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    Inflação em queda é combustível para crescimento da renda, dizem especialistas

    Efeito da queda dos preços e mercado aquecido com mais empregos formais aumentaram o rendimento médio neste fim de ano

    Pessoas andam em rua movimentada do Rio de Janeiro
    Pessoas andam em rua movimentada do Rio de Janeiro André Coelho/Getty Images

    Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    O mercado de trabalho tem apresentado crescimento em 2022, com aumento da ocupação a partir de mais empregos gerados e rendimento médio subindo novamente, após um período de queda decorrente do pós-pandemia. E a retomada do crescimento da renda no Brasil passa especialmente pelo recuo contínuo da inflação, segundo os especialistas ao CNN Brasil Business.

    De acordo com os dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de setembro, o rendimento real habitual cresceu pelo segundo mês consecutivo, chegando a R$ 2.713 no trimestre. A queda dos preços faz com que esse rendimento avance significativamente acima da inflação, segundo Cosmo Donato, economista da LCA Consultoria e especialista em mercado de trabalho.

    “Pela Pnad ser uma média móvel de três meses, estamos vendo um buffer sobre o rendimento médio, vindo diretamente da queda da inflação, e isso deve se estender até o fim deste ano”, destacou o economista.

    Donato ressaltou que o mercado de trabalho é defasado em relação à atividade econômica e, portanto, as surpresas positivas dos últimos meses e semanas sobre PIB, setor de serviços, indústria e outros indicadores demoram um pouco para se manifestar sobre o ramo.

    “Chegamos em um momento em que além do efeito composição estar sendo menos negativo e de a inflação estar possibilitando altas reais dos salários, temos a atividade contribuindo para o aquecimento do mercado de trabalho”, afirmou.

    “Vemos isso pelo avanço significativo da ocupação e a pressão dos salários para cima. Então estamos entrando em um período que é uma espécie de janela de oportunidades em que há espaço para altas salariais, tanto por conta da inflação e do efeito composição quanto por conta de efeitos defasados da economia aquecida. Isso deve durar pelo menos até metade do ano que vem, que é quando a economia começa a desacelerar e afeta negativamente os salários”, acrescentou.

    Daniel Duque, economista do FGV-Ibre, explicou que o efeito composição se trata das consequências das variações de renda sobre as pessoas que estão inseridas no mercado de trabalho.

    Segundo ele, houve um movimento de aumento da renda sobre as horas trabalhadas durante o período pandêmico, e uma contribuição negativa após a retomada dos serviços, com menos restrições em razão da Covid-19.

    “O efeito composição positivo ocorreu entre aqueles que conseguiram trabalhar de home office, ou com medidas de distanciamento na indústria e alguns setores, mas muitas pessoas tinham ficado de fora do mercado de trabalho. Portanto, aqueles que conseguiram ficar trabalhando durante a pandemia tinham uma renda maior”, disse. 

    “Conforme a ocupação voltou, houve um efeito composição negativo, com muitos informais, pessoas aceitando voltar ao mercado de trabalho ganhando menos, bastante comércio etc. Isso fez a renda média cair, então quem estava trabalhando tinha uma renda menor”, continuou.

    Duque afirmou que agora o cenário é outro, com o efeito composição deixando de afetar negativamente o mercado de trabalho, mas com mais pessoas ocupadas – diferente do que acontecia em 2020, no primeiro ano da pandemia em que muitas pessoas foram desligadas. 

    O contingente de pessoas ocupadas bateu novo recorde na série histórica da Pnad, iniciada em 2012, totalizando de 99 milhões de pessoas.

    “O efeito composição estava contribuindo negativamente mas agora está marginalmente positivo, e isso vai continuar ou ficar próximo de zero no médio prazo”, completou Duque. 

    Para Hélio Zylberstajn, professor de economia da Universidade de São Paulo, a mudança no efeito composição passa também por uma expansão no mercado de trabalho formal, com mais pessoas empregadas e com salários melhores.

    “Quem está entrando agora ganha em média mais do que aqueles que já estavam trabalhando. Mas por que isso? Porque os novos postos de trabalho estão menos informais. Boa parte desses trabalhadores formais são empregadores ou autônomos com CNPJ, e isso puxa para cima o rendimento dentro deste conceito mais amplo de formalidade”, pontuou.

    Zylberstajn ainda reforçou que o período atual tende a compactuar com um mercado mais aquecido, com datas comerciais que movimentam a economia e são propulsoras de empregos.

    “O mercado de trabalho está mostrando um ímpeto surpreendente. O fim do ano é sempre um período bom para o trabalho, com Dia das Crianças, Black Friday e Natal ocasionando um comércio muito ativo e, dessa forma, proporcionando um crescimento dos serviços e da indústria, que têm que atender a demanda”

    O economista afirmou que até novembro o mercado de trabalho deve continuar aquecido, passando a desacelerar a partir de dezembro. Para o ano que vem, “ainda pairam muitas interrogações, com decisões sobre manutenção dos juros, gastos do governo e possíveis novas medidas econômicas”, segundo o professor.