conteúdo diverso, sem muita supervisão editorial, tornou a empresa um grande sucesso. Por isso, intervir no especial de Chappelle não é tão simples.

Como a Netflix chegou até aqui

A Netflix deixou de enviar DVDs por correio para a casa das pessoas e passou a ser uma das marcas globais mais poderosas, criando uma plataforma de streaming com uma quantidade infinita de conteúdos diversos, catalogados praticamente sem intervenção. Essa estratégia permitiu que a Netflix crescesse para 213 milhões de assinantes e criasse sucessos do nada como “Round 6”.

No entanto, o que torna a Netflix única – a escala, os recursos e a estratégia para criar um sucesso de público sem gastar com promoção – é também o que colocou a empresa em maus lençóis com “The Closer”. Ao permitir que Chappelle, cujos pensamentos sobre a comunidade trans já haviam causado polêmica para a Netflix, lançasse outra comédia especial sem muita interferência, a empresa corre o risco de ignorar clientes e até mesmo seus próprios funcionários.

Mas se a Netflix resolver se desfazer de conteúdos como o de Chappelle, estará atuando no sentido contrário ao da liberdade artística que atraiu talentos para sua plataforma por anos, que é um grande motivo pelo qual a Netflix está no topo do mercado de streaming.

A forma como a Netflix andará em cima dessa corda bamba determinará a evolução da empresa. Até agora, não lidou bem com essa controvérsia.

Netflix contra a concorrência

No passado, alguns dos maiores rivais da Netflix na mídia lidaram com a controvérsia em torno de suas estrelas tomando medidas drásticas.

O exemplo mais extremo é o da ABC, de propriedade da Disney, que cancelou sua sitcom de sucesso “Roseanne”, em 2018, depois que a maior estrela do programa, Roseanne Barr, fez um discurso racista no Twitter. O show voltaria como “The Conners”, mas Barr não foi incluída. “Roseanne” era um dos programas de TV mais populares e bem avaliados da época.

A Netflix teria retirado “Roseanne” do ar? Ainda não está claro. No entanto, a controvérsia de Chappelle mostra que a estratégia da empresa de oferecer tudo para todos em escala global tem suas desvantagens. Mas é improvável que isso mude, diz Zak Shaikh, vice-presidente de programação da Magid, especializada em pesquisas e mídia.

“O objetivo da Netflix é ser uma TV, e ser isso significa cobrir tudo, essa é a sua força”, disse ele. “Eles têm muito conteúdo e é bastante trabalhoso cobrir tudo isso, mas quando você faz, quando assume o risco, você vai causar alguma polêmica. É impossível não causar.”

Shaikh acrescentou que a principal diferença da Netflix para concorrentes como a ABC é que a líder entre os serviços de streaming não vende anúncios e, portanto, um especial como o de Chappelle não pode incomodar os anunciantes.

“Então a questão é: isso está incomodando os assinantes?”, questiona Shaikh. “Se não estiver, é improvável que mudem de curso.”

CEO assume que errou

Ted Sarandos, co-CEO e diretor de conteúdo da empresa, reconheceu que poderia ter se saído melhor em termos da controvérsia envolvendo Chappelle.

Em uma entrevista à Variety, revista semanal americana especializada em entretenimento, na terça-feira (19), Sarandos admitiu que “estragou” a comunicação da empresa com sua própria equipe. Alguns funcionários organizaram uma paralisação na quarta-feira (20).

Sarandos se desculpou, mas, em entrevista ao Wall Street Journal, disse que não tem dúvidas com relação à transmissão do especial de Chappelle, e a Netflix não planeja removê-lo.

“Nós dissemos aos nossos funcionários que haverá coisas das quais não gostamos”, disse Sarandos à publicação americana. “Haverá coisas que você pode achar que são prejudiciais, mas estamos tentando entreter um mundo com gostos, sensibilidades e crenças variadas, e acho que este especial foi consistente com isso.”

Ainda não se sabe como a controvérsia do novo show de Chappelle na Netflix termina, e quais mudanças podem acontecer por conta disso. Mas se a Netflix deseja continuar a operar como uma empresa que apoia uma estratégia de conteúdo diversificado e liberdade criativa ao mesmo tempo, ela precisa descobrir como responder melhor a contestações como esta.

Porque com sua biblioteca de conteúdo em constante expansão, é improvável que essa controvérsia seja a última.

Mais Recentes da CNN