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    Dogmas do universo do trabalho que a gente quer deixar em 2022

    Últimos anos deram uma chacoalhada na forma das empresas se organizarem e precisamos estar atentos ao que dizem os especialistas

    Dados apontam que a produtividade não tem relação com quantidade de horas no escritório
    Dados apontam que a produtividade não tem relação com quantidade de horas no escritório Headway/Unsplash

    Lia Bockda CNN

    em São Paulo

    Eu sei, todo ano a gente fala em tendências do mundo corporativo para o ano que vai começar e, muitas vezes, as previsões passam a sensação de que são apenas recicladas e, no fundo, parece que a gente está falando sempre a mesma coisa.

    Mas 2023 tem suas especificidades e me parecem interessantes e ousadas algumas das tendências para esse ano que estamos adentrando.

    Os efeitos, aprendizados e avanços gerados com a pandemia; o advento das novas tecnologias e a consolidação de uma visão progressista sobre o mundo do trabalho trazem desafios e demandas interessantes para o universo corporativo de 2023.

    A começar pela rejeição ao retorno ao trabalho 100% presencial – o que mexe bem com as estruturas das empresas. Esse ano, dá para separar direitinho o joio do trigo quando o assunto é manter uma empresa saudável.

    Adivinhem, por exemplo, de que lado está Elon Musk quando diz que funcionários têm que se comprometer com longas jornadas e alta intensidade se não podem “cair fora”? Pois bem, é o mundo pós Elon Musk que me interessa.

    Um levantamento da WeWork entrevistou oito mil profissionais de seis países latinos e mostrou que, antes da pandemia, salário e desafios do cargo eram os maiores atrativos de uma vaga. Agora, o maior atrativo é a flexibilidade. Sim, trabalhar no esquema híbrido ou com 4 (ao invés de 5) dias de trabalho estão no topo da lista de desejos dos funcionários em 2023.

    Hoje, já há dados em abundância provando que a produtividade não tem nada a ver com quantidade de horas que se fica no escritório. Também já sabemos que funcionário feliz é sinônimo de trabalho bem feito.

    Os últimos anos deram uma chacoalhada na forma das empresas se organizarem e, voltar para o ponto de onde paramos é retrocesso. Por isso, vale muito a pena ficar ligado no que estão dizendo os especialistas e estudiosos da área.

    Eu, pessoalmente, gosto das previsões apontadas pela designer organizacional Maíra Blasi, que, com sua teoria da liderança subversiva, vem apontando caminhos tão ousados quanto necessários.

    Ela vem batendo na tecla da importância do descanso (“descanso é direito, não recompensa”) há algum tempo e recentemente lançou junto com as parceiras da consultoria 65|10 a Declaração pelos Direitos Descansistas, que reflete sobre toda a cultura do trabalho (remunerado ou não) e conclama a sociedade a pensar sobre o tema.

    E claro, quando a gente enaltece o descanso estamos acertando em cheio o universo corporativo que tanto insistiu em premissas como “trabalhe enquanto eles dormem” ou em dar preferência (promoção, bônus e pompas) aos que estavam totalmente voltados para os afazeres profissionais.

    O que Maíra insiste (e eu acho maravilhoso!) é que ter vida fora do trabalho, se desconectar e ter outros interesses nos faz pessoas (e consequentemente funcionários) melhores. As empresas que não enxergarem isso podem estar fadadas a manter entre seus trabalhadores apenas aqueles pouco criativos, pouco arejados, pouco inovadores, e muito cansados.

    Entre as frases do universo corporativo que a consultora quer deixar no ano velho estão: “saia da sua zona de conforto”, “salário emocional”, “seu propósito está no seu trabalho” e “quem não é visto não é lembrado”. No geral, tudo que tira a individualidade, não valoriza o trabalho remoto e põe o emprego como a peça fundamental da vida.

    Outra voz que tenho escutado nesse meio e traz boas novas quando falamos em futuro é o pesquisador especialista em novos modelos de gestão, Alexandre Pellaes.

    Com um formato popular que bebe na criatividade das novas gerações, Alexandre posta encenações onde ele mesmo faz todos os hipotéticos funcionários de uma empresa, com destaque claro para a turma do RH, de onde ele vem. Com graça e sátira ele vai mostrando os absurdos e também as conquistas do universo corporativo.

    Em entrevista concedida à CNN, o pesquisador mostrou como o trabalho evoluiu ao longo da história e quais tendências fazem realmente sentido para esse momento pós pandêmico que vivemos.

    Nos conceitos trazidos por Pellaes está clara a necessidade de um novo formato de liderança, que não concentre poder. Mais do que se adaptar ao trabalho de 4 dias, por exemplo, ele aponta que quem não sentar para escutar (os trabalhadores, as pesquisas e os especialistas) ficará para trás.

    Outra dupla que vem fazendo um trabalho de ponta, e que resvala no universo do trabalho com bastante frequência, é Daniela Arrais e Luiza Voll, criadoras da Content.vc. A consultoria se dedica a pensar nossa relação com a internet, mas dada a confusão que essa tecnologia fez entre a nossa vida pessoal e nossa vida profissional, acho justo trazê-la para essa conversa.

    Excesso de conexão é um problema real e pode esmigalhar até mesmo bons profissionais. Tem até uma expressão que gosto muito: fadiga de disponibilidade (o nome é autoexplicativo, não é mesmo?).

    E aí, que tal aproveitar esse auspicioso início de 2023 para repensar esquemas de trabalho, refletir sobre descanso, excesso de conexão, carga horária e esquemas flexíveis?

    E lembre-se, aqui não entram apenas grandes empresas, pequenos negócios e trabalhadores domésticos também devem entrar nessa conversa.