Sem Ford e Mercedes, Brasil perde até 10% da capacidade produtiva de veículos

As fábricas brasileiras perdem mercado para as matrizes e outras subsidiárias por causa do custo Brasil, diz Luiz Moraes, presidente da Anfavea

Linha de montagem da Ford / Foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo

Iuri Pittada CNN

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O encerramento da produção da Ford em território brasileiro, anunciada na segunda-feira (11), faz a capacidade produtiva da indústria automotiva do país cair até 10%. A estimativa leva em conta também informe anterior feito pela Mercedes-Benz, que em dezembro decidiu também parar de fabricar automóveis no Brasil – a montadora alemã tem uma planta em Iracemópolis (SP), inaugurada em 2016.

No caso da Ford, a marca norte-americana mantinha fabricação ativa em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE) – antes, havia encerrado a produção em São Bernardo do Campo (SP). 

 Com o fechamento dessas unidades, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) estima que a capacidade produtiva total do Brasil vai cair dos atuais 5 milhões de unidades por ano para de 4,5 milhões a 4,7 milhões. 

“É emblemático vermos uma marca encerrar uma fábrica após cinco anos e outra parar de produzir após 100 anos”, disse o presidente da entidade, Luiz Carlos Moraes.

O dirigente destacou que, além disso, o Brasil tem alta ociosidade nas linhas de produção desde antes da pandemia da Covid-19 – em 2019, a produção ficou em torno de 2,4 milhões, ou seja, aproximadamente metade do quanto o país poderia fabricar.

“Nós perdemos para nós mesmos: as fábricas brasileiras perdem mercado para as matrizes e outras unidades das próprias marcas, por causa do custo Brasil”, lamenta o presidente da Anfavea. 

Incentivos e carga tributária

Moraes também rebate críticas a políticas voltadas ao setor, como o Inovar Auto, encerrado em 2019. Ao comentar o fechamento da produção da Ford, o presidente Jair Bolsonaro disse que a empresa queria “mais subsídios”.

Na mesma linha, outros políticos e economistas colocaram em debate o quanto o governo concede em benefícios tributários para o setor e qual o retorno obtido por essas políticas públicas.

“É preciso ter honestidade intelecutal: não é dinheiro que vai para o bolso da empresa. O programa respondeu por 30% do que foi investido em pesquisa e desenvolvimento, R$ 25 bilhões em cinco anos.

Desenvolvemos produtos mais eficientes, que levaram a uma redução de 12% do consumo médio dos veículos produzidos”, argumentou. “Isso representou economia de R$ 7 bilhões por ano do que a sociedade brasileira consome em combustíveis. Sem contar outros benefícios, como veículos mais seguros.”

O presidente da Anfavea também voltou a criticar decisão do governo de São Paulo, que vai elevar alíquotas de ICMS incidentes sobre veículos novos e usados.

O encerramento da produção da Ford reforça o argumento do setor de dificuldades do mercado e dos problemas estruturais do ambiente de negócios brasileiro.

Moraes acredita que a elevação de tributos paulistas pode estimular proprietários e empresas a comprarem e licenciarem veículos em outros estados, como já ocorreu no passado recente.

“Definitivamente, não é o momento de aumentar carga tributária. Se um governo tem problema fiscal, e tem, que faça a lição de casa.”

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