Para Joanna Maranhão, há possíveis casos de abusos subnotificados


José Brito Da CNN, em São Paulo
17 de outubro de 2020 às 18:17 | Atualizado 17 de outubro de 2020 às 22:09

Desde 26 de junho de 2018, a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) possui um Comitê de Ética e Integridade com um canal online para envio de relatos de violação do Código de Ética, como abusos sexuais de atletas. A organização recebeu duas denúncias, sendo uma delas, em março de 2019, com relação a abuso ou assédio. 

Para uma das maiores nadadoras brasileiras, a pernambucana Joanna Maranhão, não há dúvidas de que, desde 2018, aconteceram mais casos de abusos sexuais. Em entrevista à CNN, ela diz que já recebeu denúncias por mensagens privadas em suas redes sociais e explica a importância do apoio a quem decide denunciar um abuso sexual.

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“Quando a gente transpõe essa barreira de quebra de silêncio, eu vou falar o que aconteceu comigo, vem uma vontade e uma força muito grande, eu vou falar, eu vou denunciar. Só que tem desdobramentos disso que são as pessoas perguntando: ‘Por que é que só tá falando disso agora?’, ‘Qual é a prova que você tem?’, ‘Será que você não está fazendo isso para querer destruir a vida do outro’?. E isso te desmorona, para uma vítima, porque criar a coragem de falar é algo que requer muita força, então tudo que você espera depois que você fala, é que as pessoas te acolham. E existe acolhimento, mas existe muita porrada também. Então eu sempre deixo muito claro para as meninas que vêm falar para mim de casos que sofrem, de que elas tenham uma rede de apoio para esse momento”, explica.

Joana Maranhão fala sobre abusos na natação

Joana Maranhão fala sobre abusos na natação

Foto: Arquivo pessoal

Joanna deu as suas primeiras braçadas nas piscinas aos três anos, seguindo o irmão, no Clube Português, no Recife. E foi ainda na infância, em 1996, que a pernambucana diz ter sido abusada por seu ex-técnico, Eugênio Miranda. Ela conta que foram anos de terapia para tratar depressão, pânico e traumas que teriam sido consequências disso. “Quando eu fui ficando adolescente, eu fui desenvolvendo algumas fobias. Eu tinha fobia de ficar só em quarto, eu não queria ser reconhecida na rua enquanto menina, então eu usava roupa muito folgada, corte de cabelo mais masculino, eu tirava brinco porque para mim assim, as pessoas terem dúvida se eu era menina ou menino é uma segurança para mim, sabe?”, conta.

Ela diz que recebeu várias mensagens de outras sobreviventes de abusos no mundo da natação e acredita que o grande problema é que, na maioria das famílias, não existe uma conversa com crianças sobre os seus corpos, assédio e quando procurar ajuda, além de uma rede de apoio para o momento após a denúncia.

“O abusador não é o cara com o boné que está passando na rua, ele é a pessoa acima de qualquer suspeita. Ele é a pessoa que quando a criança falar, vai gerar uma desconfiança, porque geralmente é uma pessoa muito meiga, muito carinhosa, que faz a criança se sentir especial. E eu fui mais uma criança que não tive esse diálogo em casa. Então, em um primeiro momento eu pensei ‘será que eu deixei o meu maiô muito cavado e eu dei algum sinal de que ele poderia fazer isso?’”.

A ex-nadadora classifica como imensurável o número de atletas brasileiros da natação que estão em silêncio e traumatizados após serem vítimas de abusos sexuais no esporte. “Só de pensar na possibilidade de a gente abrir essa ‘Caixa de Pandora’, eu já tenho uma crise de ansiedade aqui, eu estou com o coração batendo mais rápido, porque a gente fala muito pouco. Aconteceu comigo em 1996, eu fui falar, em 2008. Nesse ‘gap’ aí, esses abusadores, enquanto eles não são pegos, eles continuam abusando dessas crianças”. 

Procurado pela reportagem, Eugenio Miranda não quis dar entrevista, alegou ser inocente das denúncias de abuso e confirmou que foi contratado por Alexandre Pussieldi para trabalhar no Clube Português. “A única coisa que eu tenho para lhe dizer é que isso pra mim já está enterrado e eu não tenho nada para falar com ninguém sobre isso. Quem sou eu para falar de qualquer pessoa? Para mim, esse caso está enterrado e eu não tenho nada a falar com quem quer que seja. Eu não posso falar nada de ninguém não”, disse, antes de encerrar a ligação telefônica.

Em nota, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos diz que possui um conselho de ética, pelo qual passaram nos últimos anos como membras atuantes, por exemplo, a própria Joanna Maranhão e ex-atletas como Fabíola Molina, que depois saíram por questões particulares. Hoje a vice-presidente do Conselho de Ética é a Mariana Brochado. “A CBDA estimula que os casos sejam submetidos ao Conselho, com sigilo garantido, e faz a preciosa análise de todas as denúncias apuradas, executa julgamentos e toma as sanções cabíveis, como foi o caso de duas punições recentes”, dizem.