Xi Jinping enfrenta os capitalistas da China; veja por que isso mudará em 2022

País teve crescimento desacelerado em 2021 devido à diversas crises; líderes chineses buscam por estabilidade como principal prioridade do novo ano

Xi Jinping participa de cerimônia em Pequim
Xi Jinping participa de cerimônia em Pequim 09/10/2021REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Laura Hedo CNN Business

Hong Kong

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Há um ano, o líder Xi Jinping prometeu passar 2021 no controle de empresas privadas “desordenadas” que estavam se tornando muito poderosas e assumindo muitos riscos.

A ampla repressão regulatória que se seguiu conseguiu exatamente isso, causando algumas baixas de grandes delas ao longo do caminho. Mas a economia agora parece muito mais abalada do que antes, e Xi não parece estar pronto para mudar isso no novo ano.

As restrições à tecnologia, finanças, educação e entretenimento esmagaram as ações e, em certo ponto, varreram trilhões de dólares em valores de empresas chinesas nos mercados globais. Elas também provocaram grandes demissões em muitas empresas, pressionando o setor de empregos, mesmo enquanto tenta se recuperar da pandemia.

Outras regulamentações impostas sobre as empresas imobiliárias que começaram no ano passado pesaram sobre os grandes incorporadores que já tinham dívidas demais. O mercado imobiliário – que responde por quase um terço do PIB da China – está agora em uma recessão cada vez mais profunda, com grandes empresas à beira do colapso.

Acrescente isso a um punhado de outros problemas da segunda maior economia do mundo e veremos sérios riscos que o governo chinês deverá enfrentar em 2022.

Embora a China tenha emergido em 2020 como a única grande economia a crescer naquele ano, o crescimento desacelerou mais rápido do que o esperado em 2021, prejudicado por repetidos surtos de Covid-19, interrupções na cadeia de abastecimento, crises energética e imobiliária.

Todas essas dores de cabeça estão fazendo Pequim reconsiderar sua abordagem política. Durante uma importante reunião econômica no início deste mês, os principais líderes do Partido Comunista Chinês marcaram a “estabilidade” como sua principal prioridade para 2022. Esse foi o grande pivô da reunião do ano passado, quando “conter a expansão desordenada do capital” foi a pauta do dia.

“A ênfase na estabilidade sugere que os principais líderes estão cada vez mais preocupados com o risco de instabilidade”, disse Larry Hu, economista chefe do Grupo Macquarie para a China, em uma nota recente.

“Um ano de aperto regulatório prejudicou a confiança dos empresários”, acrescentou. “Agora é a hora dos formuladores de políticas recuarem um pouco”.

A China ainda deve registrar um crescimento significativo em 2021, apesar dos desafios. Muitos economistas projetam um crescimento de aproximadamente 7,8%, bem acima do piso de 6% que as autoridades chinesas estabeleceram como meta no início deste ano.

Mas 2022 é uma história diferente. Muitos dos grandes bancos reduziram suas previsões de crescimento para 4,9% e 5,5%, que seria a taxa mais lenta desde 1990 – um ano em que as sanções internacionais após o massacre da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), em 1989, reduziram seriamente a atividade econômica.

“O foco anterior do governo chinês em repressões regulatórias e antimonopolistas foi possível devido ao crescimento econômico altíssimo da China”, disse Craig Singleton, pesquisador adjunto sobre a China na Fundação para a Defesa das Democracias, um think tank com sede em DC.

“Não mais, já que os motores de crescimento da economia da China estão rapidamente perdendo o fôlego”.

Controlando primeiro, e agora relaxando aos poucos

As restrições no setor privado que começaram no fim de 2020, depois que o cofundador do Alibaba, Jack Ma – o mais reconhecido da elite de negócios da China – atacou o sistema financeiro do país em um discurso polêmico.

Uma oferta pública da Ant Group, sua empresa de tecnologia financeira, foi suspensa logo em seguida. Desde então, a vida se tornou mais difícil, não apenas para a Ant Group, mas para várias outras empresas também.

Alibaba (BABA), Tencent (TCEHY) e outras foram multadas ou investigadas sob supostas alegações de comportamento anticompetitivo. A China também tomou medidas para punir empresas sobre assuntos como coleta de dados e segurança nacional, incluindo o app de transporte Didi. A empresa foi sufocada por regulações logo depois de se tornar pública em Wall Street, e eventualmente anunciou que iria deslistar suas ações do mercado e se mudar para Hong Kong.

Logo da Didi em tela na bolsa de valores de Nova York, EUA / 30/06/2021 REUTERS/Brendan McDermid

Existe uma razão por trás da dura postura de Pequim sobre essas empresas. Para Xi, controlar a iniciativa privada é a solução para consertar preocupações antigas sobre direitos do consumidor, privacidade de dados, excesso de dívidas e desigualdade econômica. Em outras palavras, é sobre domar os excessos do capitalismo e abraçar a história do país com o socialismo.

