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    Juros altos e cenário econômico deixam mercado de venture capital mais seletivo

    Startups adaptam estratégia para concorrer com renda fixa na conquista por investidores

    No ano passado, o mercado de venture capital investiu R$ 46,5 bilhões, apontou os dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital
    No ano passado, o mercado de venture capital investiu R$ 46,5 bilhões, apontou os dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital Pixabay

    Artur Nicocelido CNN Brasil Business

    em São Paulo

    Os chamados pitchs, apresentações para conquistar investidores via venture capital (VC), é uma das etapas mais importantes para empreender em uma startup. Durante esse momento que os idealizadores de um negócio precisam mostrar os diferenciais e a sustentabilidade da nova empresa – e convencer os investidores.

    Mas o cenário econômico, que ajudou a colocar as a taxa de juros no Brasil perto dos 14%, deixou os investidores – ainda-  mais seletivo na hora de fazer suas apostas, já que o custo de capital está mais caro.

    Após a taxa Selic bater os dois dígitos, os empreendedores passaram a disputar os recursos com a renda fixa, por exemplo, que se tornou mais atrativa aos investidores do que companhias – consideradas negócios de alto risco.

    Com isso, o grande desafio para os empreendedores agora é melhorar o pitch, se mostrando uma empresa mais sólida, com números próximos a de empresas saudáveis, um desafio para quem está dando os primeiros passos.

    A mudança no plano estratégico ocorreu porque, em um momento de recessão econômica no radar, buscar ativos que tenham emissores mais seguros, com rendimento atrelado a indicadores que evitam desvalorização e que não necessitam de gestão operacional arriscada, por exemplo, acaba chamando mais a atenção dos investidores.

    Como as startups são conhecidas por buscarem capital para conseguir produzir o determinado produto até se tornar um PMV (Produto Minimamente Viável) e manter a estrutura enquanto não tem faturamento, acabam ficando menos interessantes.

    Na sequência, as companhias precisam ter dinheiro até chegar no break-even, momento que a receita de uma empresa consegue superar os débitos, diz Fernando Wagner, sócio e líder de venture capital da Crescera Capital.

    “A somatória de todas essas dificuldades aponta para um investimento de alto risco”.

    Em geral, os principais números que os investidores olham são: lucro, ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), receita, dívidas, aspectos operacionais e risco tecnológico.

    Agora, para enxergar uma oportunidade, o mercado – que passou a ser mais criterioso – começou a olhar métricas de sustentabilidade de crescimento, principalmente sobre quando o break-even será alcançado e o burn-rate, quanto a startup gastará do montante de venture capital para financiar as despesas até gerar um fluxo de caixa positivo, explica o sócio da Crescera Capital.

    Fernando Wagner então sugere que os empresários procurem por caminhos que façam seu negócio se encaixar no perfil de baixo risco. “Para isso, os empresários precisam fazer com que seus negócios sejam mais rentáveis; contratando funcionários somente quando for necessário, não pagar salários exorbitantes e tomar cuidado com os gastos no marketing”.

    “Para cada real gasto, é preciso saber quanto está retornando de receita”.

    O especialista afirma ainda que nesse momento de alta da taxa Selic, nenhum investidor vai alocar capital em uma empresa que tem riscos altos de entrar em falência ou quebrar.

    Bernardo Brites, CEO da Trace Finance, por sua vez, recomenda que os empreendedores se aproximem dos fundadores de outras startups, visando trazer investidores anjos – pessoa física ou jurídica que faz investimentos com seu próprio capital em empresas novas –  ao negócio.

    “Eles (investidores anjos) também podem ser seus primeiros clientes e te apresentar para outros investidores. Mapeie quem investe na vertical do seu negócio, prefira sempre uma introdução por um contato comum acima de uma cold call (ligação de negócios sem nenhum contato pessoal antes)”.

    Pós-pandemia

    Durante a pandemia o Brasil teve um cenário de muita liquidez, com as taxas de juros globalmente baixas, o que trouxe muito dinheiro para o país e o capital para os empreendedores ficou mais acessível. Já no final de 2021 e início de 2022, com a taxa Selic acima dos dois dígitos, o acesso ao crédito ficou mais difícil.

     

    Brites avalia que o mercado de venture capital passa por um momento de entre safras. “Está ocorrendo um alinhamento das expectativas e da precificação [dos investimentos]. Os fundos têm dinheiro para investir, mas não querem pagar os mesmo preços da euforia de 2021”.

