Copa América: especialistas apontam falhas em protocolos contra Covid-19

Pesquisadores alertam que regras da Conmebol não são suficientes para evitar transmissão do vírus durante o torneio no Brasil

Foto: Reprodução/Twitter/Conmebol

Paula Martini, da CNN, no Rio de Janeiro

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A poucas horas do início da Copa América, as medidas sanitárias publicadas pela Confederação Sul-Americana de Futebol ainda geram dúvidas e críticas de especialistas em saúde pública no Brasil.

A Conmebol estabeleceu uma série de regras de diagnóstico e testagem, além da concentração de equipes e jogadores em bolhas sanitárias de isolamento. Para isso, as delegações devem cumprir rigorosamente um cronograma de atividades que envolve áreas exclusivas em hotéis, competições, centros de treinamento e aeroportos. É proibido, por exemplo, sair do hotel em condições que não estejam previamente organizadas ou receber visitas.

O protocolo também determina a apresentação de um resultado negativo para o novo coronavírus a todos os participantes do torneio. O teste indicado é o RT-PCR, que tem de ser feito 48 horas antes da entrada no Brasil ou da realização da partida.

Apesar de as regras serem semelhantes às de outros campeonatos disputados no país, pesquisadores ouvidos pela CNN alertam que não existe bolha perfeita.

“O principal problema é a ideia de que é impossível uma bolha sanitária para um vírus que se transmite pelo ar. Obviamente que a Copa, em termos de fluxos e quantidades de pessoas, vai muito além das delegações, staff e jornalistas. Sempre haverá maior movimentação e circulação de pessoas próximas aos locais de hospedagens das delegações e dos estádios. Então, o primeiro ponto é o aumento do fluxo de pessoas, no momento atual, da pandemia”, diz o coordenador do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz, Carlos Machado.

Ele chama atenção para taxas de ocupação de leitos de até 90% em estados e capitais do país, lembrando que o Conselho Nacional de Secretários de Saúde recomenda medidas de bloqueio ou lockdown quando os percentuais atingem 85%.

A CNN levantou que o Brasil vai receber pouco mais de 1.200 estrangeiros para participar da Copa América, entre atletas e jornalistas. Mas o evento também vai mobilizar toda uma cadeia de serviços e brasileiros envolvidos na recepção, segurança e logística das delegações.

Situação que, para a pesquisadora em saúde e membro do comitê de combate ao coronavírus da UFRJ, Chrystina Barros, propicia um cenário perfeito para o cruzamento de variantes. Barros avalia que faltou uma estratégia combinada entre quarentena e testagem.

“Não há quarentena se a gente considerar que o campeonato foi anunciado no início de junho para já começar no dia 13 do mesmo mês.  Além disso, a quarentena precisa ser extensiva não só aos jogadores e participantes credenciados, mas a todos os envolvidos de forma mais ampla”, afirma.

Outros trechos do regulamento também chamam atenção, como o que proíbe jogadores de cuspir ou assoar o nariz antes, durante, e depois das partidas.

Para os especialistas, é praticamente impossível que a regra seja obedecida. “Não tem como. Eles sugerem que não se faça isso por uma questão pública, mas o jogador não vai se lembrar disso no calor do jogo”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, Ivan Pacheco.

O médico, que contribuiu para fazer os protocolos sanitários do Campeonato Estadual do Rio Grande do Sul, considera as regras da Copa América corretas. Ele reconhece que não existe nenhum protocolo 100% seguro, mas acredita que as multas estabelecidas pela Conmebol – US$ 15 mil na primeira vez e mais de US$ 30 mil em caso de reincidência – vão contribuir para que os protocolos sejam seguidos.

“As penalizações monetárias são mais respeitadas e isso é algo que a gente vê no nosso dia a dia. Se você disser que recebe uma advertência, não adianta. Mas se recebe pode receber uma multa, obedece porque não quer pagar”, diz.

A Comenbol informou à CNN que segue todos os protocolos sanitários internacionais.

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