Prazo para a privatização da Sabesp ficou imprevisível, diz Henrique Meirelles

Secretário da Fazenda de São Paulo diz que a economia precisa ficar de lado nesse momento e admite que a privatização da Sabesp ficou mais distante

 
  Foto: Divulgação/Facebook

André Jankavski

do CNN Business

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O atual secretário da Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, esteve no centro das duas últimas maiores crises do país. Em 2008, durante o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, ocupava o cargo de presidente do Banco Central (BC) no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Oito anos depois, na recessão que derrubou o PIB brasileiro, estava à frente do Ministério da Fazenda do governo do ex-presidente Michel Temer.

E, mesmo após ter enfrentado esses dois momentos turbulentos, o próprio Meirelles não arrisca quais serão os efeitos da proliferação do coronavírus na economia e nem mesmo da duração da pandemia. Não por acaso, ele admite que a privatização da empresa estatal de saneamento Sabesp, uma das principais bandeiras do governador João Doria, deve ficar na geladeira por um tempo. 

“Antes do avanço do coronavírus, a nossa previsão era que (de que a privatização) ocorresse no primeiro semestre. Agora, ficou mais imprevisível. Não sei se pode acontecer neste ano”, diz Meirelles, em entrevista para o CNN Business. 

Segundo Meirelles, ao contrário das crises de 2008 e de 2016, não há um remédio claro para combater a pandemia e o seu efeito na economia. “Agora, a causa é uma doença, um vírus, e a consequência é o problema econômico.”

Por isso, para ele, a economia precisa ficar mais de lado no momento. Segundo Meirelles, a prioridade dos governos precisa ser com a saúde do cidadão. “Nós precisamos conter a doença a qualquer preço. Mesmo que alguns não entendam, que falem que causará prejuízos econômicos”, diz ele.

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

CNN Business – O senhor passou por crises como a de 2008 e a de 2016. Qual é a diferença delas para a atual?

Henrique Meirelles – Quando houve a crise de 2008, todos sabiam qual era a origem, quais eram os pontos a serem combatidos e os instrumentos para isso. Na época em que era presidente do Banco Central, eu me preparei sabendo o tempo que ela ia durar. Já a crise de 2016 era uma questão fiscal. Agora, a causa é uma doença, um vírus, e a consequência é o problema econômico. O outro impacto é o efeito negativo que gera no mercado de capitais. E agora temos que esperar as ações do governo, houve a do Fed (banco central americano) e do BC nesta semana. Temos que ver no que vai dar.

A crise do coronavírus atrasará muito os planos para a privatização da Sabesp?

Para ocorrer a privatização, é necessário que a lei do saneamento seja aprovada. Não há como fazer nada até lá, pois não vamos capitalizar empresas cujo marco regulatório ainda é incerto. É inútil. Antes do avanço do coronavírus, a nossa previsão era que ocorresse no primeiro semestre. Agora, ficou mais imprevisível. Não sei se pode acontecer neste ano. Esse prazo foi dado quando era possível fazer previsões para a economia.

A Sabesp não será privatizada com a bolsa no atual patamar?

A privatização depende da evolução do vírus também. Uma coisa nós sabemos: temos que ter as condições favoráveis no mercado de capitais para realizar a privatização.

Como o senhor avalia o combate ao coronavírus? São necessárias as medidas mais duras, como a do governo de São Paulo?

Nós precisamos continuar com todas as ações que o governo está tomando. O primeiro de tudo que precisamos fazer é a contenção da doença. Mesmo que alguns não entendam, que falem que causará prejuízos econômicos. Nós precisamos conter a doença a qualquer preço. Quando a curva da doença for invertida, aí sim vamos trabalhar para fazer a economia reagir.

O que o governo pretende fazer para diminuir o impacto econômico da crise?

Acredito que podemos fazer financiamentos para pequenas e médias empresas, assim como fazer empréstimos de pequenos valores para pessoas físicas por meio do Banco do Povo. Além disso, na quarentena, precisamos fazer com todas as atividades essenciais continuem funcionando. É necessário fazer tudo funcionando e entender se a evolução da doença por aqui será como foi na Itália ou na Coreia do Sul. Os casos estão crescendo cerca de 30% ao dia e é um número bastante grande.

Porém não são necessárias mais ações para diminuir o impacto da crise, especialmente na questão do emprego?

O estado pode facilitar o ambiente de negócios, a infraestrutura e com negociações específicas com as empresas. Em São Paulo isso funciona, por isso que crescemos três vezes mais do que o Brasil no ano passado. Dito isso, a política de contenção do desemprego é federal. Em 2008, o fator (de combate à crise) era o Banco Central. Agora, todas as medidas para flexibilização do mercado de trabalho são de âmbito federal, assim como todas as mudanças estruturais de política monetária é do Banco Central. As medidas tomadas pelo Banco Central, hoje, foram fortes.

O senhor consegue enxergar algum horizonte para o fim da crise?

Dependerá do horizonte da progressão do vírus. Se a doença atingir o pico de progressão em julho, então acredito que só vamos começar a ter alguma recuperação no fim de setembro. Ou seja, vamos ter uma melhora na economia somente no último trimestre. 

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