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    Gargalos da pandemia tornam mudança de meta da inflação justificável, dizem economistas

    Especialistas ressaltam que a alteração pode abrir caminhos para BC cortar juros no futuro, mas que ação deve ser tomada sem pressão política

    Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu a meta de inflação em 3,25% para 2023, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, em meados de 2020
    Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu a meta de inflação em 3,25% para 2023, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, em meados de 2020 Getty Images

    Fabrício JuliãoDiego Mendesda CNN

    em São Paulo

    Em meio às críticas do presidente Lula à política monetária do Banco Central, a discussão em torno de uma nova meta de inflação tem ganhado força, principalmente após o presidente do BC, Roberto Campos Neto, ter sinalizado que poderia aumentar a meta de 3,25% para 3,5% este ano.

    A possibilidade não agradou o mercado, o que é refletido na alta do dólar e queda no Ibovespa, mas economistas dizem que a mudança pode ser uma opção “viável” no momento.

    Para Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, a mudança da meta é uma solução mais apropriada para diminuir a tensão entre o governo e a autarquia, sem que haja atritos mais relevantes e impactos negativos para a economia.

    “Ao que me parece, esta é a via mais fácil para resolver esse imbróglio, pois não acho que o governo vai mudar a lei de autonomia de independência do Banco Central, até porque, dependeria do Congresso, e acho muito difícil passarem isso. Além disso, também acho pouco provável que algo aconteça ao Campos Neto até o fim do mandato à frente do BC, acho que ele fica. Portanto, o caminho mais natural é a mudança da meta da inflação, que realmente é muito baixa”, destacou.

    O economista pontuou ser importante analisar o contexto em que a meta foi estipulada inicialmente. O Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu a meta de inflação em 3,25% para 2023, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, em meados de 2020. Desde então, a demanda reprimida e a oferta em falta em razão das quebras nas cadeias de suprimento pela Covid-19 levaram à escalada da alta dos preços no Brasil e no mundo.

    “Antes da pandemia, estávamos em um período de inflação muito baixa no mundo. Nos EUA, era abaixo de 2%, enquanto no Brasil um pouco mais alta, de cerca de 3% ao ano. Era um cenário de ausência de inflação no mundo, mas, depois da pandemia, isso mudou completamente. Estamos falando de inflação nos EUA e na Europa de 10% ao ano, o que não era visto desde os anos 1980”, explicou Paulo Gala.

    “Para uma economia emergente como a do Brasil, uma meta de inflação de 3% é muito difícil de ser alcançada. O nível de sacrifício é muito alto, os juros têm que ficar lá em cima e estrangular bastante a economia. Então, eu acho que o governo vai se mobilizar e caminhar para uma mudança de meta para o ano que vem, eventualmente 3,5% ou até 4% e, assim, liberar um pouco o Banco Central para fazer uma política monetária mais acomodativa, mais expansionista”, completou.

    Na visão de Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama, a mudança da meta é uma alternativa viável, mas deve ser feita em razão de uma necessidade e com base em análises contundentes, e não por pressão às pressas.

    “Não acredito que seja bom alterar as metas diante de pressões políticas, mas me parece difícil que não ocorra. Mudar a meta porque ocorreu um cataclismo, como uma catástrofe, uma pandemia, é aceitável, mas nesse momento vai parecer casuísmo, parece que é por conta dessa cobrança política, mesmo que não seja”, afirmou o economista.

    Espírito Santo também reforçou que as consequências trazidas pela pandemia são fatores preponderantes para a avaliação de alterações no objetivo-alvo do BC, e considerou ainda alongar o espaço do teto da meta.

    “É bem provável que haja mudanças. A meu ver, se for fazer, o melhor seria alterar pouco o centro, para 3,5%, e voltar com um intervalo maior de cerca de 2%, dando mais graus de liberdade e permitindo uma queda mais para o fim do ano. Agora, nada disso vai adiantar sem a nova regra fiscal: é aqui que as expectativas podem ou não ser mais fortemente afetadas, mais até do que a eventual mudança”, declarou.

    Segundo os especialistas, as indefinições e os ataques de membros do Executivo ao BC contribuem para aumentar as expectativas sobre a inflação em 2023 e 2024, o que seria “um tiro no pé” na estratégia de cortar juros e controlar a alta dos preços futuramente.

    Marília Fontes, sócia-fundadora e analista de Renda Fixa da Nord, avalia que a queda de indicadores de inflação do país deveria estar fazendo com que as expectativas caíssem, o que faria com que o BC tivesse espaço para diminuir a Selic já no segundo semestre deste ano, pois desancoraria as expectativas.

    “Nesse sentido, as expectativas de inflação acabam influenciando muito, porque as empresas reajustam seus preços com base nelas. E as expectativas estão subindo justamente porque o governo está criando atritos com o Banco Central, falando em aumentar gastos, financiar países vizinhos pelo BNDES… tudo isso faz com que o mercado piore as expectativas de inflação”, declarou.

    Nicolas Borsoi, da Nova Futura investimentos, destaca que no cenário atual a Selic deve permanecer estável em 13,75% durante todo o ano de 2023, mas chama a atenção para o impacto do arcabouço fiscal proposto por Haddad, que, se for crível, pode garantir o retorno do superávit primário a partir de 2024 e o controle da dívida pública nos próximos anos, levando a quedas no câmbio e nas expectativas de inflação.

    “Pensando em cenários alternativos, acredito que há dois outros fatores que podem justificar um ciclo de cortes à frente: se os preços globais de commodities cederem devido à expectativa ou o início de uma recessão global. Ou, menos provável, se os bancos centrais dos países desenvolvidos reverterem sua política monetária atual, iniciando o ciclo de cortes no 2º semestre, o que apreciaria o real, abrindo espaço para o Copom reduzir a taxa Selic”, afirmou.