Por que o desemprego aumentou se o Caged mostrou vagas recordes em agosto?

Caged mostrou que o Brasil criou 250 mil postos formais de trabalho, enquanto a Pnad apontou uma taxa de desemprego recorde de 13,8%. Entenda

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Nesta quarta-feira (30), foram divulgados dois dados que parecem antagônicos. Pela manhã, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que a taxa de desemprego subiu para 13,8% entre maio e julho, o pior patamar da série histórica. Ao mesmo tempo, à tarde, o Ministério da Economia anunciou que agosto teve o melhor resultado para criação de empregos formais desde 2010 – saldo positivo de quase 250 mil postos de trabalho.

Algum dado está errado? Não. Apesar dos dois medirem as contratações, o dado divulgado pelo Ministério foi o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) utiliza números mais frios.

Ou seja, ela tem uma base de dados que identifica as informações dadas pelas instituições empregadoras de contratações e demissões. Neste caso, em agosto, foram mais de 1,2 milhão de contratações e 990 mil demissões.

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Logo, apesar do saldo positivo, o número de demissões ainda é elevado. Por isso, para economistas, as falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, que defendem uma recuperação em “V” não fazem tanto sentido.

“Diferentemente de períodos em que tínhamos uma troca de emprego formal por informal, agora isso não está acontecendo. E, a partir de julho, as pessoas voltaram a procurar emprego após a pandemia, isso aumentou a taxa de desemprego”, diz Juliana Inhasz, economista e professora do Insper.

Com isso, entra a importância da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), que traz um termômetro também das pessoas que estão buscando emprego. A pesquisa é feita para acompanhar as flutuações no curto, médio e longo prazo da força de trabalho e enxerga além dos números frios. Além disso, também analisa o trabalho informal e não apenas as vagas de carteira assinada, como o Caged.

E os números para o trimestre encerrado em julho vieram bem negativos. A taxa de desocupação atingiu 13,1 milhões de pessoas – 1,2 ponto percentual a mais do registrado no trimestre anterior.

Além disso, o nível de ocupação também foi o mais baixo da série, atingindo 47,1% – uma queda de 4,5 pontos frente ao trimestre anterior e 7,6 pontos contra o mesmo trimestre de 2019. Então, as pessoas estão, sim, perdendo os seus empregos.

“Os resultados das últimas cinco divulgações mostram uma retração muito grande na população ocupada. É um acúmulo de perdas que leva a esses patamares negativos”, diz Adriana Beringuy, analista da pesquisa.

Quarto trimestre será difícil

Para Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, o número só não está pior por causa de alguns fatores. O primeiro deles é que tivemos uma quarentena muito mais fraca e o nível de atividade não caiu tanto. Além disso, as commodities em alta, como o minério e os alimentos, ajudaram a segurar a atividade econômica em regiões muito dependentes desses produtos.

Por último, o auxílio emergencial fez com que, por mês, R$ 50 bilhões entrassem na economia. E, segundo o próprio Banco Central, a população mais pobre está consumindo com esse dinheiro, poupando muito pouco. Com o fim do auxílio, provavelmente, os números de desempregados devem aumentar ainda mais.

“Ajudou também que o terceiro trimestre é mais movimentado em contratações porque as empresas começam a se preparar para as vendas de final do ano”, diz Vale. “Porém, acredito que o quarto trimestre, por conta da queda do valor do auxílio e a retração da atividade, não manterá esses números, que foram acima do esperado pelo mercado.”

Para diminuir o impacto do desemprego, o governo deve postergar o fim programa de redução de salário e suspensão de contratos, o BEM. Segundo o ministério da Economia, o BEM foi fundamental para que os números não fossem piores. De qualquer maneira, é melhor apertar os cintos.

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