Limitação de troca de técnico no Brasileirão obriga clubes a melhorar gestão

Especialistas ouvidos pela CNN veem perspectiva de melhora no trabalho dos técnicos e redução no endividamento dos clubes

Mesmo sendo um dos clubes mais vitoriosos da temporada, o Palmeiras trocou de técnico duas vezes. Auxiliar do português Abel Ferreira (na foto) vê melhores condições de trabalho no horizonte.
Mesmo sendo um dos clubes mais vitoriosos da temporada, o Palmeiras trocou de técnico duas vezes. Auxiliar do português Abel Ferreira (na foto) vê melhores condições de trabalho no horizonte. Foto: Alexandre Neto/Photopress/Estadão Conteúdo

Adalberto Leister Filho, da CNN, em São Paulo

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Além da pandemia, a edição de 2021 do Campeonato Brasileiro vai ter uma novidade importante. Em um país com uma cultura de constantes mudanças de treinadores, passa a vigorar uma nova regra aprovada pelos clubes, reunidos no Conselho Técnico da Série A na quarta-feira (24), que limita as trocas.

Os times só poderão mudar o comando uma vez por ano. A regra também vale para os técnicos, que só poderão se demitir de um clube uma vez. Caso peçam demissão pela segunda vez, não poderão ser inscritos por um time do campeonato.

Para especialistas ouvidos pela CNN, essa limitação de troca de treinadores durante o próximo Campeonato Brasileiro pode trazer mudanças importantes não só no planejamento como na administração dos clubes. Para profissionais envolvidos no futebol, a estabilidade será um fator positivo para o trabalho dos técnicos.

“É difícil manter uma equipe sempre no mais alto nível com tanto volume de jogos. Muitas vezes há momentos um bocadinho mais baixos. Isso não invalida que o trabalho não seja bem-feito, que os jogadores e o treinador não sejam competentes”, pondera João Martins, auxiliar de Abel Ferreira no Palmeiras, que tem comandado o time durante as férias do treinador.

O Palmeiras é um exemplo de clube bem-sucedido na última temporada, com os títulos do Paulistão, Libertadores e Copa do Brasil. Mesmo assim, realizou duas mudanças de comando ao longo da última temporada, com a saída de Vanderlei Luxemburgo, que cedeu o posto para o interino Andrey Lopes, que finalmente passou o bastão para Abel Ferreira.

Para Martins, a instabilidade de um time ao longo de um calendário tão pesado de jogos é esperada e não deveria ser motivo para troca de comando.

“Todos nós queremos estar lá em cima. Mas é normal haver queda de rendimento com tantos jogos, de três em três dias, e as vitórias não aparecerem. Com essa medida, vai trazer um bocadinho mais estabilidade e um bocadinho mais de paciência para todos nós”, acrescentou o auxiliar técnico palmeirense.

Em países em que a regra foi implantada, naturalmente, ao longo do ano, os clubes passaram a promover menos trocas de comandos. É o caso do Campeonato Espanhol. Na atual temporada, após 28 rodadas já disputadas, apenas cinco modificações no banco dos times da primeira divisão. Uma delas foi a contratação de Eduardo Coudet, que deixou o Internacional para assumir o Celta de Vigo.

Como forma de comparação, na última temporada do Brasileirão, houve 33 mudanças de treinador nas 28 primeiras rodadas da competição. E casos como o de Coudet, que pediu demissão do Inter para se aventurar na Espanha, são extremamente raros. Normalmente, os técnicos é que são responsabilizados por uma sequência de resultados ruins e acabam demitidos.

“A mudança vai levar a um melhor planejamento do que o clube pretende e qual é o perfil mais adequado naquele momento. Os clubes terão que ter maior cuidado sobre qual profissional vai dirigir o time”, analisa Ary Rocco Júnior, vice-presidente da Algede (Associação Latino-Americana de Gestão Esportiva) e professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP.

Para Erich Beting, CEO da Máquina do Esporte, site especializado em gestão e marketing esportivo, a obrigatoriedade de os treinadores também só poderem trocar uma vez de clube ao longo da temporada pode gerar mudanças a longo prazo.

“Acredito que a limitação seja a primeira medida prática que pode realmente forçar a uma mudança de cultura, tanto dentro dos clubes quanto com os treinadores. Dos dois lados, será preciso pensar melhor antes de firmar um contrato”, afirma ele.

Recentemente foi revelado que o Santos deve salários para sete ex-treinadores do clube. Com a proibição de promover tantas trocas, a gestão financeira pode ter impacto positivo.

“No médio prazo, a limitação força os times a não gastarem tanto com pagamento de salários ou multas para treinadores que já deixaram o clube, como acontece hoje”, opina Erich. “Outro impacto que pode existir no médio prazo é a própria redução de gastos com contratação de jogadores. Com menos rotatividade de treinadores, reduz também o entra e sai de atletas.”

Para Ary, a CBF teve um papel importante nesta imposição de melhoria na gestão dos clubes. Apesar de a nova regra ter sido votada pelos clubes (com placar apertado de 11 a 9), ele vê a confederação como fiadora fundamental para que houvesse a mudança.

“É uma medida de fora para dentro. A CBF está exercendo um papel de órgão regulador do sistema, com medidas mais rigorosas para regular a saúde financeira das entidades participantes. Está contribuindo para melhorar a gestão. É o começo de uma atuação mais rígida. Mas ainda está muito atrás do que acontece na Europa, com a Uefa e as ligas nacionais fazendo esse papel de órgão regulador”, afirma.

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