‘Um erro após o outro’: como a AstraZeneca passou de heroína a vilã na pandemia

Série de erros expôs o laboratório a críticas demolidoras de legisladores e autoridades da saúde, manchando a sua imagem heroica no combate à Covid-19

Vacina de Oxford/Astrazeneca
Vacina de Oxford/Astrazeneca Foto: Luiz Lima Jr./Fotoarena/Estadão Conteúdo (5.fev.2021)

Por Julia Horowitz , CNN Business

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Londres (CNN Business) – Depois de se associar à Oxford University, a AstraZeneca produziu uma vacina segura e eficaz contra a Covid-19 em apenas nove meses. É uma grande conquista que ajudará a acabar com a pandemia. Mas uma série de erros ao longo do caminho expôs o laboratório a críticas demolidoras de legisladores e autoridades da saúde, manchando a sua imagem heroica no combate ao coronavírus.

A indústria farmacêutica anglo-sueca deu erroneamente a alguns voluntários meia dose da vacina durante os ensaios clínicos, e tem sido criticada por omitir informações cruciais em suas declarações públicas. Os reguladores dos EUA questionaram a precisão de seus dados de vacinas. Graves atrasos na produção na Europa resultaram em uma tempestade política e um colapso nas relações com os líderes da União Europeia.

“A questão é que a AstraZeneca não está sendo clara, o que justifica as desconfianças”, sentenciou Philippe Lamberts, um membro belga do Parlamento Europeu, em uma entrevista de rádio à BBC na quarta-feira (24).

O atraso da AstraZeneca na entrega de dezenas de milhões de doses prometidas à União Europeia, que luta para implantar programas de vacinação, levou o bloco a impor restrições à exportação que inviabilizaram pelo menos uma remessa de vacinas para Austrália. Os líderes podem tornar as  restrições à importação ainda mais apertadas nesta quinta-feira (25).

Enquanto isso, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA expressou preocupação, no início desta semana, depois que a AstraZeneca apresentou dados “desatualizados” do ensaio da eficácia da vacina. O doutor Anthony Fauci, diretor da agência, chamou o caso de “um erro não forçado” que pode minar a confiança em uma “vacina muito boa”.

A AstraZeneca atualizou seus dados na quinta-feira, informando que os testes mostraram que sua vacina é 76% eficaz na prevenção dos sintomas de Covid-19, retificando a informação de 79% de eficácia, divulgada no início da semana. A rara reprovação dos reguladores norte-americanos foi um grande golpe para a credibilidade da empresa.

“Eles cometeram um erro após o outro”, acusou Jeffrey Lazarus, chefe do grupo de pesquisa de sistemas de saúde do Instituto de Saúde Global de Barcelona.

Salto de fé

A AstraZeneca entrou na crise da Covid-19 com pouca experiência em vacinas. Nos últimos anos, ela gerou grande parte de sua receita com a produção de medicamentos populares contra o câncer, como o Tagrisso, usado no tratamento do câncer de pulmão.

Mas, quando chegou a pandemia, a empresa decidiu entrar na corrida para desenvolver um imunizante revolucionário.

“Não acho que eles tinham a intenção de ser uma empresa de vacinas”, disse Andrew Berens, uma analista da indústria farmacêutica do SVB Leerink. “Creio que embarcaram nisso –e eles têm sido bem transparentes sobre isso– porque queriam ajudar a humanidade e lutar contra o flagelo de Covid-19”.

Os esforços valeram a pena. A AstraZeneca recebeu autorização de uso emergencial no Reino Unido no final de dezembro e na União Europeia um mês depois. Como a vacina era mais barata e podia ser armazenada em temperaturas mais altas do que as desenvolvidas pela Pfizer e Moderna, ela foi anunciada como um avanço, especialmente para países menos ricos que podem carecer de redes de logística sofisticadas.

A AstraZeneca gerou ainda mais boa vontade ao se comprometer a fornecer sua vacina sem lucro durante a pandemia e ao firmar parceria com o Serum Institute of India, que concordou em produzir mais de 1 bilhão de doses para países de baixa e média renda.

“Eles entraram em uma área pela qual não são conhecidos e se saíram muito bem”, elogiou Lazarus.

Erro após erro

Quase imediatamente, no entanto, os problemas começaram a surgir. Antes que a dose da AstraZeneca recebesse a aprovação para uso emergencial, a empresa enfrentou dúvidas sobre os dados de testes em grande escala apresentados em novembro.

Os voluntários receberam diferentes doses devido a um erro de fabricação, criando confusão sobre sua real eficácia. A AstraZeneca não mencionou que um erro causou a discrepância de dosagem em seu anúncio inicial, gerando preocupações sobre a falta de transparência.

“Odeio criticar colegas acadêmicos ou qualquer pessoa nesse assunto, mas divulgar informações como essa é como nos pedir para tentar ler a sorte em folhas de chá”, afirmou à época o doutor Saad Omer, especialista em vacinas da Escola de Medicina de Yale.

Em janeiro, a comissão de vacinas da Alemanha disse que as vacinas da AstraZeneca não deviam ser dadas a pessoas com mais de 65 anos, citando dados insuficientes para a faixa etária. A França também limitou inicialmente as vacinas da AstraZeneca aos menores de 65 anos. Ambos os países mudaram de posição no início deste mês.

