Em luta contra o racismo, Thierry Henry inspira boicote a redes sociais

Ex-jogador fechou contas nas redes depois de ataques racistas a jogadores; futebol inglês faz protesto neste fim de semana

O técnico Thierry Henry, do Montreal Impact, ajoelha-se em homenagem ao movimento Black Lives Matter em 16 de julho de 2020
O técnico Thierry Henry, do Montreal Impact, ajoelha-se em homenagem ao movimento Black Lives Matter em 16 de julho de 2020 Foto: Michael Reaves/Getty Images

Darren Lewis e Matias Grez, da CNN

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Faz cinco semanas que Thierry Henry excluiu suas contas nas redes sociais e que o ex-atacante do Arsenal vem passando por uma série de emoções.

O agora técnico tomou a decisão no final de março, após uma onda de abusos racistas online dirigidos a jogadores de futebol negros e o que ele classifica como incapacidade das empresas de mídia social de responsabilizar os usuários por suas ações.

Henry diz que não estar no Instagram ou no Twitter nas últimas semanas tem sido “ótimo”.

“No início, eu estava com um humor meio estranho, digamos, e eu estava tipo: ‘As pessoas não estão percebendo o que está em jogo aqui e o problema que esta sociedade tem agora’.”

“Mas eu estava sempre falando e citando a força do grupo, e às vezes, quando você tem que gritar algo sozinho, você se sente solitário – mas eu não estou falando de mim, estou falando sobre as pessoas que foram atacadas, assediadas pela aparência, pelo que acreditam, pela cor da pele, nas redes sociais.”

“Talvez se eu sair das redes sociais, tomando uma posição pelas pessoas que talvez não tenham voz, seja possível criar uma onda. As pessoas gostariam de saber por quê. Depois disso, houve um pequeno período em que eu pensei: ‘Bem, é uma pena que as pessoas não estejam reagindo.'”

Apesar de o Twitter e o Instagram – que é propriedade do Facebook – anunciarem recentemente medidas para tentar combater o problema, os ataques racistas online contra jogadores de futebol negros continuaram.

Quando Henry tomou pela primeira vez a decisão de deletar suas contas nas redes sociais, o homem de 43 anos disse à CNN que esperava inspirar outras pessoas a se posicionarem contra o abuso racista e o bullying online. Cinco semanas depois, suas ações certamente surtiram o efeito desejado.

Nessa sexta-feira (30), os clubes da Premier League, English Football League, Women’s Super League e Women’s Championship, órgãos dirigentes e organizações como Kick It Out iniciaram um apagão de três dias nas redes.

Algumas das maiores emissoras do Reino Unido, como Sky Sports e BT Sport, também participam do apagão, que terminará nesta segunda-feira (3).

 “Se [saindo da mídia social] pode causar um pequeno impacto e ter um impacto … para isso, você precisa da força do grupo”, diz Henry. “Então, quando vi que isso aconteceu recentemente, fiquei realmente feliz, mas estava pensando em todas as pessoas que esperavam por isso há muito tempo. É uma ótima ferramenta, como falamos, mas as pessoas às vezes usam isso como uma arma.”

“Gosto do fato de que as pessoas realmente percebem que, quando nos reunimos, é… poderoso. Percebi que talvez o fato de eu vir desse meio pudesse criar uma pequena onda na mídia e criou, fazendo com que as pessoas respondessem a algumas perguntas. Quando vi o que começou a acontecer neste fim de semana, eu pensei: ‘Ok, Ok, é um começo, é um começo.’”

“Muitas pessoas estão – não estou dizendo acordando porque todos estavam cientes disso – mas agora falam alto sobre isso e têm a mesma energia que colocam na Super League. Parece que estamos conseguindo ser corajosos para tentar fazer com que essas grandes empresas respondam às perguntas que temos. E eu sei que não é fácil também do lado deles, mas esse é o trabalho deles.”

A posição das redes sociais

Desde que o boicote foi anunciado, o Twitter e o Facebook reiteraram o desejo de remover todos os tipos de abusos das plataformas.

“Não queremos abusos discriminatórios no Instagram ou no Facebook”, disse um porta-voz do Facebook à CNN. “Compartilhamos o objetivo de lidar com o problema e responsabilizar as pessoas que o compartilham. Fazemos isso tomando medidas em relação a conteúdos e contas que violam nossas regras e cooperando com as autoridades policiais quando recebemos uma solicitação.”

“Estamos comprometidos em combater o ódio e o racismo em nossa plataforma, mas também sabemos que esses problemas são maiores do que nós, então esperamos continuar nosso trabalho com parceiros da indústria para resolver o problema – tanto online quanto offline.”

Questionado pela CNN sobre a ausência contínua de Henry de sua plataforma, um porta-voz do Twitter disse: “O comportamento racista, o abuso e o assédio não têm absolutamente nenhum lugar em nosso serviço. E ao lado de nossos parceiros no futebol, condenamos o racismo em todas as suas formas.”

“Estamos firmes em nosso compromisso de garantir que a conversa sobre futebol em nosso serviço seja segura para os torcedores, jogadores e todos os envolvidos no jogo.”

“O racismo é uma questão social profunda e complexa e todos têm um papel a desempenhar. Estamos empenhados em fazer a nossa parte e continuar a trabalhar em estreita colaboração com parceiros valiosos no futebol, governo e polícia, juntamente com o grupo de trabalho convocado pela Kick It Out para identificar maneiras de lidar com esse problema coletivamente – tanto online quanto fora da mídia social. “

De acordo com o Twitter, ele tentou entrar em contato com Henry e gostaria de ter a oportunidade de falar com ele.

O Instagram esteve em contato com o representante de Henry, antes de ele deixar a rede social e desde então.

Henry disse à CNN que não falou diretamente com ninguém no Instagram, mas disse que a empresa entrou em contato com seus representantes. Henry recusou a oportunidade de se encontrar com alguém no Instagram, pois quer que a prioridade das empresas seja tomar medidas para acabar com os abusos.

“Temos tantas, tantas discussões. Eu só quero ação. É isso. Sobre o que vamos falar? Me contando o que [declaração] você acabou de divulgar?”

Henry diz que o blecaute é uma iniciativa bem-vinda, mas adverte contra a complacência. Ele entende que continuará a ser uma batalha difícil e admite que talvez nunca a veja se concretizar, mas é inabalável em seu compromisso com a luta.

“[O que] o mundo do futebol inglês está fazendo neste minuto e o que vai acontecer no fim de semana, as pessoas me perguntam. E eu: ‘É um começo.’ Mas sim, temos uma voz. Podemos realmente conscientizar as pessoas de nossa desaprovação e esperar que as coisas mudem. Se você não fizer nada, nada mudará. Como eu sempre disse, se você tentar fazer algo, poderá ter sucesso ou não, mas você está conscientizando as pessoas e, ao longo do caminho, terá um impacto.”

“Talvez não este ano, talvez não em dois anos, talvez não em três anos. Talvez não possamos ver, mas você tem que fazer alguma coisa.”

Organizações de mídia do Reino Unido aderiram ao boicote às redes sociais neste fim de semana. A CNN decidiu não aderir, mas acredita ter uma voz única para relatar esta campanha e outras semelhantes. A CNN está empenhada em reportar questões de racismo e assédio online onde quer que ocorram no mundo. 

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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