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    5G vai permitir ofertas de “redes personalizadas”, explicam especialistas

    Customização poderá ser feita por empresas que precisam de menor latência até indústrias sediadas em locais remotos, por exemplo

    Da tela do smartphone será possível clicar em um aplicativo qualquer e acessar tanto a rede da empresa quanto a particular do usuário
    Da tela do smartphone será possível clicar em um aplicativo qualquer e acessar tanto a rede da empresa quanto a particular do usuário rawpixel.com / Tong

    Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    A implementação do 5G no Brasil vai impactar diversos segmentos econômicos, entre eles a criação de novos modelos de negócio. Segundo especialistas, a baixa latência, velocidade e a possibilidade de aderência a “redes personalizadas” permitem com que as empresas reinventem os serviços ofertados por meio da tecnologia.

    Funcionará da seguinte forma: as operadoras vencedoras do leilão do 5G, que têm a garantia de uso das faixas, podem fornecer a contratação de uma faixa de rede específica para uma determinada empresa ou usuário, com as características que ele desejar. Desta forma, os contratantes utilizam a rede personalizada para otimizar os serviços prestados, sejam para seus próprios usuários ou para a comercialização com terceiros.

    Isso só é possível porque o 5G standalone tem características distintas do “nonstandalone” e do 4G. Ele permite a contratação de uma rede que tenha um dos atributos do 5G em destaque, que será utilizado somente no momento do uso.

    Andrea Faustino, VP de Soluções Digitais da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, explicou que isso pode beneficiar a experiência dos indivíduos ao realizar determinada tarefa ou serviço.

    “Existe uma série de detalhes na rede 5G standalone que não existem nas anteriores. Dependendo da aplicação que uma empresa vai utilizar, ela pode fazer uso deste requisito ou não. E aí entra o chamado ‘slice’, que é customizado para esta aplicação”.

    “Por exemplo, o usuário tem uma assinatura do 5G com determinadas características, mas você precisa de aplicação no smartphone de baixa latência em real time, quase instantânea. O slice permite que, quando você clica na aplicação, o sistema entende que você precisa da menor latência e vai arranjar os recursos da rede para que você consiga esta latência desejada no momento de uso. Então, você não precisa dessa característica o tempo todo, mas precisa quando estiver na aplicação”, afirmou a especialista.

    Segundo ela, haverá diversos tipos de slice, desde ofertados àqueles que precisam de uma latência menor, enquanto outros que precisam de mais resiliência de rede – vai depender da escolha de acordo com o serviço a ser realizado.

    “Este modelo é mais simples e vai acontecer em um primeiro momento. Por exemplo, a empresa em que uma pessoa trabalha vai ter um pacote específico contratado pela operadora, enquanto ela como pessoa física poderá ter outro para ver vídeos ou jogar jogos, sem ter ligação com a contratação feita pela empresa, ainda que o uso seja para o mesmo aplicativo”, disse Andrea.

    Portanto, da tela do smartphone será possível clicar em um aplicativo qualquer e acessar tanto a rede da empresa quanto a particular do usuário – ambas com 5G, mas com características diferentes.

    De acordo com a especialista, as operadoras vão realizar serviços mais simples destinados a um determinado grupo, mas depois de um tempo o processo deverá ser massificado, o que permitirá a contratação de diversos serviços por meio de empresas especializadas na oferta de slices (que significa “pedaços” ou “fatias” em ingês), que pensarão nas redes específicas de acordo com os objetivos da empresa ou usuário que vai contratar o serviço.

    “Quando vamos até um modelo mais sofisticado, que é mais B2B [Business to Business], porque as aplicações são mais específicas, passamos para contratações de casos únicos. Planos mais massificados para os funcionários, aplicações para indústria 4.0 entre outros. À medida que os casos se multipliquem dentro do novo modelo de negócio, vão existir empresas que vão trabalhar com essas APIs. As operadoras permitirão que desenvolvedores trabalhem em aplicações específicas para clientes, que contratem slices modulados para o seu modelo de negócio particular”, destacou.

    Especialistas explicam que o modelo atual permite com que a operadora forneça a infraestrutura e conectividade necessárias, criando assim um modelo de negócio B2B e B2C [Business to Consumer]. Portanto, o consumidor ou o serviço contratam o serviço que a operadora escolhida disponibiliza.

