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    Entenda o que é “risco sacado” e como a Americanas pode não ter visto rombo de R$ 20 bi

    Empresa anunciou "inconsistências contábeis" na véspera, o que fez com que o presidente renunciasse após dez dias no cargo e gerasse dúvidas e desconfiança no mercado

    O ex-presidente-executivo da Americanas, Sergio Rial, disse que encontrou alguns sinais relacionados a falhas em identificação de financiamentos bancários
    O ex-presidente-executivo da Americanas, Sergio Rial, disse que encontrou alguns sinais relacionados a falhas em identificação de financiamentos bancários DAVI ROCHA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

    Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    A Americanas divulgou no dia anterior um rombo estimado em R$ 20 bilhões após detectar “inconsistências contábeis” em seu balanço, o que fez com que o presidente renunciasse após dez dias no cargo e gerasse dúvidas no mercado sobre a confiança nas operações feitas com credores e nos balanços divulgados.

    De acordo com um relatório do Bradesco BBI divulgado nesta manhã, a regularização dessas “inconsistências” contábeis pode afetar os bancos credores da empresa. Isso por conta de operações que não são inseridas no balanço das companhias, conhecidas no mercado como “risco sacado” ou “fotfait”.

    Segundo o BBI, são operações que usam os recebíveis de clientes para alavancar a companhia com financiamento nos bancos, com a garantia da empresa.

    À CNN, o economista e professor da FGV Roberto Kanter, especialista em varejo, disse que a prática não é incomum entre as grandes companhias e explicou como ela pode afetar na contabilidade disponibilizada no balanço da companhia.

    “Quando a Americanas faz a compra dos fornecedores, geralmente coloca um prazo bastante dilatado para o pagamento, muitas vezes chega até 180 dias. Como ela compra em grandes volumes, os fornecedores aceitam vender o produto e receber neste prazo. Mas, dentro de uma semana após a venda ser feita, o intermediário financeiro entra em contato com o vendedor e se oferece para adiantar o montante”, afirmou.

    “Como os fornecedores podem ter prazos mais apertados, eles aceitam. E aí a dívida passa a ser com o intermediário financeiro. O que aconteceu foi que em vez de a Americanas lançar em seu balanço como ‘dívidas ao banco’, ela permaneceu lançando como ‘dívida ao fornecedor’, e isso impacta em uma gestão de balanço diferente, principalmente sobre os juros”, acrescentou.

    Um ofício de janeiro do ano passado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já alertava para essa prática, dizendo às consultorias que alertassem as empresas que auditam sobre os riscos dessa operação. A CVM também expôs achar conveniente alertar o mercado sobre as operações que estavam sendo estruturadas.

    A CNN entrou em contato com a PwC, empresa responsável pela auditoria da Americanas, que afirmou “não se manifestar sobre informações de clientes em qualquer cenário ou natureza”.

    Em conferência fechada na manhã desta quinta-feira (12), o ex-presidente-executivo da Americanas, Sergio Rial, disse que encontrou alguns sinais relacionados a falhas em identificação de financiamentos bancários que deveriam ter sido identificados como dívida.

    “Uma das primeiras coisas que me chamou atenção é por que nas cartas de circularização aos bancos isso não aparece como dívida”, disse Rial, fazendo referência aos contratos da Americanas de financiamento voltados ao pagamento de fornecedores.

    A Americanas publicou novo fato relevante nesta quinta-feira (12), que segundo a empresa serve como continuidade da divulgação das inconsistências contábeis do dia anterior.

    No comunicado, a companhia informou que Rial prestou esclarecimentos sobre as inconsistências contábeis encontradas durante uma teleconferência organizada pelo Banco BTG, às 9h. A Americanas também ressaltou não ser possível mensurar os impactos totais, mas declarou que vai informar o mercado em caso de novas descobertas.

    “Reitera-se que, neste momento, não é possível determinar todos os impactos de tais inconsistências na demonstração de resultado e no balanço patrimonial da
    companhia. Somente com a conclusão de trabalhos de apuração e dos trabalhos a serem realizados pelos auditores independentes, após o que será possível determinar adequadamente todos os impactos que tais inconsistências terão nas demonstrações financeiras da companhia”, declarou.

    “A companhia manterá seus acionistas e o mercado em geral atualizados acerca de quaisquer andamentos ou notícias em relação à apuração das inconsistências contábeis”, concluiu.