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    Deflação de agosto não deve influenciar decisão de juros do BC, dizem analistas

    Número veio próximo do esperado pelo mercado, que projeta uma taxa Selic terminal de 13,75%

    Sede do Banco Central em Brasília
    Sede do Banco Central em Brasília Adriano Machado/Reuters

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    A deflação de 0,36% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto não deve influenciar a próxima decisão de juros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, segundo analistas.

    O valor veio próximo ao esperado pelo mercado, e agora a inflação acumula alta de 8,73% nos últimos 12 meses, ante 10,07% em julho.

    Dirigentes do Banco Central deram sinais em setembro de que ainda podem realizar uma última elevação na taxa Selic, com o valor mais provável sendo de 0,25 ponto percentual, dependendo do quadro inflacionário.

    Mesmo assim, a maior parte do mercado ainda espera que o ciclo de alta de juros tenha terminado em agosto, quando a taxa subiu para 13,75%, considerando a melhora do cenário econômico.

    A visão do mercado

    Para Victor Candido, economista-chefe da RPS Capital, o cenário de juros deve se manter com o dado do IPCA de agosto, após o Banco Central ter “falado mais grosso” nesta semana.

    “Eu não acho que esse número de hoje é crucial para a próxima reunião do Copom, inclusive eu acredito que os juros podem ter uma estabilidade. O Copom pode ter encerrado o ciclo, ele já fez um ajuste muito alto”, avalia.

    Candido observa que, em termos de investimentos, o cenário de juros já parece ter atingido um pico, e o foco agora deve ser por quanto tempo os juros permanecerão em uma magnitude elevada, e quando os cortes começarão.

    “Acho que a gente ainda vai precisar de mais dados de mais alguns meses para entender isso [quando os juros cairão] melhor”, diz Costa.

    Já Raone Costa, economista-chefe da Alphatree, considera que os elementos do IPCA de agosto “eram todos fatores conhecidos, o número não veio diferente do que a gente imaginava já há algum tempo”.

    “E como tal, ele não muda muito os cenários. Eu não acho que altera o resultado de juros. Acho que o BC pode dar mais um aumento de 25 pontos nesta última reunião ou ficar parado, mas eu não acho que esse número do IPCA vai determinar nenhuma das duas coisas”, afirma Costa.

    Mesmo assim, o dado não deve “deixar o Banco Central tranquilo”, de acordo com Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos.

    Ele destaca que o IPCA veio com uma abertura mais desfavorável, com um núcleo de inflação, que exclui itens voláteis como alimentação e energia, ainda “bem alto”. Para Sobral, houve aumento marginal da probabilidade de alta de 0,25 p.p.

    Para Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama, a deflação de agosto foi gerada principalmente pelo novo recuo nos preços dos combustíveis, refletindo os cortes da Petrobras acompanhando o recuo no petróleo.

    “Mas teve um ponto que eu acho importante que é que alimento, que vinha sempre incomodando, veio estável, e isso é bom”, destaca.

    Espírito Santo avalia que o número “traz a confiança de que a inflação está mais ou menos, novamente, com as rédeas do Banco Central. Mesmo sendo queda de gasolina, influenciada pela queda do petróleo, o restante está um pouco mais na mão, e isso é bom”.

    Na visão dele, as sinalizações recentes do Banco Central indicam mais a perspectiva de manter os juros elevados por mais tempo do que uma última alta em setembro. Nesse sentido, o economista não enxerga uma associação entre o IPCA de agosto e a próxima decisão do Copom.

    Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, considera que o processo de desinflação “deve ser lento e está cedo ainda para a autoridade monetária discutir queda de juros, mas mantemos nossa expectativa de fim de ciclo com a taxa terminal em 13,75%”.

    Para ela, a alta de 0,66% nos núcleos deve ser o ponto de atenção na próxima reunião Copom. Em setembro, ela projeta uma “inflação próxima de 0%, com a queda dos preços dos alimentos e também dos combustíveis, com o cenário de cotações de commodities no mercado internacional e dados do IPA recente que não indicam pressão inflacionária adicional”.

    IPCA de agosto

    Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, também não espera uma influência do dado de agosto no Copom, e destaca que o IPCA trouxe uma leve melhora nos núcleos em relação a julho.

    Para ela, o ponto positivo é a inflação de serviços, “um índice que preocupava bastante a gente por ter inflação anualizada de 11%, deu uma boa queda. É um ponto positivo, uma luz no fim do túnel, e dá para começar a pensar que o pior já passou e entramos em uma tendência de queda”.

    “Se essa tendência vai significar uma inflação próxima da meta, são outros quinhentos. Ainda não conseguimos medir isso, até pelo Auxílio Brasil de R$ 600, que dificulta a análise. Mas o que a gente consegue ver é que parou de piorar, e isso é sempre uma notícia positiva”, opina.

    Costa, da Alphatree, afirma que uma segunda deflação consecutiva, “não é muito usual, mas não chega a ser surpreendente. Ele é um número que vem muito esperado, a deflação foi concentrada na parte de bens administrados especialmente gasolina e energia elétrica”.

    Para ele, o quadro ainda não tem novidades, com preços de alimentos estacionados, queda de preços monitorados, em especial gasolina e comunicação devido ao teto do ICMS, e uma inflação de serviços ainda forte.

    “Eu acho que no geral o que a gente está vendo é uma inflação ainda bastante complicada do ponto de vista de serviços, ainda botando bastante pressão. Acho que é o dado mais preocupante que a gente tem agora, em termos inflacionários, é a inflação de serviços”, avalia o economista da RPS.

    Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, também concorda que o mês foi marcado pelos efeitos das desonerações em energia elétrica e redução no preço dos combustíveis. O especialista destacou também a inflação de bens duráveis, que continuou desacelerando.

    Do lado negativo, Kautz cita a inflação de bens industriais semiduráveis, que voltou a acelerar, com destaque para a alta de preços no setor de vestuário.