Lazarus chamou esses problemas de “facilmente evitáveis”, uma vez que estavam vinculados ao design do ensaio.

A AstraZeneca disse que seus dados clínicos confirmam a eficácia na faixa etária acima de 65 anos. Em uma entrevista em janeiro, o CEO Pascal Soriot disse que os cientistas de Oxford que realizam os testes não queriam recrutar pessoas mais velhas até que tivessem “acumulado muitos dados de segurança” para aqueles com idade entre 18 e 55 anos.

Se o lançamento da vacina tivesse sido tranquilo, esses tropeços poderiam ter sido esquecidos. Mas a contínua escassez de vacinas na Europa, que agora enfrenta uma terceira onda de infecções por coronavírus, desencadeou uma crise política no bloco. Os líderes da União Europeia se reuniriam na quinta-feira (25) para decidir se iriam adotar propostas da Comissão Europeia para controles ainda mais rígidos sobre a exportação de vacinas feitas no bloco, incluindo as da AstraZeneca.

“Temos a opção de proibir uma exportação planejada”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em uma entrevista recente. “Esta é a mensagem para a AstraZeneca: é preciso cumprir seu contrato com a Europa antes de começar a entregar para outros países”.

Os países europeus expressaram frustração com o fato de que o Reino Unido parece ter sido priorizado para entrega e que dezenas de milhões de doses estão sendo enviadas para o exterior.

As frustrações surgiram nesta semana depois que 29 milhões de doses da vacina da AstraZeneca foram descobertas em uma “batida” em uma fábrica na Itália.

Um porta-voz da AstraZeneca rejeitou relatos de que as doses faziam parte de um “estoque”, dizendo que a vacina era feita fora da União Europeia e que tinha sido trazida à fábrica para ser colocada em frascos antes da distribuição na Europa e exportação para países de baixa e média renda.

O vice-presidente da Comissão da UE, Valdis Dombrovskis, disse que não poderia comentar sobre a origem ou uso potencial das doses supostamente descobertas na Itália, mas observou que a farmacêutica está “muito longe de seus compromissos contratuais”.

Alguns políticos e meios de comunicação podem estar procurando um bode expiatório enquanto os programas de vacinação tropeçam.

Mesmo assim, Simona Guagliardo, analista do European Policy Center, disse que os atrasos na entrega da AstraZeneca “certamente desempenharam um papel na desaceleração da vacinação em toda a Europa”.

“O que parece claro é que a AstraZeneca pode ter prometido demais em termos de distribuição em comparação com a capacidade de produção real”, disse a analista.

Caminho difícil à frente

De acordo com Prashant Yadav, especialista em cadeia de suprimentos médicos e pesquisador sênior do Center for Global Development, a AstraZeneca parece ter se espalhado muito, com uma cadeia de suprimentos de longo alcance que tem mais probabilidade de ter tropeços do que as vacinas da Pfizer e Moderna. A AstraZeneca apregoa ter construído mais de uma dúzia de cadeias de abastecimento regionais para produzir sua vacina, com mais de 20 parceiros em mais de 15 países.

Segundo Yadav, também é mais difícil prever quanta vacina pode ser produzida a partir de lotes do produto da AstraZeneca devido ao tipo de componentes que o imunizante contém, embora essa variabilidade talvez pudesse ter sido antecipada ao redigir os contratos. A AstraZeneca não quis comentar, mas citou “vazão abaixo do esperado do processo de produção” como uma grande complicação na Europa.

“À medida que nossas equipes aprendem umas com as outras e melhoram seus conhecimentos, o rendimento está aumentando”, disse Soriot em fevereiro. “A fabricação de uma vacina é um processo biológico muito complexo”.

Nem todas as dores de cabeça da AstraZeneca são resultado de erros corporativos, observou Lazarus. Ele não culpa a empresa por temores sobre efeitos colaterais como coágulos sanguíneos, que fizeram com que mais de uma dúzia de países europeus interrompessem a vacinação no início deste mês. O regulador da União Europeia conduziu uma revisão urgente na semana passada e concluiu novamente que a vacina é segura.

Mas outras preocupações –como a alegada deturpação de dados em seus recentes julgamentos nos Estados Unidos– sem dúvida prejudicaram a reputação da empresa, especialmente em comparação com outros fabricantes de medicamentos que produziram vacinas seguras e eficazes, mas geraram menos manchetes negativas.

Ronn Torossian, CEO da 5W Public Relations, observou que os deslizes da AstraZeneca ocorrem em um momento em que a desconfiança das autoridades e os benefícios da vacinação permanecem altos, aumentando as apostas. “O público já está cético. Acho que é algo muito, muito difícil para a AstraZeneca resolver neste momento”, afirmou.

Berens, do SVB Leerink, acredita que a empresa será capaz de superar esses problemas, especialmente porque produzir vacinas não é um negócio do qual depende para ganhar dinheiro.

As ações da empresa caíram mais de 2% em 2021, ficando atrás dos ganhos no FTSE 100, mas as ações da Pfizer também perderam terreno desde o início do ano.

Mas Berens se pergunta: se a AstraZeneca pudesse voltar no tempo, ela escolheria se envolver novamente na produção de vacinas com muitos recursos? Nesse ponto, ele já não tem tanta certeza assim.

– Chris Liakos contribuiu com reportagem.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

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