Warren Buffett não precisa da ajuda do Fed – mas recebe mesmo assim

A Berkshire Hathaway, empresa avaliada em US$ 426 bilhões, está entre as dezenas de empresas cujos títulos foram adquiridos pelo sistema de empréstimos do Fed

Magnata Warren Buffett negou ter ações na resseguradora IRB (04.Mai.2019)
Magnata Warren Buffett negou ter ações na resseguradora IRB (04.Mai.2019) Foto: Scott Morgan/Reuters

Matt Egan,

CNN Business

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Um programa de emergência administrado pelo Federal Reserve (Fed) agora possui títulos emitidos pela Berkshire Hathaway de Warren Buffett.

A Berkshire Hathaway, uma empresa avaliada em US$ 426 bilhões, está entre as dezenas de empresas cujos títulos foram adquiridos pelo sistema de empréstimos do Fed, segundo divulgações feitas pelo banco central no domingo.

Não é que a Berkshire necessite ou tenha solicitado auxílio do Fed – nem que as compras relativamente pequenas de títulos façam alguma diferença na enorme empresa de Buffett. Outras empresas de primeira linha, incluindo a Walmart, Boeing, ExxonMobil e Coca-Cola, também tiveram seus títulos comprados pelo sistema de empréstimos do Fed, lançado este mês. A AT&T, proprietária da CNN, também está na lista.

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Mesmo assim, o fato de a Berkshire de Buffett, com US$ 43 bilhões em espécie, ter agora alguns de seus títulos pertencendo ao programa do Fed, destaca até que ponto o banco central irá sustentar o mercado de capitais. E causa preocupações, de acordo com alguns, no sentido de que a prática do Fed está distorcendo o funcionamento normal dos mercados.

“Warren Buffett, não se preocupe, o Fed está te protegendo”, escreveu Peter Boockvar, diretor de investimentos do Bleakley Advisory Group, em uma nota aos clientes na segunda-feira. “A política monetária chegou agora ao nível mais baixo da história nos EUA.”

Buffett, cuja uma fortuna em tempo real foi avaliada pela Forbes em torno de US$ 69,8 bilhões, é a quarta pessoa mais rica do mundo. Ele detém 37% das ações de classe A da Berkshire Hathaway, uma holding com participações na Apple, Bank of America, Wells Fargo e outras principais corporações.

É claro que a Berkshire, juntamente com muitas outras empresas cujos títulos foram adquiridos, já se beneficia de custos de empréstimos extremamente baratos. O balanço patrimonial extremamente forte da Berkshire significa que ela não tem problemas em encontrar compradores para seus títulos.

“Isso é bem constrangedor”, disse Danielle DiMartino Booth, CEO e estrategista-chefe da Quill Intelligence. “Warren Buffett não precisa da proteção do Fed”.

Resposta de 2008 sobre esteróides

Mas o fato de o Fed ter dado proteção revela, de qualquer forma, como a resposta do banco central à pandemia é ainda mais dramática do que seu ousado resgate durante a Grande Recessão. Há doze anos, o banco central reduziu as taxas para zero, comprou montanhas do Tesouro dos EUA e títulos hipotecários e financiou o resgate da gigante dos seguros AIG.

Agora, o Fed está, pela primeira vez, direcionando a compra de títulos corporativos, incluindo títulos de alto risco, por meio de sua Linha de Crédito Corporativo do Mercado Secundário. Ele criou um veículo para um fins especiais, gerenciado pela BlackRock e financiado com US$ 25 bilhões do Departamento do Tesouro dos EUA, para fazer a compra.

O mero anúncio de que o Fed estaria adquirindo títulos corporativos foi suficiente para desbloquear esse mercado quando foi congelado em março.

A Carnival, Ford (F) e outras empresas que haviam sido bloqueadas nos mercados de empréstimos inesperadamente tiveram acesso a um capital acessível. E o pronunciamento do Fed em 23 de março ajudou a colocar um piso da bolsa de valores dos EUA, que chegou ao fundo naquele dia, mas tem subiu desde então.

O Fed enfatizou que suas intervenções emergenciais nos mercados financeiros causam benefícios práticos para os americanos comuns.

“Queremos apoiar o funcionamento do mercado porque, quando estão funcionando, as empresas e as pessoas podem pedir empréstimos”, disse o diretor do Fed, Jerome Powell, aos legisladores em 17 de junho.

Powell acrescentou que quando as empresas têm acesso ao crédito “são menos propensas a tomar medidas de redução de custos”, como dispensar trabalhadores. 

Porém, diferentemente do Programa de Proteção ao Pagamento de Salários que concedeu empréstimos perdoáveis para pequenas empresas, o programa de compra de títulos corporativos do Fed não possui condições exigindo que mantenham seus funcionários. Em outras palavras, não há nada que impeça uma empresa cujos títulos agora são de propriedade do veículo do Fed de demitir milhares de trabalhadores.

A Apple, Amazon e a Google podem ser as próximas 

A linha de crédito do Fed, que é supervisionada pelo Fed de Nova York, revelou no domingo quais títulos foram adquiridos até 16 de junho, incluindo os emitidos pela Caterpillar, Ford, Ford, Dollar General, Home Depot e Marriott.

Não se trata de uma dívida nova emitida por essas empresas: Os títulos já estavam sendo negociados nos mercados. (O Fed de Nova York anunciou o lançamento na segunda-feira de um programa à parte que de fato comprará títulos recém-emitidos).

A linha do Fed também comprou US$ 5,7 milhões em títulos emitidos pela Berkshire Hathaway Energy, uma divisão do conglomerado de Buffett que possui empresas de serviços públicos como a PacifiCorp, MidAmerican Energy e a NV Energy de Nevada.

O Fed de Nova York também divulgou um índice de 794 empresas que atendem aos critérios para que seus títulos sejam adquiridos pela linha de crédito emergencial no futuro. O Fed de Nova York indicou que pretende rastrear esse índice, que inclui os gigantes tecnológicos Amazon, Apple e Google, além dos gigantes da mídia Comcast, Walt Disney e WarnerMedia, controladora da CNN.

As subsidiárias americanas de várias empresas estrangeiras também preencheram os requisitos, incluindo a Toyota, Volkswagen e a Daimler, controladora da Mercedes-Benz. Todas essas montadoras são as principais empregadoras de trabalhadores nos EUA, especialmente no Sudeste.

Vencedores e perdedores

O objetivo do programa não é resgatar empresas específicas, mas garantir que as empresas idôneas tenham acesso ao capital. Sem isso, haveria uma onda de falências, de uma só vez, com o potencial de causar um colapso da economia.

“Essa é uma ferramenta muito inteligente”, disse David Kotok à CNN Business, presidente do conselho e diretor de investimentos da Cumberland Advisors. “O Fed quer dar incentivos e estímulo à Berkshire, Verizon, Apple e ao restante para se tornarem economicamente mais ativas”.

Mesmo assim, Kotok teme que essa intervenção irá distorcer o funcionamento do mercado de capitais.

“O Fed está agora atuando na escolha de vencedores corporativos e portanto, por definição, também perdedores”, disse Kotok à CNN Business. “Os vencedores das empresas têm a percepção de mercado de que o vento está vindo por trás, caso contrário, por que o Fed compraria nossos títulos?”

Essa percepção no mercado, disse Kotok, deve conferir aos vencedores poder de fogo financeiro adicional na forma de custos de empréstimos mais baixos. E, por outro lado, as empresas que não entraram na lista do Fed acharão relativamente mais difícil tomar empréstimos.

“A linha que divide vencedores e perdedores agora aumentou”, disse Kotok.

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