Spotify apostou em podcasts, e então a pandemia mudou o que ouvimos

Com a Covid-19, usuários do aplicativo preferem ouvir programas sobre bem-estar e meditação, mudando drasticamente suas rotinas matinais

Com a pandemia de Covid-19, o horário e assunto dos podcasts mais ouvidos no Spotify mudaram drasticamente 
Com a pandemia de Covid-19, o horário e assunto dos podcasts mais ouvidos no Spotify mudaram drasticamente  Foto: Lucas Jackson/Reuters

Kerry Flynn,

da CNN

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Há um ano, o Spotify fez uma aposta cara, gastando centenas de milhões de dólares para entrar no negócio de podcasts. Para uma empresa que ainda não era lucrativa, perdendo mais de US$ 200 milhões naquele ano, foi uma jogada ousada.

Então veio a pandemia de coronavírus e o consumo de podcasts mudou imediatamente. O Spotify notou desistências de ouvintes que ouviam podcasts em seus carros e dispositivos móveis, provavelmente porque eles não estavam mais indo para o trabalho. Enquanto isso, o tempo de escuta em atividades como cozinhar, fazer tarefas de casa e atividades com a família subitamente aumentou. Houve também um aumento nos podcasts relacionados ao bem-estar e meditação.

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“A partir de nossos dados, ficou claro que as rotinas matinais mudaram significativamente”, afirmou a empresa em seu comunicado de resultados do primeiro trimestre. “Todo dia agora parece fim de semana.”

Essa mudança repentina não era algo que a empresa havia previsto – e poderia ter sido preocupante. Mas a diretora de conteúdo do Spotify, Dawn Ostroff, garante que o serviço de streaming está ficando ainda mais forte, apesar da pandemia.

“Acho que, quando as coisas se normalizarem e as pessoas voltarem ao trabalho novamente, os hábitos que estão formando agora permanecerão”, opinou. “Isso vai dar mais tempo para as pessoas consumirem podcasts em diferentes épocas e maneiras”.

Em uma entrevista com Rachel Crane, da CNN Business, Ostroff disse que os usuários do Spotify ouvem podcasts mais tarde do que o habitual. Eles também estão ouvindo as gravações em mais dispositivos domésticos, como televisores e consoles de jogos.

“O que vimos na pandemia é que as pessoas estão de fato sentando e ouvindo podcasts em grupo”, contou. “Ficou claro para nós que há uma oportunidade real no consumo da família”.

Dawn Ostroff
A diretora de conteúdo do Spotify, Dawn Ostroff, fala com um colega na sede da empresa em Nova York
Foto: Celeste Sloman/CNN

Uma aposta ousada

O Spotify assumiu seu compromisso com os podcasts no ano passado quando adquiriu o aplicativo de criação Anchor e a empresa de produção Gimlet. Nas demonstrações financeiras, a empresa reconheceu as compras como um risco, dizendo que não havia garantia de que poderiam “gerar receita suficiente” para “compensar os custos de aquisição” delas. A empresa continuou investindo em podcasts em 2020, anunciando em fevereiro que estava adquirindo o site The Ringer, de Bill Simmons, que possui dezenas de podcasts.

As aquisições caras estão começando a dar frutos. Cerca de 19% dos usuários ativos mensais do Spotify ouvem podcasts, contra 16% no último trimestre, informou a empresa na divulgação dos lucros no primeiro trimestre em abril. O Spotify afirma atingir 286 milhões de usuários ativos mensais, dos quais 54,3 milhões são ouvintes de podcast.

A Apple tem sido o ator dominante no consumo de podcast, mas o Spotify está crescendo em popularidade entre os ouvintes. Ostroff disse que o Spotify está “à frente da Apple” em mais de 60 mercados. “Isso é bastante significativo, porque só estamos no jogo há cerca de dois anos”, comemorou.

Podcasting em uma pandemia

Apesar da pandemia mudar o cotidiano das pessoas, o consumo de podcasts continua crescendo. O CEO da Chartable, Dave Zohrob, disse que sua empresa de análise de podcasts registrou uma queda de 20% em sua plataforma no início de março, mas a tendência se inverteu no final desse mesmo mês, quando começou uma nova subida. Jonathan Gill, CEO da empresa de análise Backtracks, disse que sua plataforma mostrou que a escuta geral aumentou 2,78% em março, em comparação com fevereiro.

Anya Grundmann, vice-presidente sênior de programação da NPR, a rádio pública nacional dos EUA, disse à CNN Business que houve volatilidade na audição durante a pandemia, mas também um novo crescimento. O podcast Coronavirus Daily da NPR é o que mais cresce. Fazer podcasts representa a “linha de crescimento mais rápida para a NPR nos últimos cinco anos”, revelou.

O podcasting “é cada vez mais o modo como as pessoas passam o tempo, tentando se educar e ficar mais inteligentes, em um momento em que as pessoas estão sozinhas”, acrescentou Grundmann.

produtora do Spotify
O escritório da produtora Gimlet no Brooklyn
Foto: Celeste Sloman/CNN

“Não é só um programa paralelo”

Para o Spotify, o crescimento do setor é uma ótima notícia.

A empresa continua a fazer grandes investimentos em podcasting. No mês passado, assinou um dos podcasts mais populares do mundo, “The Joe Rogan Experience”, por um contrato de licença exclusivo de vários anos. O Wall Street Journal informou que o acordo custou mais de US$ 100 milhões.

“Sentimos que precisamos ter o podcaster número um em nossa plataforma para realmente ser um vencedor neste meio. Não nos parece arriscado, porque [Rogan] é uma figura muito importante nesse espaço”.

Marty Moe, presidente da Vox Media Studios, disse à CNN Business que o consumo do podcast da empresa “pelo Spotify aumentou”. A Vox Media tem mais de 200 programas ativos em sua rede de podcasts.

O investimento do Spotify “valida o que sabemos há anos”, disse Moe. “Este não é só mais um programa paralelo”.

Ostroff afirma que o Spotify está observando um aumento na criação de podcasts, citando que 150 mil novos podcasts foram produzidos em março em comparação a fevereiro.

“Talvez alguns desses produtores de podcasts permaneçam e continuem produzindo conteúdo mesmo depois que a vida recomece e voltemos a uma existência normal”, opinou.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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