Nova tradução de Memórias Póstumas de Brás Cubas tem edição esgotada nos EUA

Lançamento da nova tradução para o inglês aconteceu em meio a protestos contra discriminação racial e impulsionado por prefácio badalado

Da CNN
12 de julho de 2020 às 04:53
O escritor Machado de Assis
Foto: Senado/Reprodução

Os protestos contra a morte de George Floyd tinham acabado de completar sete dias nos Estados Unidos – e continuariam levando norte-americanos às ruas em cidades de todo o país por semanas – quando o livro de um autor brasileiro foi lançado.

Não era exatamente um lançamento. O autor morreu há 112 anos e o romance foi lançado em 1879.

Resultado: a edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Asssis, lançado nos EUA pela Penguin Classics esgotou-se em um dia. Nesta semana, já é possível comprar o livro no site da editora, tanto na versão impressa quanto na digital. 

O Memórias Póstumas de Brás Cubas lançado pela Penguin Classics, ou The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, como ficou a edição norte-americana, foi traduzido pela americana radicada no Brasil Flora Thomson-DeVeaux, que também assinou a introdução e é responsável pelas notas explicativas sobre o clássico de Machado. O livro tem prefácio assinado pelo escritor e editor David Eggers.

"Tem algumas coisas que diferenciam a tradução já a partir da embalagem, dá para dizer que é a primeira tradução anotada em língua inglesa", explica Flora. Em uma conversa com a Agência Brasil, ela disse que o prefácio pode ter contribuído para Memórias Póstumas ter se esgotado em um dia nos Estados Unidos em meio a uma pandemia e a protestos raciais.

O prefácio de Eggers foi publicado, antes do lançamento da tradução, na prestigiosa revista The New Yorker, que já teve entre seus colaboradores autores como Truman Capote e J.D. Sallinger. Outro fator, na opinião de Flora, também é a vontade do leitor dos EUA em procurar autores não brancos e que não façam parte do cânone norte-americano.

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"Isso que eu digo de ter um momento em que as pessoas estão procurando se informar, o movimento de descolonizar o cânone, ler mais autores negros, mas eu não tenho certeza de que esse teria sido o principal motivo de as pessoas procurarem o romance. Quando a pessoa compra, ela não preenche um formulário explicando por que comprou. Está aí um mistério", afirma a tradutora.

A tradutora também falou sobre a dificuldade de traduzir Machado de Assis e também por que aquele que é considerado o maior escritor da literatura brasileira não tem o mesmo reconhecimento no resto do mundo. “Certamente a demora na tradução não ajudou. Ele chega na língua inglesa com quase 70 anos de atraso”, disse Flora. “A gente está tentando recuperar esse atraso até hoje.”

(Informações da Agência Brasil)