Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

O mercado financeiro ainda não enxerga o boi

Compartilhar matéria

Faça uma pergunta simples a qualquer pecuarista brasileiro: neste momento, você sabe dizer onde está cada animal do seu rebanho e em que condição ele está?

Na maioria dos casos, a resposta ainda será não.

E é justamente aí que começa um dos maiores paradoxos da pecuária brasileira: um ativo de enorme valor econômico continua sendo mal aproveitado como garantia de crédito, não por falta de patrimônio, mas por falta de visibilidade.

O Brasil tem um dos maiores rebanhos bovinos do mundo,  238 milhões de cabeças. É uma riqueza real, espalhada por todo o território, com peso direto na produção, na renda e na circulação de capital no campo. Ainda assim, esse ativo segue sendo treated de forma genérica não apenas pelo crédito rural tradicional, mas por todo o mercado financeiro, de fundos de investimento a fintechs agrícolas, que ainda não encontraram uma forma confiável de precificar esse patrimônio individualmente.

O problema não é o boi, é a falta de informação

O crédito rural ainda trabalha muito com média, de produtividade da região, de inadimplência histórica, de preço e de risco. Nesse modelo, o produtor eficiente desaparece dentro da estatística. Quem faz gestão melhor, controla custo, cuida bem do rebanho e mantém disciplina financeira muitas vezes paga caro do mesmo jeito, porque o mercado não consegue enxergar com precisão a diferença entre um perfil e outro.

Quando falta informação confiável, sobra precificação conservadora. E quem paga essa conta é o bom produtor.

Isso não é só uma distorção. É uma falha clara de mercado.

Um ativo valioso, mas ainda opaco para o crédito

Um animal em fase final de engorda representa valor real. Um lote de centenas de cabeças concentra patrimônio relevante, com liquidez e demanda de mercado.

Na teoria, isso deveria ampliar as possibilidades de financiamento, não só no crédito rural, mas em estruturas como fundos de recebíveis, CPRs, securitização e capital privado voltado ao agro.

Na prática, qualquer credor esbarra na mesma dúvida: o animal existe, está onde deveria estar, evolui como esperado, mantém condição sanitária adequada?

Sem resposta objetiva para essas perguntas, o mercado se protege. Reduz apetite, endurece critérios e cobra mais.

O problema, portanto, não é a falta de ativo. É a falta de dado confiável sobre esse ativo.

Quando o boi ganha identidade, a lógica muda

É aqui que a tecnologia muda de patamar.

Hoje já existem ferramentas capazes de dar identidade individual ao animal e transformar o rebanho em uma base verificável de informação. Brincos eletrônicos, balanças automáticas, sensores e plataformas de monitoramento permitem acompanhar localização, ganho de peso, comportamento e histórico sanitário com muito mais consistência.

O que antes era percepção passa a ser evidência.

Isso muda a conversa com o mercado financeiro porque reduz incerteza. O ativo deixa de ser apenas uma promessa no papel e passa a ser algo monitorável, rastreável e auditável.

Para o investidor, isso abre uma nova avenida de alocação em ativos reais com rastreabilidade verificável.

Para o produtor, abre a chance de ser avaliado pelo que realmente entrega, e não pela média do setor.

O que precisa acontecer para isso virar produto

Para esse modelo sair da apresentação e virar crédito de verdade, três pontos precisam andar juntos.

Primeiro, conectividade no campo. Sem transmissão confiável, o dado não circula.

Segundo, integração entre equipamentos e sistemas. Não adianta ter brinco, balança e sensor se cada informação fica presa em um lugar diferente.

Terceiro, organização de dados. Dado solto não melhora crédito. O que gera valor é dado padronizado, com contexto, histórico e leitura prática para tomada de decisão.

Sem isso, a tecnologia vira vitrine.

Com isso, vira infraestrutura de confiança.

O mercado ainda não fez a pergunta certa

O Brasil já tem rebanho, tecnologia disponível e capital interessado no agro. O que ainda falta é conectar esses três mundos com base em informação individual, contínua e verificável.

Enquanto isso não acontecer, o sistema seguirá tratando o pecuarista como média. E o produtor eficiente continuará pagando, em parte, pela ineficiência que não é dele.

O boi sempre foi um ativo.

O que falta agora é o mercado financeiro aprender a enxergá-lo.