    Na próxima fase, que o 5G standalone permite, empresas desenvolvedoras de aplicações passam a ser “service enabler” (ativadores de serviço, na tradução literal). O que é isso? Significa que as operadoras vão permitir que esses desenvolvedores de aplicação se conectem via APIs abertas à rede em questão e personalizem o serviço, conforme explicou Andrea Faustino.

    “Vamos sair de um modelo tradicional para um modelo de negócio novo, que pode entregar o mesmo B2B e B2C, alguns serviços que a própria operadora pode fornecer, ou a contratação feita por meio de desenvolvedores de aplicações”, reforçou.

    5G privado

    Sem precisar de contratações via operadoras, outro meio que permite a amplificação nos negócios com a tecnologia ocorre com a utilização do 5G privado. Diferente do slice, trata-se de uma solução voltada para segmentos da indústria que atuam em regiões mais afastadas, onde antenas não chegam.

    Augusto Panachao, VP de Soluções e Tecnologia da NTT, afirmou ao CNN Brasil Business que a contratação de um slice e de um 5G privado não são concorrentes, pois um não compete com o outro.

    “O slice é ligado à operadora, que vai fazer fatias naquela rede para dar prioridade aos grupos de clientes, que ter suas redes personalizadas com as características necessitadas. Já o 5G privado será massificado onde a antena não chega, em indústrias longe dos grandes centros e que precisam de tecnologia de ponta para fazerem funcionar plenamente suas máquinas inteligentes”, destacou. 

    Segundo o especialista, o cliente corporativo monta sua própria rede de 5G para funcionamento dentro do seu negócio.

    “Vamos imaginar um galpão, uma mina ou uma fábrica grande. Para conectar uma rede é difícil, então hoje eles usam Wi-Fi para conectar uma parte, que não cobre todo o território e é caro. Então antes não tinha uma tecnologia boa para conectar as máquinas inteligentes”, explicou. 

    Para ele, setores da indústria como de mineração, agronegócio, montadoras, fábricas de cimento entre diversas outras podem ser beneficiadas da chegada da tecnologia ao Brasil, ampliando o horizonte de produção.

    “Isso impacta diretamente a indústria 2.0, que possui máquinas inteligentes mas não tinha a tecnologia necessária. Estamos vendo um movimento forte de procura por 5G privado para otimizar a produção, que mais para frente deverá ser massificado. Ainda não temos muitos exemplos concretos porque estamos no começo, a Anatel acabou de liberar as faixas”, avalia Augusto.

    Transformação

    Para Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação digital, o primeiro passo para que essa transformação aconteça já foi dado, mas a transição de mentalidade nos negócios e a disposição para que as ferramentas de implementação estejam adequadas podem demorar alguns anos.

    “Eu acho que a oferta deve começar entre 6 meses e 1 ano, e depois as possibilidades vão fazer com que a demanda cresça e vá se espalhando. Estimo que os serviços devam estar aquecidos entre 3 a 5 anos”, disse.

    “Era fundamental a adoção do 5G nas capitais brasileiras, uma implementação inicial para que os principais centros urbanos comecem a observar a capacidade da tecnologia, e isso já está acontecendo”, pontuou.

    Igreja citou como exemplo a possibilidade de conexão à internet rápida em eventos que envolvem multidões, como o Rock in Rio. Segundo ele, lojas que patrocinam o evento poderiam disponibilizar redes próprias de 5G aos usuários a partir da contratação de algum serviço, permitindo que eles utilizassem internet de qualidade mesmo em meio a plateias enormes.

    “Imaginem só uma pessoa que vai em um festival, jogo de futebol ou outro evento grandioso. O 4G não permite muitas conexões em uma mesma antena, mas o 5G tem capacidade de pontos de conexão muito grandes. Então em vez de a pessoa ficar sem internet, ela pode se beneficiar diretamente ou por serviços ofertados em lojas e mercados próximos, por exemplo”, argumentou.

    O especialista destaca que será difícil compreender toda a capacidade do 5G em novos modelos de negócio, mas ressaltou ser questão de tempo até que as oportunidades sejam percebidas.

    “Em um primeiro momento, só vai parecer que tudo ficou mais rápido, mas daqui a alguns anos a gente vai sentir todo o potencial do 5G, o que ele pode prover de melhoria nas atividades econômicas. Mas, por enquanto, é natural ser difícil de entender a dimensão da tecnologia”, concluiu.