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    Ações da Petrobras em crises do petróleo, política e COVID-19: valem a pena?

    Ações da petroleira perderam 40% no ano, para uma queda de 30% no Ibovespa; para analistas, papel ficou barato

    Funcionários na plataforma P-50, da Petrobras, na Bacia de Campos 
    Funcionários na plataforma P-50, da Petrobras, na Bacia de Campos  Foto: REUTERS/Bruno Domingos

    Juliana Elias

    do CNN Business, em São Paulo

    O choque do coronavírus na economia e nos mercados afetou como uma metralhadora empresas de todos os tamanhos e todos os setores. Para a Petrobras, a companhia historicamente mais negociada na bolsa de valores brasileira, a pandemia é só uma parte da história. 

    A petroleira ainda enfrenta uma das piores crises no preço do petróleo em décadas, em meio a desacordos entre os grandes produtores globais. Em um mês, o barril do petróleo despencou a menos da metade, da casa dos US$ 60 para menos de US$ 20, valor em que não se acomodava desde os anos de 1990.

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    Além disso, as ações da mais famosa estatal brasileira também são as primeiras a reagirem a turbulências políticas, como o pedido de demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, na semana passada. Para ela, a pandemia se desdobrou em uma crise tripla: o impacto na economia da crise de saúde, a menor demanda em décadas por petróleo e a piora do cenário político doméstico.

    O resultado, como não poderia ser diferente, são ações que derreteram. Os papéis da estatal despencaram 40% desde o início do ano – eram negociados na faixa dos R$ 30 em janeiro, e agora flutuam em torno dos R$ 18. No mesmo intervalo, o Ibovespa, principal índice da bolsa, caiu 30%. 

    Em meio a tanta turbulência, ainda vale ter – e comprar mais – ações da empresa tradicionalmente mais recomendada em todas as carteiras de investimentos do país?

    Para analistas consultados pelo CNN Business, a resposta é sim. O entendimento geral é de que tanto a epidemia quanto o desconto monstruoso no preço do petróleo não vão durar para sempre, e no médio a longo prazo, o valor da ação tende a se recuperar. A recomendação, entretanto, não é feita sem a ressalva de que não há riscos de novas surpresas e outras reviravoltas de preços. 

    “Ela ficou sem dúvida muito barata”, diz Pedro Galdi, analista da Mirae Corretora. “Quem não tem pode comprar, quem tem não deve vender agora e quem comprou há pouco tempo e perdeu dinheiro pode comprar mais, para ficar com um preço médio de compra mais baixo.”

    O preço justo para a ação da Petrobras hoje, nas contas da Mirae, seria de R$ 25,55 (para os papéis preferenciais, PETR4). A conta considera fatores como o potencial de receita, lucro e o nível de endividamento, já recalculados com os efeitos da crise. É menos do que os R$ 30 em que vinha sendo negociada no início do ano, mas bem mais – 41% mais, precisamente – do que os R$ 18 atuais.

    “A ação dela já estava barata antes da crise”, disse o analista Bruce Barbosa, sócio da Nord Research. Para ele, os R$ 30 da cotação pré-crise deveriam ser mais próximos dos R$ 45. Para isso, Barbosa olha para o valor da ação em relação ao Ebitda, uma medida contábil do lucro antes do pagamento de juros, impostos, depreciação e amortização. “Antes da crise, esse múltiplo estava em 4 vezes o Ebitda, o que, para uma empresa de commodity é muito barato”, disse. Para a Vale, por exemplo, o mesmo múltiplo é de 7,6. 

    Com a crise econômica e o petróleo em liquidação, os níveis de receita da Petrobras deverão ser outros agora, também mais baixos. Mas, de acordo com Barbosa, a redução não será na mesma magnitude com que se deu a queda das ações. “O ‘preço ideal’ não será os mesmos R$ 45 de antes, mas é certamente mais alto que o de hoje”, disse. 

    O petróleo mais barato do século

    Por trás de todos os recálculos está o choque sem precedentes na indústria do petróleo, que fez o preço do barril despencar dos US$ 60 em que vinha girando no início do ano para menos de US$ 20 em março. É uma redução na veia da principal fonte de receitas da Petrobras, e nem mesmo a alta de 30% do dólar compensa totalmente.

    “Só nos anos de 1980 e 1990 o petróleo custou menos do que isso, o que funcionava para os valores da época”, disse o economista Walter de Vitto, analista de energia da Tendências Consultoria. “Mesmo nos piores momentos após a crise de 2008, quando o barril foi ao nível de US$ 30, não se chegou a tanto.” Em 2011, no auge do mercado, o barril do petróleo chegou a ser comercializado a US$ 120.

    Uma guerra de preços entre Arábia Saúdita e Rússia, no início de março, que já tinha feito as cotações afundarem, foi piorada pelo alastramento da epidemia de coronavírus para fora das fronteiras da China. A pandemia trancou meio mundo em casa e dilacerou a demanda por combustíveis.

    A estimativa é que, em abril, a procura por petróleo tenha caído em cerca de 30% – “é algo próximo de 30 milhões de barris por dia a menos, o equivalente à produção inteira da Opep”, diz Vitto. Atualmente, são 13 países que fazem parte da OPEP, sendo a Arábia Saudita o mais representativo deles. Juntas, essas nações representam cerca de 80% das reservas mundiais de petróleo.

    O consenso, entretanto, é que, mesmo que longo, o choque não será duradouro, e tanto a demanda por petróleo quanto o preço do barril devem voltar a se ajustar. É daí que vem o otimismo de que a Petrobras não ficará presa para sempre em um mundo onde seu produto vale muito pouco – não à toa, no fechamento desta quarta-feira (29), as ações da petroleira saltaram 5,5%, junto à disparada de preço nos contratos futuros do petróleo nos mercados internacionais. 

    “Haverá um ajuste de oferta; os grandes produtores vão cortar produção e os menores vão quebrar”, disse Vitto. “Com isso, o preço deve voltar muito lentamente, mas não deve retomar o patamar que tinha antes [de US$ 60 a US$ 70] até o fim de 2021.”

    Limite de US$ 10 por barril

    O problema de petróleo muito barato é que ele começa a desequilibrar o mercado: só os produtores com muita escala ou custos muito baixos de extração, como nos fartos campos do Oriente Médio, conseguem continuar operando. Muitos só se viabilizam quando o valor do barril está mais alto. 

    Nas quedas prolongadas, estes congelam investimentos, fecham as portas, a concentração nas mãos dos grandões aumenta e, em um segundo momento, o barril volta a ficar caro. Por outro lado, petróleo caro por muito tempo faz mais países e empresas quererem entrar no jogo, além de estimular o desenvolvimento de outras fontes de energia. A Opep sabe disso tudo – e é daí que vem o jogo constante de preço e de aumento ou corte de produção que o bloco faz de tempos em tempos.

    Com um barril na faixa inédita dos US$ 20, os pequenos e médios exploradores que surgiram no novo mercado dos Estados Unidos, em torno do petróleo de xisto, são os primeiros da fila para  quebrarem. 

    Para a Petrobras, além da estrutura gigantesca que já a segura, a boa notícia é que
    os campos da brasileira no pré-sal são extremamente produtivos. De acordo com os analistas, seu custo médio de operação é atualmente de cerca de US$ 10 por barril. Isso significa que, mesmo a margens apertadas, ela segue funcional a não ser que o preço tombe para baixo disso.