Só 1 empresa no Brasil tem engenheiro de voo; conheça essa profissão em extinção

No passado, esses profissionais eram tão numerosos e comuns quanto pilotos e comissários de bordo no mercado aéreo brasileiro

Avião decola em aeroporto: ações das companhias aéreas e da fabricante aérea Embraer atraem atenção dos investidores
Avião decola em aeroporto: ações das companhias aéreas e da fabricante aérea Embraer atraem atenção dos investidores Foto: Dominik Scythe/Unsplash

Thiago Vinholescolaboração para o CNN Brasil Business

em São Paulo

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Uma profissão cada vez mais rara na aviação, o engenheiro de voo foi durante muito tempo um tripulante da cabine de comando fundamental para a operação segura de aeronaves. No passado, esses profissionais eram tão numerosos e comuns quanto pilotos e comissários de bordo no mercado aéreo brasileiro. Hoje, existem menos de 10 pessoas trabalhando com este ofício no Brasil.

Todos os engenheiros de voo atuantes no Brasil trabalham na companhia Total Linhas Aéreas, especializada no transporte de cargas. “Esses profissionais voam em nossos cargueiros Boeing 727, uma aeronave que por ser mais antiga e não possuir sistemas tão avançados ainda requer a presença do engenheiro de voo para auxiliar os pilotos”, disse André Pessoa, gerente de operações da empresa, em entrevista ao CNN Brasil Business.

“Temos sete engenheiros de voo no quadro de funcionários e três jatos 727 na frota.”

O posto do engenheiro de voo, também conhecidos como mecânicos de voo, surgiu na década de 1930. Ao passo que os aviões ficavam mais complexos, adicionando mais motores e diversos sistemas, a carga de trabalho dos pilotos aumentou.

Com a sobrecarga de tarefas, um terceiro tripulante foi incorporado à cabine para monitorar e controlar os inúmeros equipamentos presentes nas aeronaves.

Mais adiante, com o surgimento de novas tecnologias de automação e recursos computadorizados, o cargo passou a ser suprimido em novos projetos.

“A tendência, com a modernização dos equipamentos, é diminuir a necessidade da mão de obra. Isso aconteceu e vem acontecendo em todos os setores industriais. Antigamente eram necessários quatro profissionais na cabine de comando, os dois pilotos, o operador de rádio e o engenheiro de voo. O primeiro a cair foi o operador de rádio, com as funções dele sendo incorporadas pelos pilotos. Em seguida foi a vez dos engenheiros de voo”, afirmou o gerente da Total, que atualmente é a única empresa brasileira certificada para operar o 727, avião trimotor produzido pela Boeing de 1962 até 1984.

O primeiro avião comercial que dispensou a necessidade do engenheiro de voo foi o Boeing 737, que estreou nos aeroportos em 1968. O declínio da profissão se acentuou na década de 1980, com o surgimento de aeronaves mais avançadas com sistemas computadorizados, como os widebodies Boeing 767 e o Airbus A300. A grosso modo, o trabalho dos mecânicos de voo foi absorvido por computadores e sistemas automatizados.

Apesar do nome da profissão, o engenheiro de voo não é necessariamente um profissional formado em engenharia. “Escolas de aviação oferecem cursos de engenheiro de voo. Esses profissionais também precisam ser certificados pela Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] para exercer a função”, salientou Pessoa.

Como é o trabalho do engenheiro de voo?

Ronaldo Costa é um dos sete engenheiros de voo que trabalham na Total Linhas Aéreas. Com quase 40 anos de experiência, ele iniciou a carreira na Força Aérea Brasileira, executando a função em cargueiros C-130 Hercules, e depois continuou com o ofício no setor privado trabalhando em empresas como Vasp, Varig e RIO Linhas Aéreas até ingressar na Total, em 2017.

“O trabalho do engenheiro de voo é certificar que o avião está em condições de voar em segurança, com todos os sistemas funcionando e nos parâmetros corretos. O engenheiro de voo é como uma extensão dos braços do comandante e do co-piloto. Nós monitoramos e controlamos as condições dos sistemas do avião em todas as etapas do voo”, disse Costa.

Os sistemas mencionados pelo engenheiro de voo da Total são itens como a cabine pressurizada, bombas de combustível dos motores, distribuição do combustível nos tanques, APU (Unidade de Energia Auxiliar), indicadores de pressão hidráulica e condições dos equipamentos elétricos, entre outros. Em aviões como o 727, todos esses recursos são controlados quase que inteiramente de forma manual durante o voo. O posto de trabalho do mecânico de voo é uma mesa com um vasto painel de instrumentos analógico, localizado atrás dos assentos dos pilotos ao lado direito da cabine.

“Se algum desses sistemas parar de funcionar ou operar de forma incorreta, quem faz o diagnóstico e executa a correção é o engenheiro de voo. Também somos responsáveis por ler os ‘checks’ [listas de verificação] antes do voo e fazemos inspeções externas no avião entre um voo e outro”, contou Costa. “Os pilotos também são treinados para assumir as funções do engenheiro de voo, no caso de uma eventualidade durante a viagem.”

Ronaldo Costa em seu posto de engenheiro de voo no Boeing 727 da Total Linhas Aéreas / Arquivo pessoal/Ronaldo Costa

Profissão em extinção

Inevitavelmente, a profissão do engenheiro de voo um dia vai deixar de existir. No entanto, esses profissionais podem migrar de área.

“O engenheiro de voo tem um conhecimento técnico muito abrangente. É um profissional que pode trabalhar em outros departamentos de uma empresa aérea. Ele pode atuar, por exemplo, como despachante operacional de voo ou engenheiro de operações. Há muitas formas de recolocação para esses profissionais. Muitos deles, aliás, também migram para o posto de piloto”, contou o gerente de operações da empresa cargueira.

Este, inclusive, é o caso de Ronaldo Costa, que aos 58 anos de idade está se preparando para uma nova etapa em sua carreira. “Com apoio da empresa, vou iniciar em breve o curso teórico para ser co-piloto do 727”, contou o engenheiro de voo e futuro primeiro-oficial da Total Linhas Aéreas.

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