Craques em campo, veteranas da seleção firmam representatividade pela TV

Na busca pelo inédito ouro olímpico, time liderado por Marta volta a campo no sábado (24), em partida contra a Holanda pela liderança do grupo F

Marta, jogadora da seleção feminina do Brasil, nas Olimpíadas 2020
Marta, jogadora da seleção feminina do Brasil, nas Olimpíadas 2020 Foto: Andre Penner/AP

Leandro Iamin e Paulo Junior, colaboração para a CNN

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Quem perdeu a hora e assistiu apenas aos lances da goleada da seleção feminina do Brasil sobre a China viu um ataque inspirado na velocidade de Debinha, na força de Bia e nos gols de Marta. Uma implacável goleada por 5 a 0 em Miyagi, com Bárbara impecável debaixo da trave.

Quem pegou a transmissão da estreia nos Jogos Olímpicos desde o inicio, pouco antes das 5h da manhã no horário brasileiro, teve a prova de que essa geração protagoniza um novo patamar de representatividade quando se olha para a orientação sexual das atletas, tabu ainda presente que aos poucos vai sendo quebrado com ajuda direta das futebolistas brasileiras.

De casa, o público viu uma entrada ao vivo de Erica, companheira de Formiga, que aos 43 anos jogou todas as edições do futebol olímpico; acompanhou os comentários de Cristiane, 36, que acabou preterida pela técnica Pia Sundhage, mas participou da transmissão com o filho Bento no colo e a companhia da esposa Ana Paula; e terminou com a craque Marta, 35, explicando que a comemoração foi para a noiva Toni.

Sim, torcida brasileira. As grandes jogadoras da seleção, mulheres que são a cara de uma geração que mudou o patamar da amarelinha, se relacionam e constroem famílias com outras mulheres, sem que isso precise necessariamente ser escondido. Pelo contrário. Entre vitórias trabalhistas, estruturais e esportivas, estas atletas também conquistaram voz e espaço para serem quem são – e ajudarem outras tantas mulheres a fazer o mesmo. 

Marta comemora gol contra China na estreia da seleção brasileira nas Olimpíadas
Marta homenageia a noiva ao comemorar gol na estreia da seleção brasileira nas Olimpíadas de Tóquio
Foto: Molly Darlington – 21.jul.2021/Reuters

O armário escancarado

Quando as fotos de Marta fazendo a letra T começaram a circular pela internet, Mariana Ruggieri foi às redes. A doutora em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo, autora de “A bola é que são elas” (Treme Terra, 2018), postou o gesto da camisa 10 e escreveu que o futebol sempre lhe foi um lugar onde a dissidência sexual e de gênero existia. Aquele ambiente, nos últimos anos, começou a transparecer diante das câmeras.

“Por uma série de razões históricas – sobretudo a proibição do futebol feminino -, o futebol se constituiu como um ‘esporte de homem’, de modo que podemos depreender disso que meninas que começam a jogar futebol não estão interessadas na manutenção desse script. De modo consciente ou não, o futebol atrai muitas garotas que não se identificam com uma série de protocolos de feminilidade, entre as quais está a heterossexualidade”, comentou em entrevista à CNN.

Ela conta que é como se o futebol fosse se constituindo, mesmo com a perseguição e a proibição, como um espaço clandestino, mas seguro, para mulheres lésbicas. E aí vem a profissionalização, a visibilidade, a mídia, as mudanças sociais para a população LGBTQIA+ e o surgimento de figuras como Megan Rapinoe, jogadora dos Estados Unidos que alcançou um papel importante na luta por questões de gênero. “Isso vai derrubando obstáculos, inspirando e fortalecendo outras mulheres no futebol a fazer o mesmo”, continua.

Formiga, de 43 anos, participa de sua 7ª edição das Olimpíadas
Formiga (E), de 43 anos, participa de sua 7ª edição das Olimpíadas
Foto: VCG – 21.jul.2021/VCG via Getty Images

Espírito do tempo

Formiga tem de vida praticamente o mesmo tempo que o futebol feminino teve de proibição formal no Brasil (de 1941 a 1983). Só a sua presença, portanto, já serve como referência para compreender as restrições históricas da modalidade, que, afinal, não se desenvolve em uma sociedade estática. Os debates também mudam fora do esporte com o passar das décadas, e a seleção feminina, hoje, tem maior penetração e impacto do que nunca. 

“A gente representa milhões de pessoas e é importante sair do armário e quebrar barreiras”, disse Formiga em coletiva nesta sexta-feira (23).

Fico feliz que minha esposa fale na TV, que a Marta se posicione e que a Cristiane, com seu filhão, faça o mesmo. Dessa forma a gente vai conquistando o respeito. O respeito é tudo, não só como atleta mas como ser humano.

