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    Juros altos, baixo retorno e inflação impulsionaram saques de fundos em 2022, dizem analistas

    Setor teve saída líquida de R$162,9 bilhões neste ano, ante recorde de captação líquida registrado em 2021, de R$ 412,5 bilhões, segundo dados da Anbima

    Foto: Austin Distel/Unsplash

    Fabrício JuliãoDiego Mendesda CNN

    em São Paulo

    O setor de fundos de investimentos em 2022 não teve o mesmo desempenho positivo do ano anterior, com saída líquida (diferença entre aplicações e retiradas) de R$162,9 bilhões, ante o recorde de captação líquida registrado em 2021, de R$ 412,5 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

    O movimento, na visão dos analistas consultados pela CNN, pode ser explicado pela escalada da Selic no período, que foi a 13,75% ao ano, e às incertezas elevadas tanto no cenário nacional quanto no internacional.

    Para Flávio Conde, head de renda variável da Levante Investimentos, a alta dos juros fez com que os produtos de renda variável não fossem tão atrativos comparados a investimentos mais conservadores.

    “Com a subida da Selic, os fundos se tornaram menos necessários para conseguir um bom rendimento. Os investidores pensaram: ‘não preciso deles para me ajudar no momento, não preciso pagar taxa de administração, a renda fixa pode me garantir um rendimento satisfatório e mais seguro”, destacou. 

    A Selic atingiu os dois dígitos no início de 2022, quando o Copom decidiu elevar a taxa para 10,75% ao ano no segundo dia de fevereiro, na primeira reunião do ano. O comitê continuou com sua política monetária mais agressiva de alta até 3 de agosto, quando aumentou a Selic para 13,75% a.a., deixando-a no mesmo patamar desde então.

    “Não podemos falar sobre o ano passado sem olhar para o histórico do brasileiro quando o assunto é investimento. Temos um passado de renda fixa muito forte, mas desde 2016 vivemos um movimento de queda dos juros, o que levou o brasileiro a investir mais no exterior e em aplicações de maior risco”, explicou Nicolas Borsoi, economista chefe na Nova Futura Investimentos.

    Segundo os especialistas, com a dinâmica da consolidação da Selic em 13,75% e a expectativa de que ela não sairá dos dois dígitos tão cedo, agentes do mercado financeiro acabaram revendo suas posições para produtos mais atrativos.

    “Tesouro Direto, CDBs, debêntures incentivadas, todo esse tipo de produto ficou muito atrativo. Portanto, devido à rentabilidade já seria um ano muito difícil para os fundos de investimento”, disse Borsoi. 

    Mudança nos ativos

    O economista ainda ressaltou as incertezas que rondaram 2022, tanto no âmbito nacional, com eleições e riscos fiscais, quanto no cenário internacional, com desaceleração da economia, estouro da guerra na Ucrânia e indefinição na China pela política de “Covid zero”.

    Já Flávio Conde sinalizou a alta da inflação como um dos fatores preponderantes para o aumento do resgate líquido de fundos no ano anterior. “O aumento dos preços, sobretudo de alimentos, fez com que as pessoas tivessem o poder de compra reduzido e, assim, elas foram obrigadas a sacar dinheiro”, explicou. 

    Para Guilherme Cadonhotto, estrategista da Spiti, a explicação para os fundos de investimento no Brasil estar sofrendo tantos resgastes se dá, primeiramente, pela performance.

    Cadonhotto diz que se analisar os principais índices que tem risco de mercado no Brasil, ou seja, que tem oscilações, todos ficaram atrás do CDI, principal benchmarking de referência no país. “O Ibovespa, IFIX, outros índices de renda fixa, ficaram abaixo desta taxa”.

    Segundo ponto tocado pelo estrategista é a percepção de risco. “A volatilidade dos ativos nos últimos meses está aumentando. Isso faz as pessoas procurarem títulos mais seguros”, aponta.

    Por fim, Cadonhotto destaca a renda dos brasileiros. “Segundo a Pnad, a renda média das pessoas no Brasil está estagnada desde 2018. Logo, com o aumento do custo de vida, os investidores acabam tendo que retirar uma parte de suas economias para fazer frente às despesas”.

    Os especialistas salientaram a incapacidade da indústria de fundos de entregar bons resultados no ano, o que afastou investidores. “Estamos falando de um produto que é caro, então o esperado por aqueles que apostam nele é que tenha um rendimento muito bom, o que não foi o caso”, declarou Borsoi.