Preço do prato-feito subiu mais que o dobro da inflação pelo IPC-M, aponta FGV

Com refeição mais cara, poder de compra do vale-refeição diminui; donos de bares e restaurantes tentam segurar repasse de despesas

Refeição; prato de comida
Refeição; prato de comida Foto: Unsplash/Akemy Mory

Pedro Guimarães*da CNN

no Rio de Janeiro

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Comer fora de casa ficou mais caro nos últimos 12 meses. De acordo com um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o prato-feito apresentou alta média de 23,53%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Mercado (IPC-M), aferido pela entidade. Esse nível representa mais que o dobro da inflação registrada pelo indicador no período, de 10,37%.

O IPC-M utiliza metodologia diferente da empregada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por verificar a inflação oficial, que é de 12,13% no período. O estudo do FGV Ibre leva em conta conta as variações de preços de dez dos itens mais presentes no famoso “PF”: arroz, feijão-preto, feijão-carioca, alface, batata-inglesa, cebola, tomate, frango em pedaços, ovos e carnes bovinas.

Os alimentos in-natura foram os grandes vilões para o aumento do preço da refeição de custo mais previsível: o tomate mais que dobrou de preço, com crescimento de 126,8%, seguido da batata-inglesa e do alface, que tiveram evolução de 44,65% e 32,5%, respectivamente. Junto da cebola, que acumulou 12,44% de aumento, os componentes que tornam a refeição mais nutritiva e balanceada passaram a pesar no bolso dos brasileiros.

Economista associado do FGV Ibre, Matheus Peçanha aponta que os problemas climáticos têm impacto direto em preços e gôndolas dos hortifrutis:

“A gente tem sofrido sucessivos choques de custos no setor agrário. Em 2020 foi a seca generalizada, logo depois vieram as chuvas muito fortes e agora esse novo verão, com uma monção muito grande, chuvas torrenciais, que afetaram a produção de hortaliças e legumes”, afirmou o economista.

Os preços das proteínas também foram impactados pelas chuvas, mas sofreram principalmente com a alta do dólar, a maior demanda internacional e o consequente aumento da exportação, que esvazia o mercado interno. As carnes bovinas tiveram alta de 11,82%, o frango de 21,1% e os ovos, que seguem a tendência da granja, de 11,32%.

Os únicos preços a caírem foram o do arroz, que registrou baixa de 10,5%, e o feijão-preto, com queda de 3,4%. O feijão-carioca seguiu a tendência de alta, com aumento de 5,71%.

Bares e restaurantes tão são afetados

A alta da inflação também atinge donos e consumidores de bares e restaurantes em todo o Brasil. Em abril, de acordo com o IPCA, a inflação nos últimos 12 meses da alimentação fora de casa foi de 6,63%, enquanto o aumento de preços das refeições dentro do lar foi de 13,73%.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, são os empreendedores que seguram a alta de preços do setor:

“Se por um lado isso torna mais vantajoso para o consumidor comer fora de casa, em termos relativos, por outro, diminui as margens de um setor que ainda está buscando uma recuperação. O caso da cerveja é exemplar. Nos supermercados o preço para o consumidor subiu 9% nos últimos doze meses, enquanto nos bares foi menos da metade disso”, disse.

Em algumas capitais, os preços de bebidas e alimentos em bares e restaurantes chegaram até mesmo a apresentar queda, na tentativa atrair a clientela. No Rio de Janeiro, a redução foi de 0,38%, seguida por quedas de 0,32% em Fortaleza e 0,1% em Brasília.

Impacto no vale-refeição

O tempo gasto para utilizar todo o saldo do vale-refeição é de, em média, 24 dias. É o que aponta um levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em parceria com a Alelo, empresa especializada em benefícios corporativos.

A atual duração do benefício pago mensalmente é inferior ao registrado antes da pandemia, de 27 dias. O valor médio também caiu: de R$ 465,20 para R$ 415,30.

Dona de um restaurante no Catete, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Jaqueline Rodrigues conta como percebe os efeitos dessa redução em termos de comportamento de consumo:

“Temos uma boa venda na primeira quinzena do mês, quando os tickets são recarregados. Mas na segunda quinzena, quase nada. As pessoas que almoçam no intervalo do trabalho são as mais prejudicadas”, disse.

A pesquisa também aponta que o poder de compra do vale-refeição tem sido pressionado em duas frentes: pela queda no valor médio dos benefícios e pela aceleração da inflação na economia brasileira.

*Sob supervisão de Stéfano Salles

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