    À época, com os juros baixos e maior injeção de capital no país por parte do Banco Central, diversos investimentos foram realizados no mercado, “com valuations totalmente surreais. O que, depois de alguns meses, resultou nas demissões em massa que observamos nas últimas semanas pois, as companhias não conseguiram suprir os custos que tiveram e a solução foi cortar funcionários”, destaca Wagner.

    O valuation (ou em português, avaliação de empresas) é o valor de um empreendimento. O cálculo desse número é baseado na soma de seu valor presente com a capacidade financeira que ela representa para o futuro.

    A conta possibilita que a gestão identifique aspectos positivos do negócio, que o diferenciam no mercado, assim como aqueles que estão menos atrativos e que precisam de mais investimento em melhorias. Além de auxiliar na definição de estratégias mais assertivas para o negócio e de permitir o acompanhamento dos números e resultados, disse a companhia BWG.

    Em 2021 o mercado de venture capital investiu R$ 46,5 bilhões, apontou os dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). O número é 218% maior que o investido em 2020.

    “2021 foi um ano incrível para as startups e, em 2022, há uma correção desse contexto. A lógica que antes era ‘crescer a qualquer custo’ agora é ‘crescer de forma saudável, buscando ser lucrativo quanto antes’”, diz Brites.

    No primeiro semestre desse ano, o valor foi de R$ 6,4 bilhões, o valor é 27% que o investido no mesmo período do ano anterior, de R$ 8,8 bilhões.

    Ainda que os investidores estejam mais seletivos, um estudo da Lavca (Associação de Investimento em Capital Privado na América Latina) apontou também que  2022 já é o segundo maior ano para investimento em venture capital na região latino-americana, atrás apenas de 2021. E o Brasil é o maior mercado de investimento de VC na região no primeiro semestre de 2022, com US$ 2,2 bilhões investido em 232 transações.

    “A evolução [do mercado de venture capital na América Latina] é gradual, mas constante […] Isso pode ser visto pelo aumento significativo do financiamento para fundadores e empresas lideradas por mulheres, bem como o um dinheiro substancial para investir em oportunidades, os chamados dry powder (capital disponível para ser investido e que ainda não foi usado) para apoiar as early-stage (startups em estágio inicial)”, disse Carlos Ramos de La Vega, diretor de Venture Capital da Lavca.

    A pesquisa mostra ainda um aumento nos investimentos em startups lideradas por mulheres – ou com, pelo menos, uma no conselho -, que passaram de 16% em 2019 para 31% em 2022, o que equivale a um terço do valor total investido na América Latina.

    “A lacuna de diversidade no mercado de Venture Capital é um reflexo da nossa sociedade e do mercado de tecnologia como um todo. Precisamos ter um olhar intencional para o setor e buscar mais diversidade quando se trata de direcionar investimentos”, disse Franklin Luzes, vice-presidente de Inovação, Transformação e Startups em fase de crescimento acelerado na Microsoft Brasil.

    Segundo dados do Female Founders Report 2021, quando se trata de empreendedorismo tradicional, 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. No entanto, no ecossistema de inovação, onde os empreendimentos têm foco em tecnologia, essa representação é de apenas 9,8%.

    Rodadas

    No começo deste ano, a Gavea Marketplace, agtech que atua como uma bolsa de commodities em blockchain levantou via venture capital R$ 23 milhões.

    Para conquistar a rodada, os empresários da Gavea focaram seu pitch nos números de crescimento, na tecnologia blockchain e na possibilidade de internacionalizar a operação da companhia. A rodada de capital foi liderada pela gestora Astella.

    O montante foi usado para gerar crescimento em volume e escala de negócio, com a ampliação de questões ESG (Governança ambiental, social e corporativa, em português), além do lançamento de um crédito tokenizado. A ideia da empresa é oferecer matérias-primas brasileiras para a Europa e a Ásia.

    Na Parfin, voltada as soluções seguras de custódia, negociação e gestão de criptoativos, o CEO Marcos Viriato conta que na última rodada, em dezembro de 2021, quando levantou R$ 34 milhões, a estratégia foi destacar aos então potenciais investidores a recorrência de receita, escalabilidade do negócio e potencial de atuar globalmente.

    O montante foi usado para a expansão do time, principalmente na área de tecnologia. Hoje, a companhia tem funcionários no Brasil, Reino Unido, Portugal e outros países.