Saída de secretários não será traumática como a de Moro, mas bolsa deve sentir

A saída dos secretários Salim Mattar e Paulo Uebel coloca uma pulga atrás da orelha dos investidores e muitos se questionam até quando o mercado vai aguentar

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ao lado do presidente Jair Bolsonaro: política está influenciando a economia?
O ministro da Economia, Paulo Guedes, ao lado do presidente Jair Bolsonaro: política está influenciando a economia? Foto: Ueslei Marcelino/Reuters (27.abr.2020)

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Quando será a vez do ministro da Economia, Paulo Guedes? Mais uma vez, essa pergunta começa a ser feita por economistas e agentes do mercado. Esse mesmo questionamento já foi comum na época em que o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro (que quase causou um circuit breaker na B3 após o anúncio de sua saída).

Porém, a saída de Salim Mattar, secretário especial de desestatização, e Paulo Uebel, secretário especial de desburocratização, começa a colocar uma pulga atrás da orelha de diversos especialistas. Afinal, até onde vai o Brasil liberal imaginado por Guedes? E quanto o mercado está disposto a aguardar?

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“Estão colocando mais interrogação na cabeça dos investidores, uma pulga atrás da orelha”, diz Lucas Carvalho, analista da corretora Toro Investimentos. “Se não tiver nenhum direcionamento do governo, deve impactar os negócios de maneira negativa nos próximos dias.”

Há a necessidade, segundo especialistas, de que Guedes mostre força quanto à política fiscal do governo. E isso quer dizer que precisa sair do campo do discurso e ir para a prática.

“O cenário já estava muito ruim no que concerne à velocidade das reformas e equilíbrio fiscal, mas a credibilidade do governo sempre encontro em Guedes um fiador de peso”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton. “Após os acontecimentos de hoje nos parece que o ministro e sua equipe irão forçar mais fortemente as reformas, caso contrário o clima pode se tornar pesado de vez.”

Demissões enfraquecem ministro?

Mas até quando Guedes irá aguentar é uma pergunta que o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, se tem feito há tempos. A frequência dos pedidos de demissão dentro do Ministério da Economia, em sua visão, é preocupante.

“Foram muitas demissões em muito pouco tempo e me parece ser um sinal dos descaminhos da política econômica que estamos tendo”, diz Vale. “O desarranjo fiscal só vai piorar nos próximos anos e a equipe já está sentindo que não é o desejo real do governo de fazer as reformas relevantes.”

Antes da saída de Mattar e Uebel, antecipada com exclusividade pelo analista de política da CNN, Igor Gadelha, o Ministério da Economia já havia perdido nomes como Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional, e Caio Megale, diretor de programas da Secretaria Especial da Fazenda.

Além deles, Rubem Novaes pediu demissão da presidência do Banco do Brasil e saiu atirando: “Não me adaptei à cultura de compadrio de Brasília.”

No caso dos demissionários mais recentes, as reclamações foram na demora das privatizações, no caso de Mattar, e Uebel preferiu sair por causa do provável adiamento da reforma tributária para 2021.

“O Ministério da Economia mudou de ritmo: saiu de uma agenda onde as reformas eram urgentes, onde o presidente Bolsonaro até se indispunha com Guedes, para outra em que o Ministério até acomoda as questões do presidente sem muita resistência”, diz Juliana Inhasz, professora de economia do Insper.

Mesmo assim, Inhasz acredita que Guedes ainda tem o respaldo do mercado. Especialistas ouvidos pelo CNN Business acreditam que se a saída dos secretários foi causada por discordâncias na velocidade da tramitação, menos mal. Mas tanto o presidente quanto o ministro precisam deixar isso claro.

“Agora, se saíram porque tiveram uma sinalização de que essas duas agendas ‘morreram’ pode indicar algo mais complexo quanto ao compromisso do governo com as reformas”, diz um importante economista do país.

“Só o tempo dirá”, diz esse mesmo economista. Mas podemos aguardar um estresse amanhã nos mercados, na visão de Lucas Carvalho, analista da corretora Toro Investimentos.

Carvalho, no entanto, não acredita que os efeitos serão tão fortes no pregão de quarta-feira. “Fica a dúvida: será que o Guedes vai levar as reformas até o fim?”, questiona ele.

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