O que tem sido feito para criar moda sustentável e como a pandemia impacta isso

Segundo a Conversion, consultoria de performance e SEO, o setor da moda atingiu no e-commerce a marca de 1,51 bilhão de acessos nos últimos 12 meses

Roupas em arara
Roupas em arara Foto: Artificial Photography / Unsplash

Estela Aguiar*, do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Nos últimos anos, cresceu o debate sobre as produções em grande escala no setor da moda, com foco em seus impactos socioambientais e também nas denúncias de trabalho escravo contemporâneo. 

Neste contexto, surgiu a campanha #QuemFezMinhasRoupas, promovida pela Fashion Revolution, associação que visa uma moda justa, limpa e sustentável. O objetivo da campanha foi conscientizar sobre o verdadeiro custo da moda e seu impacto no mundo, em todas as fases do processo de produção e consumo.

Também de olho no consumidor que busca a moda consciente, a marca brasileira Uma, de Raquel e Roberto Davidowicz, criou a linha Uma X, em julho de 2020. Entre as diretrizes adotadas estão ser uma marca o-gender (sem gênero), usar materiais sustentáveis e trabalhar sem um calendário de lançamentos definido. 

Para Vanessa Davidowicz, chefe de Marketing da Uma X, a ideia é trazer debates importantes para o setor. “Queremos trazer uma certa discussão para a indústria em não ter um calendário, e começamos a ver que, por uma questão de sustentabilidade mesmo, criar uma linha de coleção muito grande acaba que fica com uma cota muito grande de estoque, e acho que esse modelo não iria se traduzir muito bem para o os jovens”, explica.

Davidowicz acredita que o consumidor estará atento em outros pontos antes de comprar uma roupa. “As pessoas estão mais abertas para atender todo o processo da peça. Antes era algo que passava um pouco batido, e hoje há uma preocupação maior com o processo.”

Impactos da pandemia

Em um cenário de incertezas, a pandemia do novo coronavírus forçou os brasileiros a comprarem mais pela internet. Segundo um estudo realizado pela Conversion, consultoria de performance e SEO, o setor da moda atingiu no e-commerce a marca de 1,51 bilhão de acessos nos últimos 12 meses. 

Esse jeito novo de comprar pode ajudar no processo de construir um consumidor mais consciente, segundo Eloisa Artuzo, diretora educacional do Fashion Revolution Brasil. “A escolha de compra acaba sendo um pouco mais inteligente para ele [consumidor], parar e pensar se ele vai precisar daquela marca.” 

Por outro lado, surgem outros problemas. “Por exemplo, as emissões de carbono por causa do número de entregas, e o aumento de embalagens”, explica Artuzo. 

Nas diretrizes da sustentabilidade da moda, um outro problema que a pandemia escancarou foi a vulnerabilidade de trabalhadores do setor, como as costureiras, que recebem muito pouco pelo que fazem –agora, no caso, pelas máscaras. 

“Nesse momento de crise, as pessoas ficam mais expostas a esse tipo de trabalho [escravo] e vimos que, aqui no Brasil, a produção de máscaras chegou a 10 centavos. Só trocou o produto”, diz a diretora. 

Iniciativas em prol da moda consciente 

Fundado em 2014 em São Paulo, o Instituto Alinha auxilia oficinas de costura a trabalharem de forma regular, além de conectá-las a marcas parceiras, garantindo relações justas entre ambas. 

Durante o período da pandemia, a organização ajudou oficinas que estavam sem ou com poucos trabalhos. “Ajudamos 32 famílias com cestas básicas durante o período de seis meses e fizemos a ponte de mediação de um pedido de máscaras. Foram mais de 40 mil máscaras”, relatou Dariele Santos, cofundadora e presidente do Instituto Alinha. 

Outra iniciativa na agenda da transformação da moda é o Instituto C&A, braço social da rede de moda, que apoia empreendedores de comunidades vulneráveis. No início de 2020, investiram mais de R$ 550 mil em iniciativas e projetos que estavam fazendo o enfrentamento da pandemia na base com comunidades e com profissionais da saúde. 

“Sentindo os impactos da crise gerada pela Covid-19, começamos a entender as necessidades deles, como as institucionais, como, por exemplo, manter os espaços, pagar seus empregados e, até mesmo, o movimento muito forte que foi feito na produção de máscaras”, ressalta Gustavo Venancio Narciso, gerente executivo do Instituto C&A.

Entre as ações, por exemplo, foram comprados itens de higiene e cestas básicas para famílias do Complexo da Maré, no Rio.

Na visão do Gustavo, a pandemia pode acarretar em alguns retrocesso. “As estruturas foram abaladas e houve um estudo que mostrou como regredimos no mundo da moda sustentável. Quando se tem uma crise econômica, acaba-se negligenciado debates”, alerta. 

* Sob supervisão de Natália Flach e Maria Carolina Abe

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