Três fatores que ajudam a explicar o fiasco da Superliga Europeia

Dos 12 clubes que integrariam a liga rebelde, 10 já desistiram da ideia após pressão de torcedores e autoridades

Foto: Charlotte Wilson/Offside/Offside via Getty Images

Leonardo Guimarães,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Liderados pelo presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, os grandes clubes da Europa até tentaram emplacar um campeonato que iria concorrer com a Champions League, organizada pela Uefa (União Europeia de Futebol). Mas não deu certo. 

Depois de muita pressão de torcedores, autoridades do futebol e até de chefes de governo e Estado — como o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o presidente francês, Emmanuel Macron –, dez clubes voltaram atrás e se retiraram do projeto batizado de Superliga. Restaram apenas Real Madrid e Barcelona.

Apontamos três motivos que ajudam a explicar o fracasso da Superliga. Confira abaixo. 

1. O público detestou a ideia

É difícil encontrar alguém que defenda a criação da liga dos ricos. Nas redes sociais, a maioria dos comentários são negativos e criticam a ganância dos times. A imprensa especializada — nacional e internacional — também se opôs à ideia. 

Mesmo antes dos pitacos dos formadores de opinião aparecerem na internet, os usuários do Twitter já reagiam negativamente à proposta. É o que mostrou um levantamento da Armatore, agência de pesquisas relacionadas ao esporte. 

A empresa analisou as publicações no Twitter a partir do momento do anúncio oficial da criação da competição, que aconteceu na noite do último domingo (18). De 100 mil posts feitos entre 19h30 e 23h, 62,42% tinham reações negativas ao anúncio. Além de expectativa, alguns sentimentos predominantes foram raiva e tristeza. 

As reações negativas não ficaram guardadas na internet. Na Inglaterra, torcedores foram aos estádios de seus times do coração para protestar contra a proposta. 

Não é possível saber como seria a reação do público em longo prazo, já que a Superliga “durou” dois dias. Mas conseguimos imaginar que uma parcela significativa de torcedores pensaria em boicotar a competição, sem ir aos estádios ou assistir aos jogos na TV, algo que machucaria o bolso dos times. 

Liverpool, Superliga
Faixas deixadas por torcedores no estádio do Liverpool para protestar contra intenção do clube de integrar a Superliga Europeia
Foto: Christopher Furlong/Getty Images

 

2. Quem patrocinaria? 

O grande objetivo da Superliga era ganhar mais dinheiro. Apesar de estarem entre as maiores forças da Europa, os 12 times envolvidos na nova liga queriam ainda mais e acreditavam que poderiam gerar mais receita com a super competição. 

Mas a pergunta é: quem pagaria para ter sua marca exposta em algo que já nasceu odiado? 

E mais: se os clubes não parecem dispostos a pensar na parte social do futebol, ensaiando um movimento que ignora os menores e permite que apenas os mais fortes sobrevivam, o mundo dos negócios, em geral, caminha em outra direção. Isto porque os consumidores exigem que as empresas abracem causas sociais e outras pautas que eram ignoradas pela velha economia, como sustentabilidade. 

As fornecedoras de material esportivo — Nike, Puma e Adidas –, grandes patrocinadoras do futebol, são exemplos de empresas que adotaram posicionamentos com acenos ao consumo consciente e causas sociais. Essas companhias poderiam pensar duas vezes antes de entrar num projeto como a Superliga. 

A Tribus, marca de relógios de luxo, nem esperou o desfecho do imbróglio e anunciou que não será mais patrocinadora do Liverpool. O negócio era recente –foi anunciado em novembro do ano passado. Já a Heineken, que patrocina a Champions League, fez piada com a ideia dos ricos europeus e disse: “não beba e comece uma liga”.

3. Modelo não funciona no futebol

Os esportes norte-americanos foram a grande inspiração de Florentino Pérez e companhia para a criação da Superliga. No basquete, beisebol e futebol americano, não há rebaixamento e sempre as mesmas equipes competem entre si todos os anos. Mesmo assim, o modelo é atraente porque prevê uma série de incentivos aos que não tiveram bom desempenho nas temporadas anteriores.

Esta matéria do CNN Brasil Business te ajuda a entender como a tentativa de aplicar o modelo norte-americano ao futebol é inviável, uma vez que o futebol foi construído de uma forma totalmente diferente e sempre teve apelo popular. 

Diferente da NBA, por exemplo, o futebol é um esporte global, e mesmo os times de ponta, como Real Madrid e Liverpool, precisam dos menores para sobreviver. Afinal, não foi o Real Madrid quem revelou craques como Ronaldo, Marcelo e Cristiano Ronaldo. E o Liverpool não foi o responsável pelo egípcio Mohamed Salah e o brasileiro Alisson. Como ficaria a relação comercial entre os times se a Superliga fosse colocada em prática? 

Mas será que foi um fracasso tão grande? 

O risco certamente foi calculado. É provável que os clubes não esperassem reações tão negativas de maneira imediata, como aconteceu nesta semana, mas a ideia era ganhar mais poder de negociação.

Os dirigentes desses clubes têm anos de experiência no futebol e estavam insatisfeitos há anos com o repasse da Uefa referente às competições internacionais. Hoje, a entidade fica com cerca de 25% de tudo o que é arrecadado com a Champions League. 

Pedro Oliveira, CEO da consultoria Outfield, disse ao CNN Brasil Business que o movimento foi um blefe dos grandes clubes para assustar a Uefa, que sabe que o sucesso da Champions League depende da participação dos maiores times do mundo.

Segundo Oliveira, os clubes devem conseguir um poder de negociação maior, apesar das reações duras ao movimento. Eles são os responsáveis por gerar a maior parte das receitas da Champions League e mostraram ter coragem para tomar medidas (muito) impopulares caso a Uefa feche as portas para negociações. 

Só não sabemos se os clubes rebeldes colocaram no cálculo reações tão enfáticas por parte da Uefa, Fifa, torcedores e outros clubes.

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