Formiga

A amplificação do discurso que pede respeito se dá, então, com alguma mistura entre as esferas profissional e particular. Neste caso, em nome de um bem maior e uma mais ampla contribuição para o debate público, o que temos são jogadoras dispostas a compartilhar intimidades que, em uma sociedade equilibrada e sem déficits no tema, não teriam o impacto que têm. 

A visibilidade tem os seus rebotes. Em maio, a atacante Chu, do Palmeiras, se posicionou em redes sociais, diante da morte do ator Paulo Gustavo, com afirmações de cunho preconceituoso. Como um organismo saudável, a comunidade do futebol feminino prontamente se manifestou contra as palavras de Chu e pediu respeito a toda diversidade. O mesmo respeito que Formiga festeja ao ver a esposa na TV. 

O impacto recente

Se Rapinoe desafiou o então presidente dos EUA Donald Trump quando provocada por ele na Copa do Mundo de 2019, é preciso voltar um torneio antes, o de 2015, para lembrar de Abby Wamback. Assim que soou o apito e os Estados Unidos confirmaram o título, ela correu para beijar a esposa nas arquibancadas. Tudo isso pouco depois do país aprovar o casamento para pessoas do mesmo sexo.

“Aquilo prova que é possível”, diz André Bloc, editor de “O Povo” e colunista de diversidade sexual nos esportes, se lembrando da cena em conversa com a CNN. “É uma forma de carinho, qual o problema que as pessoas tinham com isso? Então acho que a gente precisa ver essas histórias para provar que a gente pode existir. Eu cresci com ‘ser gay’ parecendo um xingamento. Eu não sabia o que era, só sabia que era errado.”

Megan Rapinoe, jogadora da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos (EUA),
Megan Rapinoe, jogadora da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos (EUA), nas Olimpíadas 2020
Foto: Ricardo Mazalan/AP

Com esse cenário de representação de nomes como Wamback, Rapinoe e Marta, é possível enxergar a consolidação de um perfil de lideranças na modalidade: mulheres engajadas e próximas dos debates sociais urgentes. Quando Rogério Caboclo, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, foi afastado por assediar uma funcionária da entidade, foram as mulheres que entraram com uma faixa de repúdio ao caso – a equipe dos homens mantive um discurso protocolar.

“Pensa se um Pelé se assume gay, se um Messi se assume gay. A Marta fez isso. E tem um discurso um pouco esvaziante que diz que é mais fácil por ser mulher, mas não. Ela está afetando a imagem que é cheia de preconceitos. E que bom ver que isso evoluiu. O futebol feminino sabe que transcende as quatro linhas. Acho que os laços, que andam rompidos no masculino, acabam se estreitando no feminino”, seguiu Bloc. 

Pegando essa questão por outro ângulo, Mariana Ruggieri lembra de uma notícia antiga envolvendo a capitã da seleção. “A primeira vez que eu vi algo na grande mídia sobre a sexualidade da Marta, a reportagem era mais ou menos assim: ‘Como todo grande jogador de futebol, Marta é vista saindo de um carrão com uma loira [se referindo à namorada dela na época]‘. Quer dizer, esses são os parâmetros: o que a Marta fez, segundo essa lógica, foi aceder aos parâmetros da virilidade masculina, para quem mulher e carro seriam adereços intercambiáveis.”

De Sissi a Marta, Cristiane e Formiga

O mais conhecido trio de jogadoras dessa geração está junto desde a Copa do Mundo de 2003. Agora, fora da convocação, Cristiane acompanha as Olimpíadas pela TV, como comentarista convidada da Rede Globo. 

Antes delas, porém, veio Sissi. Uma espetacular jogadora de futebol, o grande nome do Brasil pré-Marta, e alguém que jamais se curvou aos padrões de beleza e às instituições de gênero – em um país que teve, em 2015, ninguém menos que o coordenador de seleções femininas sugerindo “espírito de elegância” com “shorts mais curtos e cabelos bem feitos” para fomentar o futebol feminino.  

O que se deu na época de Sissi foi, mesmo com a flagrante categoria da camisa 10 com a bola, uma rejeição, ou ao menos um esquecimento, muito por conta de sua personalidade e estilo. Enquanto o novo Campeonato Paulista, pretensamente um projeto de vanguarda para a modalidade, buscava “beldades” para compor as escalações, Sissi usava o cabelo raspado e se importava só com o jogo. 

Haverá pouca semelhança entre o que Sissi experimentou do futebol brasileiro e o que a próxima geração terá pela frente. Partidas televisionadas com narradoras e comentaristas mulheres, mediadas por árbitras em uma estrutura na qual elas também são dirigentes e técnicas é o legado que impacta no jogo. Poder comemorar o gol em homenagem a própria namorada ou esposa é a parte que reflete conquistas maiores. 

O Brasil joga pela liderança do grupo contra a Holanda, atual vice-campeã do mundo, neste sábado, às 8h da manhã, em Miyagi, agora já com a cerimônia oficial de abertura dos Jogos, histórica por muitos sentidos, devidamente feita.

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