Tesla: mesmo com venda recorde de carros, tombo do bitcoin deve impactar 2º tri

Valor da criptomoeda foi de US$ 59 mil para US$ 33 mil nos últimos três meses, queda de mais de 40%

Foto: Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo*

Ouvir notícia

Seguindo a boa e velha lógica do “pau que bate em Chico, bate em Francisco”, a Tesla deve ver um efeito negativo nas suas contas do segundo trimestre de 2021 causado pela desvalorização do bitcoin. Os números serão apresentados ao mercado no próximo dia 26 de julho.

Para quem não se lembra, em 8 de fevereiro deste ano, a companhia de Elon Musk anunciou um investimento de US$ 1,5 bilhão na criptomoeda. Em abril, quando apresentou os resultados do 1º trimestre, já havia vendido 10% do montante e ganhado com a valorização do ativo, o que trouxe um efeito positivo de US$ 101 milhões no balanço da empresa.

Agora, no entanto, o efeito pode ser inverso. Isso porque, entre os dias 1º de abril e 30 de junho (duração do 2º tri), os preços do bitcoin foram de US$ 59 mil para US$ 33 mil, um tombo de mais de 40%. O que, cá entre nós, pode ter contado com um empurrão do próprio Musk por conta de suas opiniões sobre o tema.

“Quando analisamos os resultados do 1º trimestre da Tesla, as criptos tiveram, no mercado, uma valorização muito maior do que o relatado pela empresa, o que mostra que eles estão suavizando as oscilações de BTC no balanço”, diz Guilherme Zanin, estrategista da Avenue Securities.

“Então, se carregarmos essa mesma lógica para o segundo trimestre, analistas apontam que a empresa pode ter um prejuízo de cerca de US$ 100 milhões por conta da desvalorização do ativo. Isso partindo do princípio que Musk cumpriu com o que prometeu e não vendeu parte ou a totalidade da carteira de bitcoin durante o período.”

O investimento também está expondo as ações da Tesla aos preços das criptomoedas. “O preço das ações da Tesla tem tido uma correlação muito próxima com o preço do bitcoin”, diz Garrett Nelson, analista da CFRA Research, reiterando que isso prejudica o sentimento do investidor, apesar do bitcoin ser uma pequena parcela do dinheiro total da Tesla.

E os carros?

A Tesla anunciou no último dia 2 que conseguiu vender mais de 200 mil veículos no último trimestre, mesmo com a empresa aumentando preços e enfrentando um desastre de relações públicas na China e uma escassez de chips ao redor do globo.

A empresa também conseguiu construir outros mais de 200 mil carros nos últimos três meses. O aumento no número de veículos produzidos e vendidos mais que dobrou o número de um ano atrás, quando a pandemia fez a Tesla fechar suas fábricas. 

Os pedidos e as entregas também subiram modestamente em relação ao primeiro trimestre deste ano, semelhante ao que foi relatado por outras montadoras. As entregas chegaram a 201.250, em comparação com cerca de 91.000 um ano atrás e 184.800 no primeiro trimestre.

Toda a indústria automobilística está lutando contra a escassez de chips. Em abril, o CEO da Tesla, Elon Musk, chamou a escassez de um “grande problema” para a Tesla. “Nossas equipes têm feito um excelente trabalho navegando pela cadeia de suprimentos global e desafios de logística”, disse.

“Foi um trimestre sólido em relação ao volume, mas considero uma leve decepção”, diz Nelson. O resultado está em linha com o que o mercado esperava da companhia mas, ao mesmo tempo, não representa aquele salto que os pessimistas acreditam ser necessário para que a empresa mude de patamar.

Treta na China

A Tesla tem sido mal falada na China, o maior mercado mundial de vendas de carros elétricos, por questões de segurança e qualidade. Um grupo de proprietários protestou no salão do automóvel de Xangai em abril e quase 300 mil veículos construídos em sua fábrica local foram recolhidos no início do mês. 

O relatório de vendas não detalhou a performance da marca em cada mercado, mas o número total pode acalmar algumas das preocupações sobre a China, disse Dan Ives, analista de tecnologia da Wedbush Securities, que tem uma recomendação de compra de ações da Tesla.

“No geral, este trimestre foi um desempenho impressionante da empresa. E agora, com um forte desempenho no segundo semestre, deve ser capaz de atingir cerca de 900 mil veículos no ano, um dos grandes objetivos da marca”, disse.

Concorrência

Enquanto a companhia de Musk luta para conseguir aumentar sua escala, aparece no retrovisor uma competição crescente no mercado de veículos elétricos por parte de montadoras estabelecidas, como Volkswagen, General Motors e Ford.

A GM relatou que as vendas nos Estados Unidos do seu Bolt saltaram 350% no trimestre após a introdução de versões atualizadas. A GM ainda não divulgou as vendas do segundo trimestre na China, mas durante o primeiro trimestre disse que seu Wuling Hongguang Mini EV, lançado no ano passado, é o veículo elétrico mais vendido no país asiático.

A Volkswagen ultrapassou a Tesla em vendas de veículos elétricos em vários mercados europeus, e o novo Mustang Mach-E da Ford vem conquistando participação esportiva da Tesla, de acordo com a análise do Morgan Stanley. A Ford vendeu 13 mil unidades do modelo nos Estados Unidos desde que as entregas começaram no início deste ano.

“As vendas do segundo trimestre da Tesla ilustram a eficácia com que a montadora está navegando no hype dos carros elétricos”, disse Karl Brauer, analista executivo da iseecars.com. “Mas o aumento da concorrência de fabricantes de automóveis mais estabelecidos é inevitável e pode impactar a curva de crescimento da Tesla.”

A empresa teve o melhor desempenho entre as ações dos EUA em 2020, subindo 743%, mas tem lutado este ano, acumulando queda de mais de 20% de seu recorde no final de janeiro e 8% no ano.

*Com informações da Reuters e do CNN Business

Mais Recentes da CNN