Rota para crescimento é conhecida, mas falta foco ao governo, diz Megale, da XP

Economista-chefe da XP foi integrante do Ministério da Economia até julho deste ano. Agora, acredita que falta estratégia para o governo avançar com as reformas

Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos Foto: XP/Divulgação

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O economista Caio Megale, até julho, era o diretor de programas da Secretaria Especial da Fazenda do Ministério da Economia. Ele saiu em um período conturbado para a pasta comandada pelo ministro Paulo Guedes: outros nomes, em um espaço de dois meses, também pediram demissão para tocar as suas vidas.

As saídas ocorreram por propostas melhores, oportunidades no setor privado ou até mesmo falta de concordância com a lentidão da máquina pública – como foi o caso do ex-secretário de desestatização Salim Mattar, que saiu reclamando de que não conseguia privatizar nada.

Megale, no caso, saiu para ser economista-chefe da corretora XP Investimentos. Agora, do outro lado do balcão, ele tem a responsabilidade de analisar o trabalho de seu antigo chefe e dos seus ex-companheiros de trabalho.

 

Segundo ele, a agenda de crescimento já foi apresentada. Reformas fiscais, mudanças para melhorar o ambiente de negócios no país e afins são de conhecimento público. Então, o que falta?

“Estratégia e foco. Estamos sentindo um pouco do que foi realizado na Previdência, onde foi traçada uma estratégia e a coisa foi andando naturalmente”, diz Megale.

Um exemplo do economista para essa falta de foco é a reforma tributária. O Congresso, com a Proposta de Emenda Constitucional 45, tem uma proposta na mesa de unificar os impostos federais, estadual e municipal de uma vez. O governo, por sua vez, tem uma mais modesta: começar somente pelos federais e, depois, ir unificando o restante aos poucos.

O grande problema, segundo Megale, é que não há uma estratégia por trás desse movimento.

“A reforma tributária não está madura para ser aprovada no Brasil. É uma questão de estratégia: vamos comer o boi aos bifes ou inteiro?”, diz ele, em alusão às reformas do Congresso e do governo, respectivamente. “Essa deveria ser a discussão. Senta uma semana e toma a decisão.”

Porém, na sua visão, o mais urgente no momento é a aprovação da PEC Emergencial. Segundo ele, o andamento da pauta é crucial para dar mais força ao Tesouro para manter o Teto de Gastos, que limita o aumento de gastos do governo pela inflação do ano anterior.

O Tesouro pode ir para uma guerra contra os gastos públicos com uma armadura ou com um espeto e um capacete de bicicleta

Caio Megale, ex-secretário especial da Fazenda e atual economista-chefe da XP

 

A PEC Emergencial, de maneira simplificada, quer reduzir os gastos públicos e auxiliar a gestão do orçamento do Estado. Entre as medidas está o congelamento de salário de servidores, suspensão de concursos e até mesmo a extinção de municípios incapazes de se sustentarem financeiramente.

Microrreformas caminham 

Segundo o economista, as pautas, inclusive, já estão no Congresso. Seja de grandes ou microrreformas. Essas menores, aliás, têm potencial de andar mais rápido na visão dele.

Mudanças como as que ocorrerão com a aprovação do marco do saneamento, a lei das falências, marco legal das startups, lei do gás, autonomia do Banco Central, entre outras, já trarão um impacto importante na economia. Especialmente, na produtividade.

Esse é um fator que realmente precisa ser atacado pelo governo. Um levantamento do Observatório da Produtividade, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), revela que a produtividade do trabalhador brasileiro subiu, em média, 1% ao ano entre 1995 e 2012, ajudada pelo bônus demográfico. Porém, com a crise dos últimos anos, houve uma queda de 0,4% ao ano desde 2013.

Mas, na opinião de Megale, essas pautas precisam caminhar ainda no primeiro semestre de 2021, especialmente as grandes reformas. “O timing para o retorno precisa ser março”, diz ele. “Depois, você entra no segundo semestre, o horizonte eleitoral começa a ficar mais próximo e isso pode prejudicar.”

Mercado fora de si?

De acordo com o economista, não é possível se falar de uma bolha nesse momento na bolsa de valores – que fechou a semana passada em recorde histórico. Isso porque os mercados em todo o mundo estão “inebriados” com tanta liquidez – trilhões e trilhões de dólares foram despejados nas economias nos últimos meses.

“Quando a maré está subindo, puxa todos os barcos para cima”, diz ele. “A China, por exemplo, está puxando as commodities, o que impacta diretamente a América Latina.” Ajuda o fato da bolsa brasileira ser bastante exposta a empresas como Petrobras (PETR3 e PETR4) e Vale (VALE3). “Quando o vento é forte, até galinha voa.”

O problema na economia real, no entanto, persiste. De acordo com Megale, o auxílio emergencial muito provavelmente não voltará a existir. Porém, a política monetária deverá continuar ajudando a expansão da economia, com crédito mais barato no mercado. Auxilia também o aumento da poupança do brasileiro, especialmente das classes média e alta, que deixaram de consumir com a pandemia.

“Essa política monetária e poupança circunstancial deve suavizar o impacto do auxílio emergencial”, diz ele.

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