Mas há um equilíbrio que precisa ser alcançado. Agora, diante da perspectiva de uma aterrissagem econômica difícil, Pequim parece estar recuando da postura dura que assumiu em relação ao setor privado. Na recente reunião, os líderes chineses elogiaram o papel positivo que o capital privado desempenha na economia – uma mudança de tom radical em comparação com a forma que falavam há um ano.

“Haverá inevitavelmente várias formas de capital na economia de mercado socialista”, disseram eles em um comunicado após a reunião. “O capital deve cumprir seu papel positivo como fator de produção, enquanto seu papel negativo deve ser efetivamente controlado”.

Essa mensagem mensagem sugere que “o pico das regulamentações ficou para trás”, segundo Hu, da Macquarie. “O controle do Estado é importante, mas o Partido também não quer matar o capitalismo”, acrescentou.

Porto da China / 15/08/2021 REUTERS

Grande foco nos empregos

Enquanto os legisladores chineses tentam estabilizar a economia em 2022, alguns fatores-chave estarão em mente.

Manter o desemprego baixo foi listado, novamente, como o mais importante de um conjunto de áreas nas quais Pequim quer se concentrar, de acordo com o comunicado divulgado após a reunião deste mês. (Outros objetivos incluem a preservação da segurança alimentar e energética, e a estabilização das cadeias de abastecimento).

A ênfase na criação de empregos vem à medida que as perspectivas em relação desemprego pioram na China. Empresas de tecnologia educacional demitiram milhares de funcionários depois que o governo restringiu as aulas particulares em julho. Outras empresas de tecnologia também planejam cortar mão de obra por causa da repressão aos seus negócios.

A crise imobiliária também contribui. Os incorporadores imobiliários estão sem dinheiro, como o conglomerado Evergrande, e dispensaram empregados e ativos para não afundarem.

Logotipo da empresa é visto na sede do China Evergrande Group em Shenzhen, província de Guangdong, China, em 26 de setembro de 2021 /

A notoriamente estável taxa de desemprego, divulgada pelo governo todos os meses, se manteve achatada este ano, oscilando apenas entre 4,9% e 5,5%. Mas repetidos apelos dos principais líderes, em várias ocasiões, para fortalecer o emprego sugerem que pode haver um problema maior do que mostram os dados.

“Acho que o emprego é agora uma sensibilidade maior do que o PIB”, disse George Magnus, associado do China Centre na Universidade de Oxford e ex-economista chefe do UBS.

Enquanto uma série de desafios estão arrastando o emprego, incluindo surtos de Covid e a crise imobiliária, Magnus disse que a repressão aos negócios é um fator notável. O setor privado contribui com 80% do emprego, de acordo com estatísticas do governo.

Singleton apontou que o partido “estava focado no desemprego, temendo que as demissões em massa pudessem prejudicar a posição do partido”.

Jogo de poder de Xi irá deixá-lo em uma estrada difícil pela frente

Na vanguarda da mente de Xi certamente está o desejo de manter o país caminhando de forma estável à frente de um terceiro mandato histórico no poder.

É altamente esperado que o líder chinês estenda seu reinado durante o 20º Congresso do Partido Comunista, no ano que vem, sacramentando sua posição como o líder mais poderoso do país desde Mao Tse Tung.

“A mensagem de ‘estabilidade’ de Xi é mirada para a elite política na China, que precisa absorver o impacto de uma jogada de poder histórica, além do setor de negócios”, disse Alex Capri, pesquisador na Fundação Hinrich.

Xi deu vários passos para sinalizar que está focado mais nos assuntos domésticos do que em quaisquer ambições internacionais. O líder chinês não saiu do país desde o início da pandemia, e tomou medidas drásticas para assegurar as fronteiras e para fechar regiões inteiras para conter até um único caso de coronavírus – uma maneira “zero Covid” de conduzir o combate ao vírus abandonado por grande parte do mundo.

Bolsa de Valores de Xangai durante a epidemia de coronavírus, no distrito financeiro de Pudong / , China 28/02/2020 REUTERS/Aly Song

Mas Capri notou que Xi tem que considerar o mundo externo até certo ponto. Ele diz que a mensagem de estabilidade de Xi é “também tem a intenção de amenizar ansiedades de crescimento na Wall Street e dentro de outros  grupos corporativos e financeiros, os quais a China depende muito do que gostaria de admitir para investimentos, tecnologia e comércio”.

Esse é um ato precário de equilíbrio – e no qual Xi terá que pensar cuidadosamente no próximo ano.

“Como outras nações, a China quer um futuro baseado em altos níveis de inovação e produtividade, mas é politicamente motivada para criar condições que estão bloqueando ambos”, disse Magnus.

“O principal desafio para a China será, com Xi no comando por uma década, as correções de curso serão possíveis?”, disse Singleton. “E, infelizmente, o registro histórico lá é que o poder absoluto não costuma levar a uma atitude mais pragmática e flexível”.

Texto traduzido. Leia o original em inglês.

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