Corrupção e banimento do futebol: os escândalos envolvendo Ricardo Teixeira


Da CNN Brasil, em São Paulo
15 de março de 2020 às 00:26 | Atualizado 15 de março de 2020 às 18:06

O maior caso de corrupção da história da Fifa (Federação Internacional de Futebol) foi o início do fim do reinado de Ricardo Teixeira, que entre 1989 e 2012 comandou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e foi o homem mais poderoso do futebol nacional. 

Foi Teixeira quem ampliou o alcance da seleção brasileira como negócio global, através de oportunidades vantajosas de amistosos e com um dos maiores contratos de fornecimento de material esportivo da história. 

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Porém, tudo isso veio às custas de acordos pouco claros, que transformaram a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em um grande balcão de negócios. 

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, Teixeira negou envolvimento com a corrupção no futebol, assim como a proximidade com o espanhol Sandro Rosell, de quem teria recebido propina ligada a contratos de jogos da seleção brasileira. 

Em 2019, a Fifa decidiu pelo banimento de Ricardo Teixeira do futebol. Segundo investigação interna, o ex-cartola recebeu R$ 32,3 milhões em propinas pelos contratos de transmissão da Libertadores, Copa América e Copa do Brasil. Conheça os escândalos que levaram à derrocada Teixeira. 

  

Fifagate 

O maior escândalo de corrupção do futebol internacional atingiu Ricardo Teixeira, mas não o fulminou de imediato.  

Toda a história começou com a escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022, na Rússia e Qatar, respectivamente. A Fifa vinha sendo assolada por diversas denúncias de corrupção que começaram com contratos fraudulentos com a ISL, empresa de marketing esportivo que comprou os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, cujos relatórios indicando ilegalidades foram revelados pela Justiça suíça apenas em 2012.  

Diante da repercussão negativa, a própria Fifa resolveu criar um comitê de ética e um comitê de investigação para apurar as escolhas das Copas no Qatar e Rússia. Quem ficaria encarregado das investigações seria um ex-promotor da cidade de Nova York, Michael Garcia, que descobriu na pele que a própria organização não buscava esclarecer a escolha. Seu relatório nunca foi divulgado, e Garcia pediu demissão. O problema é que antes de sair, o ex-promotor envolveu autoridades americanas na investigação, o que desencadeou um efeito em cadeia no futebol mundial.   

A legislação americana prevê que suas entidades podem investigar qualquer caso que envolva instituições dos Estados Unidos, seja pelo uso de um banco ou de um servidor cuja sede esteja no país. Foi assim que o FBI iniciou uma devassa nas contas de Jack Warner, ex-presidente da Confederação de Futebol das Américas Central e do Norte (Concacaf), e acharam o rastilho de pólvora que iria chegar ao maior escândalo de corrupção do futebol.   

Na investigação de Warner, surgiu o nome de Chuck Glazer, ex-secretário-geral da Concacaf. Seus crimes de lavagem de dinheiro e receptação de propina fizeram com que ele fechasse acordo de delação premiada com a Justiça americana. Foi a senha para a investigação se tornar internacional com a cooperação da Justiça suíça, uma vez que a sede da Fifa fica na cidade de Zurique.   

As investigações feitas por Estados Unidos e Suíça descobriram um extenso histórico de pagamento de propinas, em especial para a escolha do Qatar como sede em 2022, em votação realizada em 2010. Naquela época, o presidente da CBF era Ricardo Teixeira, e as investigações concluíram que ele foi um dos que recebeu propina para votar a favor do país do Oriente Médio. Teixeira foi indiciado pelas Justiças suíça e americanas, mas o histórico de não extradição de seus cidadãos pelo Brasil fez o dirigente se autoexilar no país.   

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, o cartola disse ter sido alvo de retaliação do Departamento de Justiça do governo norte-americano por ter apoiado, em 2010, a candidatura do Qatar à Copa de 2022 em detrimento dos Estados Unidos.

Apesar de ter passado "ileso" pelo escândalo do Fifagate — que prendeu diversos dirigentes, incluido José Maria Marin, sucessor de Teixeira na CBF — as investigações elucidaram outros casos de Teixeira. 

 

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Rosell: corrupção em dois atos   

Um dos desdobramentos do Fifagate foi a operação Jules Rimet, realizada pela Justiça espanhola em parceria com a Justiça de Andorra, que prendeu o ex-presidente do Barcelona e da Nike no Brasil, Sandro Rosell.   

Rosell foi um dos principais responsáveis pela expansão da seleção brasileira como um produto global ao tornar a Nike fornecedora de material esportivo da equipe, em um contrato de US$ 160 milhões mediado por ele.    

Mais do que isso, Rosell era extremamente próximo a Ricardo Teixeira, presidente da CBF na época do acordo, a ponto de ter sido padrinho de seu segundo casamento.    

O contato com Teixeira e a CBF se manteve ao longo dos anos, e uma das acusações da Jules Rimet dizia respeito justamente à confederação: segundo a investigação, o espanhol tinha contratos de fachada com a CBF para desviar dinheiro, ganhando cerca de US$ 500 mil por partida da seleção. Até mesmo a filha de Teixeira, ainda criança, teria sido usada como laranja para o recebimento de propinas milionárias repassadas por Rosell entre 2011 e 2012, segundo reportagens do jornalista Juca Kfouri, do UOL, e dos jornais The Telegraph, da Inglaterra, e Bild, da Alemanha. 

Já em 2018, a Unidade de Delinquência Econômica e Fiscal da Espanha concluiu que Teixeira e Rosell atuavam juntos em esquema de lavagem de dinheiro relacionado a contratos entre CBF e Nike. Cerca de US$ 26 milhões foram pagos a Rosell por ter mediado o contrato entre a CBF e a Nike. Deste valor total, Teixeira teria ficado com US$ 5 milhões. Segundo o jornal espanhol El Confidencial, o contrato que gerou estes valores eram válidos de 2008 a 2011.  

 

Traffic  

O contrato histórico de US$ 160 milhões entre CBF e Nike foi, na verdade, maior que o divulgado. Cerca de US$ 40 milhões extras foram receptados pela empresa de marketing esportivo Traffic e descobertos em investigação do FBI.    

Três dias depois do acordo entre a confederação e a Nike, um novo contrato foi firmado. Neste, a CBF autorizava a Traffic a dar recibos à Nike "diretamente por taxas de marketing pela negociação bem-sucedida e a performance da empresa".  

Segundo investigação do Ministério Público dos EUA, o então dono da Traffic, José Hawilla (1943-2018), pagou a Teixeira "metade do dinheiro que ganhou no negócio de patrocínio, totalizando milhões de dólares, como propina e suborno".   

O caso veio à tona em 2000 e se tornou assunto no Congresso, que instaurou a CPI do Futebol para analisar os contratos da seleção brasileira. A investigação não trouxe resultados. 

Parceira constante da CBF na era Ricardo Teixeira, a Traffic conseguiu os direitos de comercialização da Copa do Brasil entre 1990 e 2009 através de pagamentos a Ricardo Teixeira, segundo o FBI. 

Hawilla fez acordo de delação premiada com autoridades americanas. Confessou extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, obstrução da justiça e concordou em devolver US$ 151 milhões.